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As CEBs e a grave situação do país

As CEBs e a grave situação do país

“Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão. Nós, cristãos, não podemos nos fazer de Pilatos e lavar as mãos. Não podemos! Devemos nos envolver na política porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, porque ela procura o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. A política está muito suja, mas eu me pergunto: está suja por quê? Porque os cristãos não se envolveram nela com espírito evangélico? É uma pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros. Mas eu, o que eu faço? Isto é um dever! Trabalhar pelo bem comum é um dever do cristão.”

Papa Francisco

 

Quem poderia imaginar que a força dos que detém o poder econômico no Brasil, depois de quatro eleições vitoriosas do Partido dos Trabalhadores, daria uma guinada conservadora tão gigantesca e, o que é pior, com graves ameaças para os mais pobres? Como as Comunidades Eclesiais de Base, sempre tão irmanadas com os movimentos populares e a luta dos mais pobres por inclusão social e reconhecimento de sua dignidade humana, estão reagindo diante dessa trágica realidade?

Estão rasgando a nossa Constituição cidadã

A Constituição de 1989 foi um marco na caminhada política de nosso país. Depois da conquista do fim da ditadura, com muita pressão popular, luta e sangue derramado, os brasileiros e brasileiras conseguiram consolidar uma Lei Magna, de fato, democrática e cidadã. Ela não só garantia a igual dignidade de todos os brasileiros, mas também, dentre outras conquistas, assegurava uma série de direitos sociais fundamentais para o bem viver.

A Igreja dos pobres, católica e evangélica, de mãos dadas com os diversos movimentos populares e outras instituições democráticas, participou ativamente desse feito heroico de nossa jovem democracia. Esteve ativamente presente, de modo especial com as pastorais sociais e suas lideranças em associações, ligas, coletivos, cooperativas, partidos políticos, nas diversas caminhadas, manifestações, greves, abaixo-assinados, em sindicatos, grupos de mulheres, de defesa dos direitos humanos, de apoio aos povos originários e tradicionais quilombolas, pelo acesso de todos a moradia, terra, saúde, educação, trabalho, transporte, lazer, dentre outros.

Nas três décadas seguintes à aprovação da Constituição, aconteceram avanços significativos, dentre elas merece destaque: o crescimento da democratização do país, maior cidadania das mulheres, maior consciência dos direitos humanos e da questão ecológica, conquistas na concretização do acesso dos mais pobres aos direitos sociais à saúde, educação, moradia, dignidade no trabalho etc. e das minorias indígenas, quilombolas, grupos LGBTs, consolidação de movimentos populares e de ONGs comprometidas com a defesa da vida e da Casa comum. Mas aconteceram também muitos retrocessos, tais como alianças espúrias do governo do Partido dos Trabalhadores que o fez afastar-se de suas bases e trocar o projeto de “um outro país possível” pela sua busca de perpetuar-se no poder, com grave envolvimento em esquemas de corrupção; descaso com o investimento na politização dos mais pobres e das novas lideranças sociais; redução das conquistas cidadãs a uma mera inclusão no consumo; não concretização das reformas necessárias: tributária com maior taxação para os mais ricos, agrária com assentamento e políticas de inclusão dos sem-terra, dos “Meios de Comunicação Social” com ampla democratização, dentre outras.

Tudo isso fez alastrar uma onda de despolitização ou mesmo de aversão política de parte significativa da população que passou a não acreditar mais na utopia de uma nova sociedade pautada pela justiça, pela inclusão social de todos e pela cultura da paz.

Com o que está acontecendo, sem a mobilização popular, as coisas tendem a piorar: sem qualquer envolvimento da população em discussões o (des)governo Temer está promovendo (anti)reformas que rasgam a nossa Constituição cidadã. A título de exemplo, a (anti)reforma trabalhista é perversa para os trabalhadores; o mesmo pode ser dito da (anti-reforma da previdência) que praticamente destrói o direito à seguridade social dos mais pobres; a (anti)reforma da educação tem como alvo maior impedir a formação da consciência crítica dos educandos.

Como, então, as CEBs estão enfrentando essa trágica situação?

Uma das características mais marcantes da caminhada da CEBs, esse jeito novo de ser Igreja, é a consciência da dimensão social da evangelização. Dito de outra maneira, trata-se de perceber que não dá para acolher o Deus da vida, crer no projeto do Reino de Deus revelado na prática libertadora de Jesus e ficar indiferente diante das inúmeras situações que ameaçam a vida. Assim, os cristãos iam descobrindo o compromisso profético da fé cristã libertadora, a partir do cultivo, em pequenos grupos, da espiritualidade que brotava da leitura popular da Palavra de Deus e da discussão dos diversos problemas da vida.  A Bíblia ilumina a caminhada da vida, a partir da compreensão da unidade “fé cristã-vida em sociedade”, “fé cristã-ação política em defesa do bem comum”. Tudo isso é possível quando constrói-se uma estrutura eclesial laical, participativa, formativa, ecumênica e aberta aos diversos grupos de defesa da vida e movimentos populares. Os membros das CEBs, geralmente, tornam-se cidadãos mais críticos, politizados e comprometidos com a defesa da vida e com a participação na construção diária  da nova sociedade marcada pelos valores do Evangelho.

É preciso reconhecer que atravessamos tempos difíceis. Sem querer ser simplista, podemos perceber duas grandes posturas extremas e contrárias, e entre elas muitas outras com diversas nuances mais próximas da primeira ou da segunda.

Muitos membros desanimaram completamente com a caminhada diante dos desafios na vida urbana e das contradições humanas presentes na Igreja, nos movimentos populares e, sobretudo, na política. Formam o grupo mais numeroso. Perderam o chão, a motivação e a chama interior que os sustentavam na caminhada. Entre eles, há os que procuram se refugiam numa religião mais intimista.

Outros, porém, em menor número, formam o grupo dos que continuam teimosos, andando na contramão. Proféticos testemunham a práxis da justiça e a alegria do Reino e denunciam toda forma de violência e exploração; cultivam esperança contra todo desânimo; procuram ler e discernir os sinais do tempo; celebrar pequenas conquistas; cultivar a memória da caminhada dos profetas da Bíblia e da nossa América Latina. Esses continuam acreditando na retomada, na ressignificação da caminhada já trilhada, insistindo nos grupos de base, no encantamento das juventudes e no cuidado diário, pessoal e coletivo, com a espiritualidade libertadora do Reino. Em relação à política, continuam acreditando que não há outro caminho para a transformação da realidade social: recusam-se a ceder diante da ilusão do capitalismo neoliberal e acreditam que os que formam a esquerda vão abrir os olhos. Então, aprenderão com as desigualdades perversas e com os próprios erros cometidos e refletidos, que o socialismo democrático é o melhor caminho possível, mas que exige vigilância contínua de todos para não ceder diante do poder dos Impérios e nem voltar a cometer os mesmos erros do passado.

Que venha o 14º Intereclesial das CEBs para animar e revigora a caminhada. Para terminar, uma pergunta: e você, companheiro/a leitor/a, como se situa na caminhada?

Edward Guimarães é mineiro, casado com Andréa e pai de Maria Fernanda. É teólogo leigo, discípulo de Jesus, cultivador da utopia do Reino. Em sua missão, atua como professor, formador de catequistas e assessor das CEBs e de outros grupos interessados em participar da construção de “um outro mundo possível”.

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