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A árvore e a comunidade

Em 30/01/2017, cheguei à casa da família após sete dias em Londrina. Um Seminário sobre Comunicação, outro com assessores/as aprofundando o JULGAR do tema “CEBs e os desafios no mundo urbano”, e finalmente a AMPLIADA NACIONAL DAS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE (CEBS). Tudo feito como processo de caminhada das CEBs tendo em vista um motivo: preparar o 14 º Intereclesial das Comunidades de Base a ser realizado em janeiro de 2018 nesta cidade, chamada pelos católicos de Arquidiocese. Mas o grande objetivo é garantir a continuidade de uma opção fundamental: o Caminho de seguimento a Jesus Cristo em um mundo com uma realidade cultural que nos desafia.

À tarde fui ao mercado do bairro (moro em Gramacho, Duque de Caxias, RJ) comprar algumas coisas. Desci a rua e me deparei com a ÁRVORE da foto. Quando fui para Londrina ainda havia algumas folhas naquela que foi uma frondosa amendoeira por anos. O dono da calçada precisou realizar esse processo de morte na amendoeira. Suas raízes já alcançavam o estabelecimento comercial que ele aluga. 
Quantas conversas “rolaram” debaixo da árvore: futebol, política, vida alheia, crimes cometidos por perto, defesa de que “bandido bom é bandido morto”, comentários sobre mulheres – claro com muito preconceito (quase sempre amenizados com a minha presença – o professor que ia ser padre), e por ai vai. Gramacho é um bairro com uma alta densidade demográfica, saneamento básico deficitário e abastecimento de água idem (na rua chega água três vezes por semana – e somos privilegiados), serviço de saúde ruim, enfim precariedade igual a muitos bairros da Baixada Fluminense e de muitas periferias brasileiras. 
O que a ÁRVORE tem haver com isso? E as CEBs? E o Evangelho? E a Igreja Católica, as outras igrejas e religiões? Vida urbana não é só periferia, e não são somente morros e favelas. Mas o mistério da vida e da morte que podemos vislumbrar nos galhos secos da amendoeira talvez possa nos interpelar quanto às opções de nosso mundo, sobretudo nas periferias. 

A ÁRVORE está morrendo e a COMUNIDADE segue a sua vida. Segue? A morte deste vegetal interpela bem pouco, pois é considerada necessária. Ela parece nos dizer que o nosso mundo precisa de sinais mais fortes para reformular a direção tomada. Tudo indica que crescer e desenvolver não pode oferecer garantias de dignidade para a vida de todos/as. Parece que nossas perguntas e respostas precisam ser reformuladas. É assim que sinto o próximo intereclesial. 
Mas há ESPERANÇA. Em muitas partes do mundo pessoas de diversas religiões e sem religião já estão a nos indicar outras possibilidades. Muitas vezes um clamor que brota dos/as jovens. Um francês que tenho aprendido a gostar, por exemplo, Serge Latouche, convida-nos a assumir o que ele chama de “círculo virtuoso” de oito “erres’: reavaliar, reconceituar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar, reciclar. 

Que possamos, com serenidade, na caminhada das CEBs, prosseguir o sonho de um mundo irmão, onde Deus se torna uma frágil criança para nos indicar um caminho que possa ser feito sem prepotência e arrogância. Não nos deixemos corromper por uma lógica de poder que tornam homens e mulheres incapazes de vivenciar a experiência amorosa do encontro com o/a outro/a, sinal daquilo que viveremos, segundo a nossa fé, pela eternidade.

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