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FAVELÍCIDIO NO CONTO “O MINEIRINHO” DE CLARICE LISPECTOR LITERATURA E FAVELA

Há quase um mês a favela do Jacarezinho e entorno vive uma guerra protagonizada pelo estado com a força policial do estado e o exército brasileiro. A tal guerra que iniciou com a justificativa da morte de um policial por traficantes locais, têm levado pânico aos moradores. Um dos grandes prejuízos sociais são os fechamentos das escolas locais.

Pe. Gegê, pároco da Igreja Santa Bernadete, em Higienópolis vêm se destacando como uma voz profética, promovendo atos e caminhadas pela região reunindo moradores e movimentos sociais.

No dia 7 de setembro, às 18h, haverá a celebração de uma missa pelas vítimas da violência e pela paz que queremos. A missa será celebrada pelo Cônego Luis Antônio, Coordenador dá Pastoral de Favelas da Arquidiocese do Rio, outra voz que se levanta em meio a esse caos.

O momento ganhou o nome de “Grito dos Excluídos”, “Grito dos Favelados”, Grito do Povo brasileiro”, “Grito de todos e todas nós”!

A missa será na Paróquia Santa Bernadete. Av. Dos Democráticos, 896. Higienópolis/Manguinhos.

 

A seguir o artigo do Pe. Gegê sobre a guerra no Jacarezinho.

 

FAVELÍCIDIO NO CONTO “O MINEIRINHO” DE CLARICE LISPECTOR

LITERATURA E FAVELA

Escrevo partindo da compreensão que a Literatura tem muito a ajudar na compreensão da vida, dos nossos grandes dilemas e de nossas esplêndidas e contraditórias favelinidades. Entendo, pois, FAVELA como lugar de discurso, como sujeito histórico com seus saberes, fazeres e poderes. Nesse sentido, afirmo a potencialidade da Favela-cidade. E o que mais ouvimos é a fala sobre a Favela; essa fala pouco interessa, porque nasce dos predadores e colonizadores com suas estigmatizações colonizadoras e escravistas. Interessa-me, sobremodo, a Favela narrada pelos seus sujeitos; gente que tem rosto e nome. Acredito nesse sentido, que Clarice Lispector, mesmo de fora, pode ajudar a captar vozes silenciadas por uma cidade maravilhosa para alguns e infernais para sua grande maioria de trabalhadores e trabalhadoras.

Certa vez, numa entrevista, a escritora Clarice Lispector disse que o conto “O Mineirinho”figura, no conjunto de sua rica obra, como um dos “filhos prediletos”. Creio que o momento de dor, perplexidade e medo que todos e todas vivemos em nossa cidade reclama, dentre outras coisas, de todos os homens e mulheres de boa vontade um Mega-trabalho de reflexão no sentido de buscarmos compreender o momento ou “os sinais dos tempos”. Não basta sofrer a violência, não basta reclamar da violência; é necessário e urgente (urgentíssimo) entender a violência! Nesse sentido, acredito que essa batalha diz respeito ao conjunto da sociedade e não a grupos isolados. A propósito, entendo que quase sempre os discursos e olhares sobre as favelas pecam de um equívoco que, em grande medida, constitui um obstáculo ao entendimento, a organização e a luta em vista a construção de uma nova sociedade fundada na Justiça e no Direito para todos e todas.

Primeiramente, é preciso entender que a Política de (IN)segurança Pública endereçada ao Jacarezinho, por exemplo, diz respeito à cidade. Quase sempre falamos das favelas como se estivéssemos falando de um “puxadinho” urbano indesejado, um apêndice no livro urbano ou um câncer que deve ser combatido e extirpado do corpo social. Esse olhar e essa compreensão seguem a mesma lógica colonial que concebeu e concebe a África separada do mundo, lugar dos incivilizados, dos inumanos e dos bestializados. Desse modo, o trabalho de “descolonização das mentes” faz-se necessário no sentido de fazer com que compreendamos o espaço-favela como espaço-cidade, com suas riquezas e contradições, como todo e qualquer espaço. É lucrativo para a ideologia do  Estado e da  elite brasileira abastada querer que separemos ou isolemos o espaço-favela, que o pensemos dentro de um modelo isolacionista. Assim fica mais fácil e politicamente mais justificado vigiar e punir, massacrar e exterminar. Diz Clarice: “…na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente”. E quando digo matar, digo física e/ou simbolicamente. Leitura mais indispensável que Clarice, a meu ver é as obras de CAROLINA MARIA DE JESUS, a meu ver MATRONA DO SABER-FAVELA-MUNDO – uma das mais célebres e esquecidas escritoras de nosso Brasil. Carolina compreendeu FAVELA como “Quarto de despejo”– titulo de sua obra-prima – “Diário de uma favelada”. Escreve Carolina: “(…) em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”. Escreve Carolina desde a percepção aguda  da contradição e da maldade de uma sociedade que  construiu a Favela para despejar suas fezes, seus dejetos e suas mazelas. Assim Carolina classificou a cidade de São Paulo: “Eu classifico São Paulo assim: o Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos”. Não podemos classificar assim também o Rio de Janeiro? Não serviria as palavras de Carolina para entendermos melhor os sem numero de ações truculentas endereçadas às favelas de ontem e de hoje? Como as autoridades e a sociedade vêem o Jacarezinho? Vêem como gente? Como pessoas ou como dejetos ou “trastes velhos” de uma cidade, supostamente, maravilhosa? Qual o olhar que se tem para com as favelas para se autorizar arbitrariedades em nome da segurança coletiva? Seriam os favelados uma espécie de “extraterrenos” de quinta categoria? De quantas Georginas se faz uma cidade maravilhosa para poucos? Quem são os “sonsos essenciais” (de ontem e de hoje), nos termos de Clarice? Para Carolina há só uma forma de nascer e muitas de morrer… Como querem matar Favela? Não teria nascido a Favela como lugar da morte?  Até onde saiba, a Mega-operação, por exemplo, não disparou uma única bala; contudo baleou os nossos corpos com o “espetáculo de guerra” ou “o espetáculo do terror”. Concebo, pois, que a intenção não era “matar de bala”, mas “matar de medo”.

O povo não acredita nessa Mega- Operação

Que ao invés de vir com LIVROS

Vem com bala de canhão

Povo quer Mega-Direito

Pra ser Mega-Cidadão

Povo quer Mega-Respeito

E uma Mega-Educação

Se não tem Mega-Justiça

Tudo é Mega-Enganação

   Assim agindo, poder-se-ia supor que os abastados (“os sonsos essenciais”) e indiferentes dormiriam tranquilos em suas casas fracas, como compreendeu Clarice. Fracas porque construídas sobre o alicerce da injustiça e do descaso para com o “Outro”. Adverte Clarice: E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada.” Sem justiça social nenhuma casa tem proteção, porque o sentido CASA (“Casa Comum”) foi adulterado.  E desse modo, o conforto de alguns poucos se transforma em insulto ä penúria de muitos e muitas; o luxo e o Mega-Conforto de Ipanema, Leblon, Barra etc. podem esconder mais violência que os constantes conflitos nas favelas. Não seria a favela o bode expiatório?

   Questão de favela é questão da cidade, questão nossa, de todos e todas. Chamo de “FAVELICÍDIO”, desse modo, a ação/política de massacre e extermínio impetrados contra todos nós, favelados e faveladas. Repito: todos e todas nós.

   Dizendo de outro modo, quem não se sente favela, não se sente cidade. O tiro, por exemplo, que matou Georgina, ceifou uma cidadã; foi uma bala no meu, no teu, no nosso coração – toda cidade morreu. Você, que mora no asfalto (em qualquer parte do asfalto) se sente favela? Você se sabe favela? Você se diz Favela? E o que é favela? Não é a favela parte de nossa complexidade social? Segundo o educador Edgar Morin, “complexo é o que é tecido junto”. Por que falar da favela como se estivéssemos falando de algo fora do conjunto?

   Agora, quem se alimenta do sangue nas favelas? Quem patrocina a “briga de galos” nas favelas? No que se refere à relação traficantes versus policiais, a quem interessa a disputa  de números de mortos? Não estariam ambos os lados (na “briga de galos”) destinados a mesma sorte? Em ambos os lados não estariam, na sua maior parte, os PRETOS E POBRES?  A quem interessa a matança ou a separação mentirosa e enganadora “MOCINHOS VERSUS BANDIDOS”? Favela não é problema… Lá estão, a céu aberto, os resultados mais cruéis de uma sociedade hipócrita, racista, separatista e estruturalmente excludente.

   Mas, convém para um grupo social que tenhamos medo, nojo e vontade de exterminar com a favela, por que a olhando seriamente, vemos o que é o Brasil, o que sempre foi o Brasil… E me perguntarão: e a onda de assalto? E os furtos? E o medo de ir e vir? Então, pergunto: E a escola, o trabalho, o salário, o saneamento básico, a moradia, o lazer etc.? E PAC? E a UPP? Favela, a despeito da grandeza de sua gente, é a cidade roubada, a paz seqüestrada, a vida ceifada antes de nascer.

   Repito: quando digo Favela, digo Cidade, evidente que não é a maravilhosa cidade dos que agora estão arrolhados em seus prédios e condomínios luxuosos. Para que haja Casa-Grande é preciso que exista a Senzala. Para que haja ricos demais, é necessário que haja pobres demais.  E isso também é Complexo… É conjunto!

   Favela é filha que sobreviveu e sobrevive a abortos constantes (“aborto social”). E onde estão os que são contra ao aborto? A favela tem muito a ensinar ao conjunto da sociedade, tem muito a dizer e tem, sobretudo, a vontade voraz de viver…  Por fim é preciso ouvir FAVELA, amar FAVELA, entender FAVELA, defender FAVELA, lutar FAVELA. Clarice Lispector, em entrevista, disse, certa vez, que no conjunto de sua rica obra o conto “Mineirinho” figura entre seus mais importantes textos. É um de seus “filhos” prediletos. O conto “Mineirinho” fala do bandido que é morto com 13 tiros pela polícia. Relata Clarice em tom confessional: “…há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina…”.

    Penso ser leitura obrigatória no contexto atual, em especial para professores e estudantes, lideranças e militantes. “Mineirinho” representa a FAVELA – É a FAVELA, É A CIDADE, É O BRASIL, coisas que só se entende no conjunto, coisas que muitos não querem entender. Diz Clarice Lispector “entender desorganiza”, produz reviravolta nos “sonsos essenciais”… E como é sonsa a Política de (IN)segurança Pública… Como é pobre o olhar dos que oferecem uma paz midiática…como é fria e insensível a sociedade… Como há gente sonsa nesse mundo! Eis um bom/mau nome FAVELICÍDIO – extermínio de FAVELA, nos termos de Clarice “o décimo terceiro tiro”!

   Que os poetas e poetisas nos salvem, curem nossas cegueiras, nos ajudem a entender e entendendo, ajude a nos desorganizar… Adverte Clarice: “Porque quem entende desorganiza”. Repito, estou falando do décimo – terceiro tiro – é disso que trato neste escrito! Em entrevista Clarice assim se exprime: “Mineirinho morreu com treze balas quando uma só bastava”. E diz ainda: “qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala só bastava; o resto era a vontade de matar”. A meu ver, quem entender “a vontade de matar”, nos termos de Clarice, entendeu tudo: Eis a questão!

    Da minha parte, quero “amar Mineirinho”, estar do lado de “Mineirinho”, ser “Mineirinho”. Na mais nua e crua verdade: eu “um representante do nós”, como lembra Clarice,  sou “Mineirinho”! (Mas, quem não é Mineirinho?). Por isso, faço minha (e de todos os homens e mulheres de boa Mineiridade) as mesmíssimas palavras desconcertantes de Clarice: “o décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro… como não amá-lo, se ele viveu até o décimo – terceiro tiro o que eu dormia”?  E mais: “Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver… Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta”.

Eu sou “Mineirinho” – Tu és “Mineirinho” –  Ele/Ela é “Mineirinho”- Nós somos “Mineirinho” – Vós sóis “Mineirinho”- Eles/Elas são “Mineirinho”!

“Enquanto isso durmo e falsamente me salvo.

Nós, os sonsos essenciais”

(C.Lispector)

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