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O que há com o povo católico?

No domingo de natal a Folha de São Paulo publicou os resultados da pesquisa Datafolha abordando temas de religião. Embora só estejam apresentados em forma de percentagens e tabelas, esses dados indicam que a Igreja católica sofreu forte perda de membros. Pode-se questionar o tamanho dessa perda (9 milhões de pessoas em menos de três anos parece ser erro de cálculo!) mas não o fato em si: os templos católicos reúnem cada vez menos fiéis, principalmente nas faixas etárias abaixo de 30 anos. Cabe então perguntar: por que essa Igreja não consegue mais conservar seus fiéis?

Talvez a analogia com o futebol possa ser útil. No tempo em que Pelé jogava no Santos, dizia-se que seu time tinha muito público mas poucos torcedores. Algo parecido ocorre hoje na Igreja católica: missas de cura e libertação, da saúde, do impossível e similares atingem milhares de pessoas em busca de algum milagre. Esses eventos massivos provocam emoções intensas e demonstram prestígio de quem os promove. Por isso têm sido incentivadas pelas autoridades eclesiásticas para afirmar a identidade católica numa sociedade vista como relativista. Falta, porém, aos eventos de grande público a capacidade de criar laços de pertença e afeição que somente o convívio duradouro em pequenos grupos ou comunidades é capaz de gerar. Tal como o clube de Pelé, a Igreja católica ganhou público, mas perdeu fiéis.

Ao concentrar suas celebrações nas catedrais ou matrizes paroquiais, muitas dioceses brasileiras reúnem grandes públicos mas deixam à míngua quem tem por referência pequenas comunidades. Não é surpreendente, portanto, o resultado da pesquisa: dezenas de milhares de capelas e centros comunitários das periferias e zonas rurais esvaziaram-se por não realizarem celebrações todos os domingos.

Interessante lembrar que, há exatos 60 anos, D. Agnelo Rossi, então bispo de Barra do Piraí, recebeu a queixa de uma senhora que não pode celebrar a vigília do Natal por falta de padre. Segundo ela, enquanto as três igrejas protestantes estavam iluminadas e concorridas, podendo-se escutar seus cânticos, a igreja católica ficou fechada, no escuro. Embora conservador, o futuro cardeal Rossi tinha sensibilidade pastoral e decidiu formar leigos para reunir o povo católico aos domingos e dias santos e celebrar o “domingo sem missa” ou “culto católico”. Este foi, ainda antes do Concílio Vaticano II, um dos primeiros ensaios do que viriam a ser as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs – que dez anos mais tarde viriam dar grande dinamismo à Igreja católica da América Latina. Mas quantos bispos têm hoje a mesma sensibilidade?

Presos à concepção de que a vitalidade da Igreja depende dos padres, muitos bispos investem suas forças e recursos na formação de seminaristas, dando-lhes todas as condições para chegarem à ordenação presbiteral e poderem assumir a direção das paróquias. Desconsideram o potencial missionário de leigos e leigas que em suas comunidades locais bem poderiam exercer a função de animadores e animadoras do culto, desde que apoiados – e não cerceados – pelo pároco. Bastaria retomar o caminho aberto pelas CEBs, cujas lideranças tornaram a Igreja católica um centro irradiador de espiritualidade e de ação social.

Nada impede que a Igreja católica retome o caminho das CEBs, pois hoje o Papa Francisco insiste na proposta de uma Igreja em saída, desclericalizada e cuidadora da ecologia. Talvez o susto provocado pela perda de fiéis – principalmente a população jovem – seja um bom motivo para essa mudança de rumos.

Juiz de Fora, 3/ jan. 2017

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