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O projeto de Jesus se realiza em movimento

 

No centro do projeto de Jesus está o Reino de Deus que se concretiza como amor a humanidade. Em palavras, gestos e posturas proféticas, Jesus mostra que se chega ao Pai pela prática do amor fraterno e defesa da dignidade das pessoas. Esse é o verdadeiro culto que agrada ao Pai. Seu exemplo nos mostra que a verdadeira evangelização se faz com gestos concretos de solidariedade sobretudo aos injustiçados, aos mais pobres, aos marginalizados. Foi com esses que conviveu de perto e compartilhou o seu ser. Jesus não andava com os de cima, com os poderosos, ao contrário, estava sempre cercado pelos de baixo.

Quando temos presente a prática libertadora de Jesus de Nazaré percebemos o quanto precisamos de conversão pastoral na Igreja. O que é central e decisivo no projeto evangelizador de Jesus, muitas vezes, é esquecido ou assumido como uma simples gaveta, um departamento entre outros, um mero setor. Cuidamos muito de zelar pela igreja instituição, com seus ritos e prescrições, e muito pouco da edificação do Reino. Como vem nos mostrando insistentemente o papa Francisco nesses cinco anos de ministério petrino, anunciar e testemunhar o Reino no contexto atual com tantas contradições exige uma igreja em saída, missionária, Igreja pobre e para os pobres. Isso significa concretizarmos uma Igreja que acolhe as pessoas marginalizadas e que se dedica a transformar o mundo, edificá-lo segundo os valores do evangelho. Uma Igreja que se assume como verdadeiro hospital de campanha. A missão profética dos cristãos na Igreja e na sociedade não é fácil. Trata-se de uma tarefa custosa e repleta de desafios, cheia de riscos. Muitos se machucam e são feridos, outros se cansam e tendem a desanimar ou deixar de lado o seguimento de Jesus. Por isso precisamos da espiritualidade do Reino, uma mística capaz de nos abastecer interiormente, renovar o nosso horizonte de esperança e nos sustentar nos momentos difíceis, nos fracassos e contradições da caminhada e da luta. Por isso desejamos que o cultivo da intimidade com Deus em nossas celebrações e na Eucaristia, o cultivo de intimidade com a Palavra de Deus nos círculos bíblicos, as orações pessoais e em comunidade suscitem essa espiritualidade do caminho, essa mística profética e militante. Assim vamos nos construindo enquanto cristãos e cidadãos no nível pessoal (1), no nível comunitário (2) e no nível da sociedade (3). Essas três dimensões estão entrelaçadas e formam uma unidade.

A nossa conversão e mudança de vida no nível pessoal e comunitário são muito importantes, mas não bastam. Isso porque o mal atinge a dimensão estrutural da sociedade e produz uma realidade complexa distante do projeto de Deus. A forma como a nossa sociedade está organizada cria, mantém e agrava a desigualdade social, a violência, a miséria, o autoritarismo, o preconceito, dentre outras manifestações do mal. Enquanto cristãos comprometidos com o Reino de Deus e enquanto cidadãos irmanados pelo mesmo ideal civilizatório da cultura da justiça e da paz, somos desafiados a mudar essa estrutura social marcada pelo pecado. Acontece que essa estrutura não pode ser mudada com ações individuais, por melhores que sejam. Daí a necessidade de movimentos populares comprometidos com a construção de outra sociedade possível. Neste caso, o nosso ser cristão anda de mãos dadas, de modo inseparável, do nosso ser cidadão. Somos todos chamados a apoiar e participar dos movimentos populares. Por isso o papa Francisco tem promovido encontros mundiais com os movimentos populares comprometidos com essa causa.

Quem concentra poder e acumula riqueza tem muita dificuldade de abrir mão disso tudo. A riqueza e poder se transformam em um senhor na vida das pessoas. Por isso Jesus fala no Evangelho que não se pode servir a dois senhores, a Deus e ao poder e as riquezas. Se os de baixo, ou seja, os excluídos, não se organizam e não pressionam por meio da mobilização, não conquistam nenhum direito e nem mantém os direitos duramente conquistados no passado. Não teríamos mais direito ao descanso semanal, férias, salário digno, direito a voto, acesso a saúde, educação, teto, terra, trabalho, dentre outros. Teríamos ainda a escravidão formal do passado ou continuaremos com essa escravidão disfarçada, promovida pelo capitalismo neoliberal. Sem movimentos populares nunca teremos, a sociedade pautada pela justiça, igualdade e cuidado com a Casa comum. Os que detêm riqueza e poder, por terem concentrado em suas mãos os meios de comunicação, conseguem enganar grande parcela da população. Eles fazem campanha para desmoralizar os movimentos populares, partidos comprometidos com valores e direitos humanos e as organizações dos de baixo. Fizeram isso também com a CEBs, com a Teologia da Libertação, com as Pastorais sociais. Querem uma igreja cúmplice, que não visibilize os conflitos promovendo a resignação das vítimas, ou, pelo menos, que se mantenha neutra diante das injustiças e cuide apenas da vida no céu. De qualquer forma, não querem e nem toleram uma Igreja comprometida em conscientizar e que entre para valer na construção de outra sociedade ou que saia em defesa da dignidade e dos direitos dos mais pobres.

Entre os cristãos mais abertos e progressistas, muitos ingênua e infelizmente acreditam que as mudanças virão como resultado de uma vitória de determinados candidatos nas eleições e não da força de um povo consciente, organizado e mobilizado. Equivocam-se porque não investem na formação da consciência crítica e política do povo, não acreditam na força da mobilização popular e subestimam as estratégias do poder dominante. Esqueceram ou não perceberam o que aconteceu em nosso país. Sofremos um golpe e agora os direitos sociais, duramente conquistados, estão, um a um, sendo retirados. Se há uma lição que não podemos esquecer diante do golpe de 2016, que ainda está em curso, é a de que precisamos investir mais nos movimentos populares (Associações de bairro, Pastorais sociais e CEBs, Sindicatos, Movimentos organizados de luta popular…).

O caminho é longo, por isso comecemos logo. Não temos tempo a perder. Temos importantes lições a serem aprendidas do passado. Não podemos desperdiçar a oportunidade de nos conscientizar crítica e coletivamente. Não podemos perder de vista que nossa tarefa é investir continuamente na organização popular; na formação da consciência crítica e sociopolítica, como percebemos na caminhada do Povo de Deus na Bíblia; na promoção do senso do coletivo fraterno; em lutas estratégicas simbólicas; na elaboração de um projeto de país com sociedade pautada na justiça e na paz; na criação de uma espiritualidade-mística da caminhada. As CEBs têm um importante papel a cumprir e uma enorme responsabilidade. Mãos a massa!

Edward Neves M. B. Guimaraes é teólogo leigo, assessor das CEBs e secretário executivo do Observatório da Evangelização PUC Minas

Frederico Santana Rick é agente de pastoral e militante da Consulta Popular.

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