CEBs e Movimentos Sociais

23º Grito dos/as Excluídos/as – Vida em Primeiro lugar “Por Direitos e Democracia, a Luta é todo Dia”

A proposta do Grito surgiu no Brasil no ano de 1994 e o 1º Grito dos Excluídos foi realizado em setembro de 1995, com o objetivo de aprofundar o tema da Campanha da Fraternidade do mesmo ano, que tinha como lema “Eras tu, Senhor”, e responder aos desafios levantados na 2ª Semana Social Brasileira, cujo tema era “Brasil, alternativas e protagonistas”. Em 1999 o Grito rompeu fronteiras e estendeu-se para as Américas.

O que é

O Grito dos Excluídos é uma manifestação popular carregada de simbolismo, é um espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos.

O Grito é uma descoberta, uma vez que agentes e lideranças apenas abrem um canal para que o Grito sufocado venha a público.

O Grito brota do chão e encontra em seus/as organizadores suficiente sensibilidade para dar-lhe forma e visibilidade. O Grito não tem um “dono”, não é da Igreja, do Sindicato, da Pastoral; não se caracteriza por discursos de lideranças, nem pela centralização dos seus atos; o ecumenismo é vivido na prática das lutas, pois entendemos que os momentos e celebrações ecumênicas são importantes para fortalecer o compromisso.

O objetivo desse momento é VALORIZAR a vida e anunciar a esperança de um mundo melhor, construindo ações a fim de fortalecer e mobilizar a classe trabalhadora nas lutas populares.

Denunciar a estrutura opressiva e excludente da sociedade e do sistema neoliberal que nega a vida e quer nos impedir de sonhar.

2017 – “Por direitos e Democracia, a luta é todo dia”

Esse ano, com o lema do 23º Grito dos/as Excluídos/as: “Por direitos e democracia a luta é todo dia”, chama a atenção da sociedade para a urgência da organização e luta popular frente à conjuntura em que o país vive hoje, estamos diante de um cenário de retrocessos, muitas vezes com o apoio dos meios de comunicação social, de desmonte do processo democrático e da perda iminente de direitos dos trabalhadores, conquistados a duras penas. Situação que se agrava com a corrupção política que tornou o Brasil um verdadeiro mar de lama. Porque este sistema está preocupado em defender e resolver o problema da economia, por isso o Grito quer rediscutir esse sistema, propondo que a vida esteja em primeiro lugar.

Desde 1995, o Grito dos Excluídos realiza-se no dia 7 de setembro. É o dia da comemoração da independência do Brasil. Nada melhor do que esta data para refletir sobre a soberania nacional, que é o eixo central das mobilizações do Grito.

Nesta perspectiva, o Grito se propõe a superar um patriotismo passivo em vista de uma cidadania ativa e de participação, colaborando na construção de uma nova sociedade, justa, solidária, plural e fraterna. O Dia da Pátria, além de um dia de festa e celebração, vai se tornando também em um dia de consciência política de luta por uma nova ordem nacional e mundial. É um dia de sair às ruas, comemorar, refletir, reivindicar e lutar. O Grito é um processo, que compreende um tempo de preparação e pré-mobilização, seguido de compromissos concretos que dão continuidade às atividades.

Eixos trabalhados:

1- DEMOCRATIZAR A COMUNICAÇÃO

Na era da informação quem detém a mídia tem poder sobre a opinião das pessoas. A comunicação é um bem público que o Estado concede o direito de operar, só que no Brasil essa operação atende a interesses particulares, dos endinheirados que só visam o lucro.

Existe um oligopólio familiar dos canais de televisão, rádios, jornais, revistas, portais de internet, que dificultam a entrada de outros canais que poderiam trazer pautas alinhadas com o interesse público. Somente com a regulamentação da mídia será possível falar em diversidade da informação e, deste modo, caminhar para uma sociedade mais democrática.

Denunciamos esse modelo de mídia e comunicação e exigimos a sua regulamentação, assim como um processo transparente de democratização da informação em nosso país!

2 – DIREITOS BÁSICOS

O Brasil “democrático” foi construído com um desejo impetuoso das elites de dominar, acumular e lucrar mais e mais à custa do povo. É um Brasil que desrespeita os direitos fundamentais: à vida, à dignidade, a ter direitos. Nossa história é marcada pela violência e dominação através da guerra e extermínio dos povos originários (indígenas, negros e quilombolas), dos pobres, das mulheres e da juventude. Este sistema não nos suporta, não suporta os povos, os direitos. O acesso, ampliação e universalização dos direitos fundamentais conquistados e garantidos na Constituição Federal de 1988, e que não foram plenamente implementados e universalizados, hoje estão sendo ameaçados.

A elite brasileira nunca aceitou esses direitos e conseguiu, com o apoio da mídia conservadora, realizar um golpe “democrático” no Brasil, em 2016, e estabelecer uma agenda de retrocessos nos direitos da classe trabalhadora. Em nome da crise econômica, o governo golpista de Michel Temer está fundamentando a redução e a negação de direitos básicos, com o corte dos investimentos sociais, beneficiando ao sistema financeiro transnacional.

Estamos no meio de um ataque aos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras: congelamento dos investimentos por 20 anos, reformas da previdência e trabalhista que abrem um leque para privatizações dos serviços básicos. Assim, privilegiando as empresas que vão operar estes serviços, em um verdadeiro assalto aos direitos sociais.

Vamos nos juntar e fortalecer a luta e a resistência contra qualquer retrocesso e ameaça aos nossos direitos (saúde, educação, aposentadoria, terra, água, salário maternidade, transporte, etc.). Nenhum direito a menos! Por isso, a rua é o nosso lugar!

3 – ESTADO FOMENTADOR DE VIOLÊNCIA

A política do Estado mínimo imposta pelo sistema capitalista neoliberal busca a acumulação de capital, em detrimento das políticas sociais, cuja implementação, muitas vezes, fica a cargo de terceiros. Prática que fomenta as várias situações de violência.

A primeira refere-se ao descaso com a qualidade dos serviços oferecidos (água, saneamento, educação, saúde, transporte, dentre outros), por vezes terceirizados e precarizados. Uma segunda forma é quando o Estado destrói nossos territórios, degrada e mata, gera violência e criminaliza as lutas e os lutadores/as, como no desastre de Mariana. A terceira situação de violência é a criação de formas de acabar com as poucas leis ou mecanismos específicos de proteção: Estatuto da Criança e do Adolescente, do Idoso; Lei Maria da Penha, políticas afirmativas, que indicam claramente as desigualdades sociais e vulnerabilidades existentes, numa espécie de “epidemia de indiferença”, com a cumplicidade do Estado.

A violência é justificada como forma para o Estado funcionar, ela é “silenciosa” e seletiva com os setores vulneráveis da sociedade a fim de contê-los. O sistema capitalista exclui a juventude negra, pobre e da periferia, degrada o meio ambiente e mata negros, mulheres, índios, quilombolas, LGBT(s) e não nos suporta!

4 – QUE PROJETO DE PAÍS DESEJAMOS? QUE ESTADO QUEREMOS?

O Estado sempre foi assediado e disputado pelo capital como instância que lhe garante acessos, facilidades e proteção. A corrupção não é uma novidade, nem no Brasil, nem em lugar algum do mundo, ela faz parte do sistema e o mantém. Portanto, devemos

Nos desvencilhar desta armadilha que foi montada sobre a corrupção e de processos eleitorais, e refletir sobre: Que Estado queremos? Que país desejamos? Certamente, uma nação que sustente um projeto comum, que garanta o crescimento econômico, não dos grandes empresários, das instituições milionárias, mas sim dos trabalhadores. Com distribuição de renda de forma igualitária, garantia de fato dos direitos a todos e todas, especialmente os/as mais vulneráveis e excluídos/das. Um Estado que olhe com atenção aos pequenos/as produtores, à agricultura familiar, à indústria nacional, à educação pública, gratuita e de qualidade. Que fortaleça, promova e universalize o SUS, desenvolva a pesquisa e a ciência; facilite o acesso à cultura, à habitação, à terra, ao trabalho, à alimentação. Um Estado que preste atenção às populações que vivem na e da floresta. Um Estado alicerçado na garantia e acesso aos direitos e comprometido com o povo e a vida. Um Estado soberano, não a serviço de interesses estrangeiros.

5 – PARTICIPAÇÃO POLÍTICA É EMANCIPAÇÃO POPULAR

Sob um governo golpista e ilegítimo, as experiências coletivas estão em xeque. O trabalho de base e a formação de coletivos de luta e resistência, nos mais diferentes recantos de nosso país, rompem com esse novo padrão que tentam nos impor.

Reconstruímos o país com as Diretas Já, elaboramos uma avançada Constituição Cidadã, conquistamos vários direitos que hoje estão ameaçados. Isso indica que não há um modelo pronto. A juventude que ocupou as escolas nos desafia a repensar o método, a pedagogia do trabalho de base e, principalmente, retomar com nova linguagem, novo jeito de dialogar, nos apropriando dos instrumentos de comunicação que dispomos.

Devemos romper com a lógica de pensar a participação a partir de processos de representação eleitoral, de cargos públicos eletivos, sem descartá-la, mas dando a ela um novo significado. Precisamos também ressignificar os espaços de participação históricos que conhecemos e usamos diversas vezes: os plebiscitos, referendos, conselhos gestores, orçamento participativo e etc. Já, que alguns destes instrumentos foram sendo apropriados na sua estrutura e discurso por governos de plantão e deixaram de representar os verdadeiros interesses da população.

A participação política é fundamental para provocar processos de mudanças estruturais, na construção de uma sociedade, de um Estado e um país livre, democrático, justo e igualitário. Todos e todas somos convidados a participar para construir a democracia e assegurar nossos direitos.

6 – UNIR GENEROSAS/OS NAS RUAS

A rua traz consigo dois sentidos, principalmente para moradores das periferias, pode ser um ambiente de acolhimento, mas também de abandono e perigo. Toda a violência sofrida pela periferia, sobretudo a policial, provoca o medo das pessoas de frequentar a rua como um espaço de convivência e de uso coletivo, o que nem sempre é uma preocupação em alguns bairros de classe média.

Com muita persistência, alguns coletivos, indivíduos e organizações vêm ressignificando o que é ocupar a rua e os sentidos que isso implica na vida cotidiana das pessoas. O que acontece pela contínua efervescência da cultura periférica, com diversos grupos que atuam a partir de linguagens artísticas e mostram seu trabalho, conseguindo se organizar politicamente e transformar a realidade local.

A rua é um espaço de troca de vivências e saberes, é também onde construímos e defendemos nossos direitos que, hoje mais do que nunca, estão sendo postos à venda pelo próprio governo/Congresso para atender aos interesses do capital, a quem obedece servilmente. A rua é o lugar da resistência e historicamente tem sido o nosso ponto de encontro, dos generosos/as, dos lutadores/as, da militância.

Em tempo de retrocessos democráticos se torna mais urgente e necessário ocuparmos esse espaço.

Vamos para as ruas não só para lutar, mas também para celebrar. Ocupar a rua é vivenciar, é sentir, é olhar o outro sem (pré) conceitos, racismo, machismo, homofobia, é olhar o outro na sua integralidade e como companheiro/a.

O Papa Francisco também nos convoca. Não deixemos mais o sistema incorporar e abrir um abismo entre nós e nossos companheiros e companheiras de caminhada. A praça, a rua, os bares… vamos enchê-los de novo! Vamos nos misturar de novo, porque juntos, generosas e generosos, vamos conseguir pensar um projeto de sociedade mais democrático, em que todos e todas tenham voz, vez e lugar.

7 – UMA ECOLOGIA INTEGRAL

A Campanha da Fraternidade desse ano trouxe para a reflexão os biomas brasileiros, as ameaças a

Que estão submetidos e a convocação para lutar em sua defesa. Falar de bioma não é só falar de plantas, animais, fungos e as relações entre si, mas também inclui os seres humanos. Cada bioma é um grande conjunto de pequenos ecossistemas que reúne uma comunidade de seres vivos de todo o tipo em um único território.

O ecossistema em que vivemos, por mais artificial que seja como as grandes cidades – que ainda assim fazem parte dessa comunidade – deixa sua marca em nós: nossa história, nossa infância, nossa visão de mundo, nossas relações, mesmo o nosso tipo (bio) físico. Tudo em nós tem a marca da grande comunidade e ancestralidade a que pertencemos.

Denunciar e lutar contra a destruição dessa comunidade é lutar por nossa casa comum, pela vida em toda a sua integralidade, pelo Planeta, “que sofre em dores de parto”. O agronegócio empobrece o solo, polui as águas e leva perigo a todo o ecossistema. O monocultivo, os agrotóxicos, os transgênicos, a exploração irracional das florestas e a atividade mineradora podem causar desastres criminosos, como o de Mariana (MG) e toda a Bacia do Rio Doce. Deixam críticas as condições de vida e contribuem para as mudanças climáticas. A destruição faz parte do sistema ganancioso de acumulação e lucro do capital. A vida, as abelhas, as plantas, tudo vira uma mercadoria. Devemos lutar pelas mudanças desse sistema que exclui, degrada e mata. É preciso resistir e lutar: pela nossa história, pela vida do Planeta, por “Vida em primeiro lugar”!

Em diversos lugares amanhã, vai acontecer marchas, atos públicos, romaria, etc em torno do Dia dos/as excluídos/as. Um dos espaços mais tradicionais que concentra militantes do país inteiro é em Aparecida, que todos os anos reúnem milhares de pessoas com bandeiras de lutas e sonhos de dias melhores.

Material extraído da página do Grito dos/as excluídos/as: http://www.gritodosexcluidos.org/

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