Artigos e Entrevistas

Uma análise da conjuntura de igreja

Os gestos e palavras do Papa Francisco nos convidam a voltar ao projeto de Jesus, a buscar novas estradas e métodos criativos na evangelização. Porém, em nossa realidade, nos deparamos com a velha estrutura eclesial, fechada dentro de hábitos que não respondem a novas necessidades.

 

ECLESIOLOGIA EM PROPULSÃO: Papa Francisco – semeador da esperança.

  1. PROPULSÃO x HERANÇA

Um sentimento estranho nos vem quando tentamos entender a Igreja hoje. Seguindo de perto as movimentações do Papa Francisco, uma esperança muito grande nos invade. Seus gestos e palavras nos indicam um frescor evangélico, algo como um convite forte que soa aos nossos ouvidos e corações, dizendo: voltem ao Evangelho, voltem a Jesus e ao seu projeto, mais importante que a instituição é o Reino! Como ele nos disse: “Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual” (EG 11). Porém, quando colocamos os pés no chão de nossa realidade, nos deparamos com a velha estrutura, que quer sempre tudo igual, insistindo em manter-se fechada dentro de hábitos que não respondem a novas necessidades, que obstaculizam ver a realidade com mais transparência.

No fundo, trata-se do velho confronto de paradigmas: por um lado, o paradigma lateranense-tridentino, sacramentalista e clerical, centrípeto e de olhos fechados aos sinais dos tempos; de outro, o paradigma Vaticano II-franciscano: alegre e centrado em Jesus e na sua Palavra, centrífugo e leve, misericordioso e ecológico; da Igreja pobre para os pobres.

Falar de uma eclesiologia em propulsão, a partir do pontificado de Francisco, nos leva a perguntar: será que desta vez o corpo anda obedecendo a sua cabeça?

Procurando por vários significados da palavra propulsão, vejam que interessante. A Wikipédia nos diz que a propulsão é o movimento criado a partir de uma força que dá impulso. A propulsão pode ser criada em qualquer ato de impelir para frente ou dar impulso. No corpo humano, os ossos e músculos devem estar em harmonia, para conseguir criar propulsão para andar, correr e se movimentar. Isso serve de metáfora perfeita para se entender o porquê de um Papa tão dinâmico e simples, despojado e autêntico, como cabeça de um corpo que muitas vezes não se movimenta e nem anda. Uma cabeça que quer uma Igreja em saída, mas um corpo que insiste em não dar os passos necessários, para fora de si mesma.

Por isso, vemos o pêndulo histórico pendendo para um lado, pendendo para o outro e deixando-nos com um sabor de que o tempo é curto para grandes mudanças. Porém, o que nos traz esperança hoje é ver que a sensibilidade na cabeça da Igreja avança, vê longe, sente o cheiro das ovelhas, escuta o clamor dos descartados da história, saboreia a Palavra de Jesus pronunciada pela boca dos pobres, mesmo quando muitos ainda fazem com que ela pareça um corpo que insiste em permanecer sentado, estático, como que esperando a história passar, surdo aos clamores dos pequenos, cego às reais necessidades do nosso tempo, com um discurso que se tornou anacrônico. Com todo o respeito aos irmãos e irmãs que ainda não perceberam as novas necessidades da evangelização, é possível comparar a Igreja de hoje com alguém que padece de hidrocefalia: cabeça grande num corpo atrofiado. É Francisco, como cabeça, que quer ir adiante, mas a estrutura montada nas últimas décadas se apresenta por demais pesada, quase que lhe impedindo dar passos para uma verdadeira Igreja em saída (Cf. EG 46).

II. A IGREJA DE JESUS NAS PEGADAS DE FRANCISCO

Um sinal forte da Igreja anunciada e querida pelo Papa Francisco é a porciúncula: pobre e para os pobres. Uma Igreja que reencontra no Evangelho a alegria de viver e testemunhar a presença do Espírito na história. Nada de triunfal, mas pequena, como o fermento que desaparece na massa, mas a fermenta toda, devolvendo-lhe o sabor de ser querida pelo Pai, no seio da Trindade que é comunhão do um na diversidade dos três, desejosa de uma unidade sem uniformização. Três dias após de ter sido eleito Papa, numa conversa com jornalistas do mundo todo, depois de explicar o porquê da escolha do nome de Francisco, arrematou: “Francisco é o homem que nos dá um espírito de paz, o homem pobre… “Ah, como gostaria de uma Igreja pobre e pelos pobres!”. 

Essa Igreja pobre e em saída, enlameada no barro da história dos pobres e nas suas lutas, resgatando todos os caídos às margens, nas mais diversas periferias existenciais é, como na parábola do bom samaritano, pagadora de suas dívidas com o verdadeiro dono da hospedaria e comprometida com as dívidas futuras, que por ventura se possa contrair ao largo dessa estadia, marcada pelo paradoxo de angústias e esperanças, tristezas e alegrias, que conferem identidade ao nosso caminhar histórico.

Vejamos algumas indicações práticas dessa Igreja em saída, que nos dão sinais indiscutíveis da presença do Espírito entre nós.

  1. Na perspectiva do projeto de restauração dos dois pontificados que antecederam ao do Papa Francisco, também conhecido como “Nova Evangelização”, fomos edificando uma Igreja centralizada no clero, ainda que se falasse do protagonismo dos leigos; sacramentalista e não muito criativa nas iniciativas pastorais mais proféticas; permaneceu, mesmo que nem sempre se percebesse, um anseio de termos, com prioridade, uma instituição poderosa, com tudo muito bem definido e uniformemente prescrito num código de leis e num catecismo universal. Estamos agora buscando um novo rumo: uma Igreja pobre entre os pobres, despojada, promotora da cultura da proximidade e do encontro. Surge a expectativa de uma Igreja discípula e não apenas mestra, capaz de aprender também no diálogo em vez de somente ditar regras e normas.  
  2. 2.Temos trilhado um caminho muito cheio de exclusões, onde temas morais enchem a pauta eclesial de um modo que deixa de lado as condições das pessoas envolvidas. Precisamos cuidar das reais necessidades dos pobres, migrantes, excluídos e descartados pela sociedade neoliberal, consumista e que vive na idolatria do lucro e do Deus mamona. Com a Igreja em saída, voltamos ao poço de Sicar para um diálogo com as samaritanas da vida; entramos outra vez na casa dos publicanos, provocando conversões; vamos às margens para acolher os refugiados que sobreviveram às duras travessias de um oceano de tormentas que separa o mundo pobre do abastado; ousamos sentar às portas daqueles que ousam se banquetear, ao som de músicas estridentes, o que lhes dificulta escutar os latidos dos cães que nos lambem as feridas. E o mais significativo disso tudo é testemunhar o Evangelho com alegria, como verdadeira boa notícia também para os pobres e pecadores.
  3. A misericórdia voltou a ser palavra de ordem, a ser bandeira desfraldada sem temor, seguindo Jesus que disse: “Não são as pessoas com saúde que precisam de médico, mas as doentes. Ide, pois, aprender o que significa: eu quero a misericórdia e não sacrifícios” (Mt 9,12-13). Afirma Francisco: “Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que nora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (MV 2). É nesse prisma que se pode também afirmar que a Igreja não é uma instituição alfandegária, montada para excluir exatamente aqueles pelos quais nosso Senhor se fez carne e armou sua tenda na história. “Muitas vezes, agimos como controladores da graça, e não como facilitadores. A Igreja, porém, não é uma alfândega, mas a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa” (EG 47). Portanto, aproximar-se dos sacramentos não é um “prêmio aos perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (EV 47); é força para a prática da solidariedade, do acolhimento e da luta contra as injustiças.
  4. Em vez do narcisismo de uma Igreja autorreferenciada e autocentrada, buscamos exatamente a colegialidade, tão querida e propagada pelo Vaticano II. Diz Francisco: “Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar descentralização” (EG 16). E ainda: “… as conferências episcopais podem aportar uma contribuição múltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas. Sic Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária” (EV 32). Nessa perspectiva de colegialidade, tivemos um Sínodo feito em duas etapas, com questionário amplo e abrangente, com abertura compartilhada, onde cada pastor foi chamado a exercer o ministério da escuta, pautado pelo discernimento e inclusão. Na Exortação pós-sinodal Amoris Laetitia o Papa convocou os pastores para uma postura pautada pelos gestos de acompanhar, discernir e integrar a fragilidade, referindo aos casais com união irregular (Cf. AL 298ss.); um apelo aos bispos que deixem de lado a psicologia de príncipes e valorizem o agir colegial por meio das Conferências Episcopais (Discurso à Diretiva do CELAM, JMJ Rio/julho de 2013). E assim caminhamos para uma Igreja de consulta ampla aos diversos setores da sociedade, aprendendo com os de dentro e os de fora em suas conquistas e sofrimentos; capaz de em seus escritos fazer referências que vão além de suas fronteiras.[1]
  5. É uma Igreja que se assume, no mundo, como parceira de todas as criaturas, que buscam espaço de sobrevivência e superação da luta estreita pela mera busca de vantagens pessoais, que querem construir um mundo melhor. Além disso, promove a biodiversidade como forma de reconhecer a interdependência universal. Ressalta o destino comum de todos os seres que respiram e que compõem esse planeta aviltado pela fumaça do desenvolvimento irresponsável e gerador de desigualdades sociais ímpares na história. O Papa Francisco, se debruçou sobre o problema ecológico de maneira corajosa e destemida, apontando profeticamente a raiz humana da crise ecológica e denunciando que não tem futuro nosso planeta se se pautar unicamente pelo paradigma tecnocrático. Se não frearmos a mentalidade consumista em que esse paradigma nos involucrou, estaremos comprometendo gravemente a qualidade de vida de toda a humanidade. Propõe um novo paradigma centrado na ecologia integral, que leve em conta a ecologia ambiental, econômica, social e cultural, que contemple as questões ecológicas da vida cotidiana, tendo por base o princípio do bem comum e a justiça intergeracional (Cf. LS 137-162). Apela para uma conversão ecológica, onde somente a sobriedade, vivida livre e conscientemente, pode nos libertar da busca desenfreada pelo consumo, como se aí se reduzisse nossa possibilidade de ser feliz (Cf. LS 223)
  6. Com essas características, emerge uma eclesiologia verdadeiramente Povo de Deus, comunidade de comunidades e não mais protagonizada por movimentos restauracionistas e propagadores de um mundanismo espiritual, onde ao invés da simplicidade se propaga a teologia das alfaias e dos grandes templos. No lugar de liturgias próximas do frescor eucarístico da última ceia, há os que se perdem em detalhes sem sentir a alegria maior de estar na presença de Jesus. Expressão forte do papa Francisco é o mundanismo espiritual, que ele denuncia em diversas atitudes existentes de membros da Igreja. “O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás das aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal” (EV 93). Ainda identifica o mundanismo espiritual com certo “fascínio do gnosticismo, uma fé fechada no subjetivismo” e “o neopelagianismo autorreferencial e prometeico de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por sés irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado” (EV 94). Tal opção católica resulta num comportamento de “suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, em que, em vez de evangelizar, analisam-se e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar” (EV 94). Dentre esses, o Papa Francisco ainda destaca que “em alguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja” (EV 95). Em outros, tal mundanismo se manifesta no “traduzir em várias formas de se apresentar a si mesmo envolvido em uma densa vida social cheia de viagens, reuniões, jantares, recepções” (EV 95). Outros ainda substituem a dialética da cruz e ressurreição por uma pastoral de prodígios do Deus todo poderoso, mais próximo do mago de cartola do que do próprio Jesus, que sendo de condição divina se fez pequeno e servidor de todos. Em todos, afirma o Papa, “já não há ardor evangélico, mas o gozo espúrio de uma autocomplacência egocêntrica” (EV 95). E conclui de maneira não menos contundente: “Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais! Esse mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de estarmos centrados em nós mesmos, escondidos numa aparência religiosa vazia de Deus” (EV 97).
  7. Ao discorrer sobre a Igreja desejada pelo Papa Francisco, a partir da exortação Evangelii Gaudium, o teólogo Mário de França Miranda destacou que se trata de uma Igreja missionária e descentrada, configurada colegialmente, inculturada; uma Igreja de discípulos missionários, de cristãos autênticos; enfim uma Igreja dos pobres.[2] Sem dúvida, merece destaque o acento que o Papa Francisco faz ao legado do Vaticano II que trata da colegialidade na Igreja. A Constituição Dogmática Lumen Gentium abordou este tema com muito acerto para uns e assombro para outros, tanto que foi o único tema que mereceu, da parte da secretaria do Concílio, uma nota prévia, depois do texto votado, tentando dizer como se deve entender o texto sobre a colegialidade. Percebe-se, por aí, que o papa Francisco está pisando em terreno minado. Ele sabe disso e, conscientemente, apresentou-se desde o início como Bispo de Roma, trazendo à tona um tema caro ao Concílio. Entra em questão a noção do primado, que na perspectiva da Lumen Gentium fazia emergir uma revalorização do corpo episcopal. Assim discorre França Miranda:

“Os bispos recebem o cargo de ensinar, santificar e governar do próprio Senhor Jesus Cristo, e não indiretamente do Papa, como se afirmava antigamente, não podendo ser considerados ‘vigários do Sumo Pontífice’ (LG 27), embora só possa ser exercido tal múnus em comunhão com a Cabeça e com os demais membros do colégio episcopal. Esse colégio com o Papa constitui a instância da autoridade suprema na Igreja, embora o Papa conserve seu poder primacial (LG 22). Consequentemente, as Igrejas Locais podem ser por si mesmas sujeitas de pleno direito, bem como responsáveis pelas demais, sobretudo de sua região, o que na linha das antigas Igrejas patriarcais irá se constituir as Conferências Episcopais (LG 23)”.

Acontece que tal eclesiologia se perdeu frente a um excesso de centralismo romano exercido implementado na Igreja, de maneira mais intensa após o Sínodo Extraordinário dos Bispos, ocorrido em 1985, com a proposta de avaliar os vinte anos do caminhar da Igreja sob as orientações emanadas no Concílio Vaticano II. Às vésperas deste Sínodo, o então cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, concedeu uma longa entrevista e fez o seu balanço pessoal do Concílio, antecipando-se aos bispos sinodais. Ele foi muito claro ao dizer que “é incontentável que os últimos vinte anos foram nitidamente desfavoráveis para a Igreja católica” (Ratzinger, 16).[3] E sob este prisma avaliou negativamente quase todos os frutos do Concílio, sobretudo aqueles que impulsaram uma Igreja em saída: as Conferências Episcopais, a autocrítica eclesial, a abertura ao mundo, a compreensão da igreja como Povo de Deus, o diálogo dos teólogos com as ciências na tentativa de responder ao problema mais dramático do mundo de hoje, a nomeação dos bispos. Sobre este último ponto, o cardeal Ratzinger afirmou:

“Nos primeiros anos do pós-Concílio, o candidato ao episcopado parecia ser um sacerdote que fosse, antes de tudo, aberto ao mundo; em todo o caso, este requisito era posto em primeiro plano. Depois da virada de 1968 e em seguida, lentamente, com o agravar-se da crise, compreendeu-se que aquela característica única não era suficiente. Percebeu-se que, também através de amargas experiências, se faziam necessários bispos abertos, mas, ao mesmo tempo, dispostos a opor-se ao mundo e a suas tendências negativas” (Ratzinger, 44-45).[4]

Com isso, passou-se então à mudança de critérios na escolha dos bispos e, ao mesmo tempo, perseguição aos que eram abertos ao mundo. Hoje, o Papa Francisco não tem muito com quem contar no episcopado, pois ele fala deseja uma Igreja em saída e a grande maioria dos bispos tem as vistas voltadas para dentro e não para fora.

Volta-se agora, com o Papa Francisco, a insistência para o exercício da colegialidade, para a valorização da Igreja Local – a diocese –, mas na Igreja carece quem assuma tal perspectiva, quem tenha a eclesiologia conciliar que afirma:

“Esta Igreja de Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas comunidades locais de fiéis, que, unidas aos seus pastores, são também elas no Novo Testamento chamadas igrejas. (sic) Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres, ou vivendo na dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se consocia a Igreja uma, santa, católica e apostólica. Pois a participação do corpo e sangue de Cristo não faz outra coisa senão transformar-nos naquilo que tomamos” (LG 26).

III. REPERCUSSÕES DESSE CENÁRIO ECLESIAL

De 13 de março de 2013 até os dias de hoje, percorremos um caminho gigantesco rumo a uma Igreja mais voltada a Jesus e a seu Evangelho. Os gestos, as movimentações e as palavras do Papa Francisco foram inundando mentes e corações, talvez mais de maneira mais contundente fora da Igreja que dentro.  Tivemos a reação de um grupo de cardeais durante o Sínodo, manifestando suas preocupações com a postura mais aberta do Papa; seminaristas norte-americanos deixaram clara sua insatisfação com o ministério de Francisco; um grupo de teólogos está tentando provar que a Exortação que emergiu dos Sínodos da Família tinha pontos que afrontavam a doutrina da Igreja, sugerindo até mesmo um impedimento do Pontificado de Francisco.

O luso professor de filosofia Anselmo Borges reuniu em um só artigo vários relatos que atestam a resistência ao Papa Francisco, que cresceu, sobretudo, depois da publicação da Exortação Sobre o Amor na Família. Começou relatando as controvérsias de Francisco com o prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o cardeal G.L. Müller. Em abril de 2016, o Papa Francisco visitou por seis horas a ilha de Lesbos, na Grécia, onde se concentram milhares de refugiados. Na sua viagem de volta, interrogado se, depois dos Sínodos da Família,  algo mudou quanto à possibilidade da comunhão para os divorciados recasados, ele respondeu curto e rápido: “Eu posso dizer: sim. Ponto.” O Müller o corrigiu também prontamente, dizendo que os divorciados recasados não podem, em caso algum, aproximar-se da comunhão e o máximo a que podem aspirar, depois da confissão, é viverem “em castidade total, como irmãos”.

Não é a primeira vez que o Prefeito da Doutrina da Fé enfrenta o Papa, revelando que há sim oposição a ele dentro da Cúria Romana. Em outra ocasião, quando o teólogo Hans Küng revelou, num artigo, que o Papa se lhe dirigira pessoalmente como querido irmão, manifestando abertura a um debate livre na Igreja sobre o dogma da infalibilidade, Müller assegurou que é um herege, que “não crê na divindade de Cristo nem na Trindade”.

O cardeal Walter Kasper, numa entrevista, declarou que fora da Igreja há enorme quantidade de pessoas fascinadas com este Papa, mas que na Cúria há oposição resistente. Segundo Kasper tal rejeição se deve ao estilo do Papa Francisco, que vem tentando mudar a mentalidade da hierarquia católica, por acreditar que assim outras coisas possam ser mudadas. Mas agregou que a Cúria é uma instituição antiga, onde se cultivam carreiras e hábitos, tornando-a pouco sensível às mudanças.

O teólogo galego André Torres Queiruga, comentando sobre a Exortação Amoris Laetitia, afirmou que “nunca um Papa teve tão aberta oposição na história dos pontificados”.

Porém, mais contundente foi o teólogo basco, Xabier Pikaza: “estamos assistindo a um assalto orquestrado por cardeais da Cúria e outras vozes que começaram a dizer coisas como estas: que este Papa não sabe teologia (sabe o Evangelho!), que está a romper com a Lei Natural (a que eles crêem da sua natureza!), que está a destruir a Igreja, de modo que há que esperar que morra… Este é um assalto que provém da lei do medo, própria daqueles que não acreditam de verdade no evangelho da conversão, da forma nova de pensar e agir de Jesus. Um assalto dos que têm medo da sua própria liberdade, da sua responsabilidade pessoal. Para libertar-se do seu medo (sem conseguir), impõem duras obrigações legais aos outros, cargas que eles próprios são incapazes de carregar. Temendo eles, os “controladores da Igreja”, perder a sua função, ficando na rua, procuram a lei do “curral” fechado, controlado, pois temem que os cristãos sejam livres e “explorem de verdade a vida segundo o Evangelho”.

A resistência a Francisco tende a aumentar, pois ele instituiu uma comissão para estudar a possibilidade de ordenar mulheres como diaconisas. O cardeal Kasper já veio prevenir que muitos se oporão: “Creio que agora se abrirá uma discussão feroz. Sobre este tema a Igreja está dividida entre os que pensam que o diaconado permanente feminino é um regresso à Igreja primitiva e os que crêem que é um primeiro passo para as mulheres sacerdotes e que, por isso, não pode ser possível.”

Outra voz que alerta para a oposição ao Papa Francisco é a do teólogo checo Tomás Halík, autor do belíssimo livro “A noite do confessor”. Disse ele: “Estou profundamente convencido de que o Papa Francisco inicia um novo capítulo na história do cristianismo. Teve a coragem de dizer que as tentativas para reduzir o cristianismo à moralidade sexual, à criminalização do aborto e à demonização dos gays e dos preservativos foram uma obsessão neurótica. Todos sabemos que a defesa dos que estão por nascer e da família tradicional é importante, mas esta agenda não deve ofuscar valores ainda mais importantes como o amor misericordioso, o perdão, a justiça social, a solidariedade com os pobres, a responsabilidade ambiental, a paz e o diálogo amigável entre pessoas de culturas, nações, raças e religiões diferentes. O Papa é uma personalidade profundamente espiritual com uma mensagem profética que ultrapassa as fronteiras entre Igrejas e religiões, cristãos e humanistas.”

Mais recentemente, com ampla divulgação, tomamos ciência de uma carta escrita por quatro cardeais[5] ao Papa Francisco, revelando o descontentamento com a condução do atual pontificado. Dentre os cardeais que assinaram a carta, três são aposentados: os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner e o italiano Carlo Caffarra. O único que ainda está na ativa é o americano Raymond Leo Burke, crítico frequente do papa Francisco. Foi Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica no Vaticano (2008-2014) e destituído pelo papa Francisco de seu cargo, constituindo-o patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta. Os quatro cardeais afirmam que decidiram tornar a carta pública após esperar dois meses por uma resposta do pontífice que nunca chegou. E condicionam a resposta a um sim ou não. Não querem explicações, mas somente um sim ou não às questões levantadas por eles.

Eles foram tão arrogantes, que acabaram provocando reações de solidariedade ao papa Francisco em todas as partes. O Presidente da Conferência Episcopal da Grécia, Dom Fragkiskos Papamanolis, ofm.cap, fez publicar sua carta de apoio ao Papa e não poupou palavras para manifestar sua discordância em relação à carta dos quatro cardeais. Disse:

“Vocês escrevem que estão ‘profundamente preocupados com o verdadeiro bem das almas’ e, indiretamente, acusam o Santo Padre Francisco de ‘fazer progredir na Igreja alguma forma de política’. Pedem que ‘ninguém os julgue injustamente’. Injustamente os julgaria quem dissesse o contrário daquilo que vocês escrevem explicitamente. As palavras que vocês usam têm o seu significado. O fato de vocês se ornarem do título de cardeais não muda o sentido das palavras gravemente ofensivas ao bispo de Roma. Se vocês estão ‘profundamente preocupados com o verdadeiro bem das almas’ e movidos ‘pela apaixonada preocupação pelo bem dos fiéis’, eu, irmãos caríssimos, estou ‘profundamente preocupado com o verdadeiro bem das suas almas’, pelo seu duplo gravíssimo pecado: o da apostasia e o do escândalo”.[6]

Interessante também na Carta dos Cardeais que eles argumentam usando somente textos do Magistério do Papa João Paulo II e, quando fazem referência à Palavra de Deus, aludem à interpretação que esta recebeu nos textos do Papa João Paulo II. Aqui está um ponto chave tão bem aludido, de consideração eclesiológica, pelo teólogo valenciano González Fauz, sobre a interpretação da verdade na Igreja.[7] Na apresentação de sua obra que trata deste tema vemos a explicação do outro teólogo Evangelista Vilanova.

“Já se sabe que, ao se distanciar de suas origens, o cristianismo propôs a questão da ‘regra da fé’. Um sistema normativo situou-se ao lado de um sistema sacramental: apoiava-se no carisma pelo qual o Espírito Santo garantia aos bispos a capacidade de salvaguardar e interpretar a verdade revelada em Jesus Cristo”.[8]

Vilanova esclarece que tal carisma, porém, petrificou-se na Igreja na figura do Magistério, gerando uma distinção entre a Igreja que ensina e a Igreja ensinada, só enfrentada pelo Vaticano, que introduziu o conceito de Igreja de Comunhão e reconheceu também como critério de verdade em questões de fé e de costumes o sensus fidei (LG 12). Porém, alerta Vilanova:

“A nostalgia hierárquica, ou seja, a convicção de que o Magistério se situa entre Deus e o povo, está cristalizada em uma mentalidade que não avaliou as consequências da mudança de orientação eclesiológica, fato que explica as resistências suscitadas em face do temor de que a categoria ‘historicidade’ condicione a interpretação do Magistêrio”.[9]

E arremata, dizendo: “o Magistério católico não é uma entidade divina que escapa à nossa história”. Isso o Papa Francisco entendeu muito bem e está vivenciando nos seus gestos e escritos. Por isso, conclama a Igreja toda que na sua ação deixe-se permear por três verbos programáticos na evangelização: acompanhar, discernir e integrar. Como bom pastor, o Papa Francisco está preocupado com isso e quer que os pastores da Igreja aprendam a acompanhar de perto suas ovelhas, favorecendo uma cultura de discernimento e com o coração aberto para a inclusão de todos os que carecem da misericórdia.

O que está em jogo, como bem definiu o jesuíta italiano Bartolomeu Sorge, ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica e diretor emérito da revista Aggiornamenti Sociali, são três tensões que o Papa acentua com sua maneira de governar a Igreja e com os seus escritos: as tensões entre doutrina e pastoral, entre consciência subjetiva e objetividade da lei, e entre misericórdia e justiça.[10]

1ª. “Doutrina e pastoral se encontram no mesmo amor pela verdade. Só que a verdade não é uma abstração, mas se integra no caminho histórico de cada vivente. Portanto, não se trata de adequar a pastoral à doutrina, mas de respeitar a finalidade pastoral, inerente à própria doutrina. Isto é, a doutrina deve ser sempre interpretada e contextualizada; deve ser sempre proposta na sua integridade, mas à luz da mudança das exigências e do contexto, a serviço da missão evangelizadora da Igreja. Só assim o anúncio do Evangelho não será teórico nem abstrato, mas chegará a todos e continuará vinculado à vida real das pessoas.”[11]

2ª. “A Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão em uma situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante. Os limites não dependem simplesmente de um eventual desconhecimento da norma. Uma pessoa, mesmo conhecendo bem a norma, pode ter grande dificuldade em compreender ‘os valores inerentes à norma’ ou pode encontrar-se em condições concretas que não lhe permitem agir de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa”[12].

Como método para essa tensão o Papa propõe o discernimento e o diálogo, afirma Sorge. Porém, para isso é preciso aceitar a diversidade, acolhendo os que pensam diferente.

3ª. “A misericórdia, portanto, não é contrária à verdade, não é “bondade” ou sentimentalismo, mas encarna a verdade na vida. É isso que Deus faz em relação ao pecador, quando, todas as vezes, lhe oferece mais uma possibilidade para se arrepender, se converter e crer. “Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isso não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra, deve descontar a pena; só que isso não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a em um evento superior em que se experimenta o amor, que está na base de uma verdadeira justiça”.[13]

Há muita oposição interna ao Pontificado de Francisco, porém, o que parece ser mais forte é a resistência surda, daqueles que nada contestam, mas nada mudam. Seguem sua vida defendendo a rotina a que se acostumaram, e não dando passos rumo à superação de estruturas caducas, como já nos indicava a Conferência de Aparecida.

Projeto como reforma da Cúria Romana, das Nunciaturas, das Conferências, da estrutura ministerial, do relacionamento entre Igrejas Particulares e Vida Consagrada, de maior autonomia e responsabilidade das Igrejas Locais, de empoderamento de leigos e leigas, sobretudo de jovens, mulheres e outros, ainda encontram muitas resistências no interior da Instituição. Tem-se a sensação de que uma parcela da Instituição vive em compasso de espera, dizendo para si mesma: isso passa!

Acreditamos, porém, que as indicações do Papa Francisco para uma Igreja em saída ficarão como profecia, da mesma forma que permanece o frescor do Evangelho, que continua a soprar na história fazendo emergir um batalhão de seguidores de Jesus e propagadores do seu projeto no dia-a-dia da história.

Lembramos também que Francisco sempre fala do Evangelho como fonte de alegria. Na verdade, se vivermos a solidariedade, a caridade, a misericórdia, do jeito como Jesus nos pediu e seguindo seu exemplo, em espírito de serviço, certamente haverá muito mais alegria na vida de cada um, na Igreja e no planeta, casa comum da grande família dos filhos de Deus.

ÚLTIMO RECADO

Ao terminar este texto com muitas dificuldades, pois há tanto assunto que dificulta por um ponto final, lembrei-me de uma reflexão de nosso querido e saudoso Pe. José Comblin sobre a Conferência de Aparecida:

“O projeto de Aparecida é tão radical que surge uma dúvida: quem vai pôr esse programa na prática? A história mostra que todas as mudanças profundas na Igreja foram realizadas por pessoas novas, formando grupos novos e criando um novo estilo de vida, sempre a partir de uma opção de vida na pobreza. Nunca foram as lideranças estabelecidas, nem as estruturas instaladas. Estas não conseguem sair do seu papel tradicional. É o que faz pensar que o clero atual não tem condições para aplicar esse programa.”

Será que não dá para dizer o mesmo da proposta da Igreja em saída, presente nos documentos e gestos do Papa Francisco?

 

Manoel Godoy

Novembro de 2016

 


[1] Na Exortação apostólica sobre o amor na família – Amoris Laetitia, o Papa cita os escritores: Jorge Luis Borges (Arg), Octavio Paz (Mex), Mario Benedetti (Uru), Martin Luther King (USA), Gabriel Marcel (Fra), Erich From (Ale); e faz referência  ao filme A Festa de Babete.

 

[2] FRANÇA MIRANDA, Mário de. Linhas eclesiológicas da Evangelii Gaudium. In AMADO, Joel Poretella & FERNANDES, Leonardo Agostini (orgs.) Evangelii Gaudium em questão – aspectos bíblicos, teológicos e pastorais. São Paulo: Paulinas; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014. – (Coleção fronteiras).

[3] RATZINGER, Joseph. A fé em crise?: o cardeal Ratzinger se interroga/ Joseph Ratzinger, Vitorio Messori; {tradução Fernando Jose´Guimarães}. – São Paulo: EPU, 1985.

[4] Idem.

[5] Card. Walter Brandmüller, Card. Raymond L. Burke, Card. Carlo Caffarra e Card. Joachim Meisner

[6] http://www.ihu.unisinos.br/562592-carta-aberta-do-presidente-da-conferencia-episcopal-da-grecia-aos-quatro-cardeais.

[7] GONZÁLEZ FAUS, José Ignácio. A autoridade da Verdade. Momentos obscuros do Magistério eclesiástico. São Paulo, Loyola, 1998.

[8] Idem.

[9] Idem.

[10] http://www.ihu.unisinos.br/562594-doutrina-e-pastoral-a-proposito-de-alguma-criticas-recentes-ao-papa-francisco-artigo-de-bartolomeo-sorge

[11] Idem.

[12] Papa Francisco. Amoris Laetitia. São Paulo: Paulus, 2016, n. 301.

[13] Papa Francisco. Misericordiae Vultus. São Paulo: Loyola, 2015, n. 21.

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