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Entrevista com Pedro Ribeiro – assessor do Seminário 2017

Entre os dias 25 e 26 de janeiro de 2017 aconteceu o SEMINARIO NACIONAL DAS CEBs, na cidade de Londrina PR. o seminário é em praparação ao 14º Intereclesial e serviu como aprofundamento  do tema CEBs e os Desafios no Mundo Urbano. 

Pedro Ribeiro foi um dos assessores e esboçou uma reflexão com base na análise da conjuntura política e eclesial vivenciada nos últimos tempos. Pedro Ribeiro faz parte da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política, é assessor Continental das CEBs e membro da equipe do Iser Assesria, além de ser uma das vozes mais reconhecidas dentro da sociologia brasileira, especialmente quando falamos da dimensão sócio religiosa do ser humano. 

Nesta entrevista, concedida ao Pe Luís Miguel Modino, correspondente do Religion Digital da Espanha, Pedro Ribeiro analisa a realidade latino-americana e brasileira, mostrando sua percepção da atual situação política nacional, partindo do conceito de “espiritualidade política”. Ao mesmo tempo, aborda a dimensão sócio-política da fé, seu papel na Igreja atual e como o Papa Francisco está influenciando um novo modo de entender o catolicismo.

O Vaticano II e sobretudo o Documento de Medellín levaram à Igreja Latino-americana a fazer opção pelos pobres, à ser voz dos excluídos, daqueles que Eduardo Galeano chama “os ninguém”. Tem se perdido essa dimensão de Igreja comprometida na América Latina?

 

Penso que não é que se perdeu, mas esse grupo nunca foi grande, sempre foi minoria, esse grupo comprometido com os esquecidos teve, por várias razões históricas a hegemonia, mas a perdeu. Quando digo hegemonia ele nunca teve maioria, nunca foi maioritário, mas ele tinha a sua voz, se fazia ouvir, e hoje sua voz foi abafada.

Não é uma diminuição do número, uma diminuição da força, mas principalmente uma perda de hegemonia devido ao contexto histórico e eclesiástico. Não se pode esquecer o processo de restauração indenitária de João Paulo II e Ratzinger, retornar a uma identidade católica anterior ao Vaticano II. Fazer com que o Vaticano II e Medellín fosse apenas para dar uma atualização à mesma identidade católica de antes, e isso fez com que essa postura mais inovadora, desse setor da Igreja, perdesse sua capacidade de repercutir no conjunto da Igreja.

Poderíamos dizer que naquela época existia uma espiritualidade política na Igreja Latino-americana?

Eu penso que estava talvez nascente. Eu acho que hoje talvez essa espiritualidade política esteja mais elaborada do que naquele tempo. O que eu chamo de espiritualidade política é uma expressão que encontrei num teólogo guatemalteco nascido na Espanha, como ele mesmo se define, Juan Hernández Pico. Ele tem um livro muito bom sobre fé e política e ele tem um capítulo sobre espiritualidade política em que diz que essa espiritualidade que nasceu aqui fomos aprendendo a celebrar e alimentar nossas lutas com o cristianismo.

A Teologia da Libertação é mais a justificação intelectual, racional para essa posição, mas fomos aprendendo a celebrar, a alimentar essas lutas. Penso que hoje, sabemos celebrar melhor as lutas do que talvez nos anos clássicos da Teologia da Libertação, os anos setenta, oitenta, Naquela época, penso por exemplo nas CEBs faziam bonitas celebrações, sem dúvida, mas talvez fosse ainda no esquema de fé e política, como se a fé fosse uma coisa e a política outra e as duas se juntam. Acho que essa espiritualidade política tem essa vantagem de fazer com que seja a política seja uma dimensão prática da fé.

 Como trazer essa espiritualidade política para a vida da Igreja, para a vida das comunidades e para o dia a dia?

 Esse é o grande desafio, porque essa espiritualidade supõe a oração e a liturgia, seja oração pessoal, seja oração em comunidade e portanto liturgia. No campo da oração pessoal não é muito difícil. O Oficio Divino das Comunidades tem muita abertura para essa espiritualidade política. Quando se reza o Oficio Divino, mesmo individualmente, eu tenho essa prática, e o rezo com frequência. Ele nos favorece a viver a luta política como uma luta pela nossa fé. Mas quando se faz a celebração em grupo, exceto em pequenos grupos ou em comunidades eclesiais de base mais avançadas e amadurecidas na caminhada, se tem dificuldade. Muitas vezes, por exemplo, as celebrações se transformam quase que em encenações.

O MST tem muito a expressão mística. Quando eles vão começar uma reunião fazem primeiro uma mística, que é um pouco uma celebração, uma animação para dar ânimo para o pessoal, que tem alguma coisa de espiritualidade, mas falta nessas místicas uma referência ao Transcendente. É o Deus de Jesus, é Jesus de Nazaré, o Espírito de Deus que está aqui conosco. Isso não entra numa mística do MST, nem pode entrar. O problema é que mesmo nos grupos de cristãos, em encontros de fé e política, de comunidades, de CEBI, em que essas celebrações deveriam ser verdadeiramente celebrações, se tornam um pouco encenações, um pouco espetáculos, tipo mística do MST. E por isso não se conseguem alimentar nossa espiritualidade.

Eu penso que essa Espiritualidade Política ela nasceu, claro, junto à Teologia da Libertação, isso não há dúvida. Mas enquanto a Teologia da Libertação se desenvolveu rapidamente, se diversificou, a Espiritualidade Política ainda está nos seus primórdios, no seu começo, porque tem dificuldade de se expressar na liturgia, nas celebrações.

 O Movimento Fé e Política pode ser um instrumento que ajude a aprofundar na espiritualidade política?

É o que quero desse movimento. Eu estou na Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e tenho insistido muito nisso. Hoje, na dificuldade do tempo em que vivemos, precisamos de uma forte espiritualidade. A grande instituição da Igreja não sabe alimentar essa espiritualidade, só sabe alimentar a espiritualidade que nos leva para a vida eterna.

Temos que, não digo inventar, mas temos que desenvolver essa espiritualidade. Quem nos ajuda muito é, por exemplo, Marcelo Barros, que é monge beneditino e que é ótimo em liturgia.  É uma pessoa engajada, uma pessoa que vem desenvolvendo na prática essa espiritualidade, essa maneira de celebrar nossas lutas políticas, nossas vitórias e derrotas políticas. Acho que o Movimento Fé e Política tem essa visão.

 Esse Movimento Fé e Política está presente na vida da Igreja ou é um movimento que fica à margem?

 O Movimento Fé e Política, dado seu carácter ecumênico, sempre preferiu existir na margem, na ponta, nos limites máximos do limite eclesiástico. Quando surgiu o Movimento Fé e Política, a CNBB criou, o próprio nome indica, o Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara. O nome Fé e Política mostra o parentesco que tem com o Movimento. Eu estava na criação e pessoas que estavam lá estão no movimento, mas é uma coisa diferente.

O Movimento não pode se submeter à disciplina eclesiástica. Estamos juntos e estamos em comunhão, mas não seguimos. O fato do bispo do lugar dar uma orientação, essa orientação não vale para o movimento, pois ele é ecumênico. Quando estamos em comunhão é ótimo, quando conseguimos nos colocar de acordo é muito bom, quando nos colocamos o movimento segue sua própria orientação, não enfrentando o bispo, mas mantendo distância, fazendo seus encontros nos espaços de universidades, de sindicatos, em espaços não eclesiásticos.

 Acaba de falar que o Movimento Fé e Política ocupa lugares à margem, podemos dizer que é o mesmo lugar que ocupam as CEBs. De fato, ocupar os mesmo lugares leva a uma unidade de ação entre o Movimento Fé e Política e as CEBs?

 

Ocupam os mesmos lugares por razões diferentes. O Movimento Fé e Política por uma opção do Movimento, e as CEBs porque não aceitam o centro. Mas, de fato, se você participa de um encontro de Fé e Política é muito parecido com um encontro de CEBs, inclusive a temática, a maneira de colocar, as opções políticas.

Talvez o Movimento Fé e Política se coloque mais definidamente à esquerda, enquanto que nas CEBs, em termos políticos, temos maior diversidade. Mas no espírito geral, alguém de fora, que vá a um Encontro Intereclesial de CEBs ou a um Encontro Nacional de Fé e Política não veja muita diferença.

 A partir do Movimento Fé e Política, como se vê a situação pela qual o Brasil está passando atualmente?

 O Movimento, enquanto tal, não toma posição. Mas, sem dúvida, as atitudes são vistas nos grupos e nas pessoas que participam.  O último encontro, em abril, foi justamente na semana da votação terrível do impeachment na Câmara. É claro que isso repercutiu no encontro, no clima do encontro. Mais da metade das pessoas do movimento são militantes ou próximas ao PT, outra grande maioria são ex-militantes que optaram por partidos mais à esquerda.

Nesse momento o Movimento vê isso como uma perda para todos, a perda da constitucionalidade democrática. Isso daí não há dúvida que é um golpe, um golpe que foi dado e nós sentimos como tal, e isso é ruim para todos.

Não é hora de se fazer uma crítica ao PT, pois não se vai fazer no momento em que as pessoas estão doloridas, feridas. Não pode se dizer neste momento que é culpa sua, mas a gente sente no Movimento que nós precisamos ver melhor as nossas responsabilidades, até mesmo de cristãos, dentro dos governos Lula e Dilma, porque eu acho que com certa facilidade, nos deixamos levar pelos sucessos fáceis, de aumento do salário mínimo, novas universidades, institutos de ensino muito bons, elevação do padrão de consumo… e esses êxitos nos fizeram, talvez, ser pouco críticos dos governos Lula e Dilma, que tiveram uma enorme responsabilidade na despolitização do país.

 O Papa Francisco tem mostrado em diferentes momentos de seu pontificado a necessidade de caminhar junto dos movimentos sociais. Frente a essa atitude se percebe que na Igreja não existe esse mesmo interesse. Poderíamos dizer então, que para dentro da Igreja, Francisco é uma figura decorativa?

 

Decorativa não. Para dentro da Igreja é uma figura importante. Sem dúvida ele está abalando antigas convicções. Depois de Francisco não será mais possível um Papa ao estilo João Paulo II, centralizador, que define tudo. Francisco abalou definitivamente essa convicção de que o Papa é infalível, tem que ser respeitado sempre, porque ele não está sendo respeitado pelos próprios auxiliares. Então, se isso é válido contra Francisco, valeria contra outros Papas.

Ele está abalando aquela figura do Papa que nos foi legada por Pio IX, de um Papa centralizador. Então não é decorativo, ele está abalando o Papado. Além disso, eu creio que ele está criando também nas bases da Igreja uma alegria de ser católico. Está voltando a nos dar a alegria de ser católico, porque nos outros pontificados éramos católicos quase que com tristeza. Quando a gente via aqueles folhetos que diziam “sou católico, graças a Deus”, eu pensava “sou católico, apesar de tudo”, de tudo o que a Igreja Católica é.

Francisco está nos dando para as bases um pouco essa ideia de que outro catolicismo é possível, um catolicismo mais alegre, como ele mesmo colocou com a Alegria do Evangelho, um catolicismo que vai rompendo essas tradições. Eu vi, por exemplo, nessas pequenas coisas, como é a Laudato Si, na qual, pela primeira vez uma encíclica não começa em latim e sim em italiano, um italiano arcaico, mas em italiano. Essas mudanças são para ficar.

Se o sucessor de Francisco vier na mesma linha e permanece uns dez ou quinze anos, talvez se tenham mudanças reais. Senão, está na mesma linha, vamos a uma Igreja que vai definhando, como já está acontecendo, pois ela é cada vez menos relevante. Lamentamos, por exemplo, o silêncio da CNBB frente ao golpe, mas se ela tivesse se pronunciado contra o golpe também não teria feito muita diferença, pois ela já não tem a capilaridade eclesial que tinha antes, e não estou pensando só na Igreja do Brasil, mas no mundo, já perdeu essa capilaridade. Tenho ouvido a palavra “exculturação” como palavra contraria a inculturação. Nossa cultura, cada vez mais, está tirando fora o Evangelho. O cristianismo cada vez menos faz parte da cultura.

Essa situação, não pode ser consequência da falta de ligação com o mundo promovida pelo clero e muitos movimentos?

 

Com certeza. Nós estamos vendo uma volta atrás em termos de espiritualidade, que é uma volta atrás para a vida eterna. Cada vez mais, o discurso da Igreja é de um Deus Todo-poderoso, que está no céu e faz milagres e que nos chama para nos vivermos com Ele eternamente.

O que é que a gente constata? Que cada vez menos tem gente preocupada com a vida eterna, cada vez menos gente preocupada se depois de morrer vai para o inferno ou para o céu. Tem pesquisas nas quais o povo responde que não vai na missa, e que se por causa disso vai para o inferno, azar, é uma coisa que tem que aceitar, falando isso sem qualquer medo.

Uma Igreja que fica insistindo na questão vida eterna, ela perde sua capacidade de influenciar na vida cotidiana, na moral da sociedade. E falando de vida eterna, porque ainda tem audiência, porque ainda tem público? Digo, usando uma expressão dura, que é porque seus rituais são mágicos, seus rituais produzem efeitos práticos, úteis, nesta vida.

Se trata de chegar com a mão junto de onde está o Santíssimo Sacramento porque isso daí vai me curar e vai me resolver um problema de parar de beber, ou o problema com minha mulher ou meu marido. Os rituais católicos são, cada vez mais, rituais utilitários para se conseguir finalidades práticas neste mundo. Isso é o que a sociologia clássica chama de magia. Estamos vendo uma Igreja que faz rituais mágicos.

 

 

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