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Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora

Por Mauro Lopes

Mais de 300 jovens de todo o mundo estiveram reunidos em Roma na semana passada (de 19 a 24 de março) e aprovaram um documento para o Sínodo dos Bispos sobre a juventude e a fé convocado pelo Papa para outubro próximo. O documento foi resultado de discussões em dezenas de países e sugestões recolhidas em grupos formados no Facebook por mais de 15 mil jovens. Toda a agenda integrista-conservadora de oposição ao Papa foi rechaçada; no texto não se fala de guerra ao aborto, aos gays, aos muçulmanos, aos pobres ou os ideais socialistas. Ao contrário, o documento é uma confirmação da primavera de Francisco entre o que pode ser descrita como a “juventude católica”.

Os pontos centrais do documento são: diálogo, compaixão, apelos por uma Igreja menos severa e moralista, exigência de abertura eclesial, aos gays ao tema do aborto e às questões de gênero em geral, prioridade à questão ambiental e à solidariedade aos pobres e perseguidos pelo sistema. O tema de maior destaque no texto confronta o clericalismo: por três vezes, os jovens e as jovens exigem direito ao protagonismo da a mulher no interior da Igreja. O encontro preparatório do Sínodo acolhe um movimento que tem sido ensaiado pelo Papa e representaria uma mudança histórica no interior da Igreja: uma aliança entre os carismáticos e os segmentos progressistas, rompendo o alinhamento daqueles com as teses integristas. Se tal movimento ocorrer, desenhará um novo perfil da Igreja católica no século 21.

É espantoso ler o documento aprovado em comparação com a cruzada moralista dos integristas que, por sua agressividade e volume, parecem por vezes vocalizar a opinião da maioria dos católicos e católicas. Não é isso o que indica o documento dos jovens. Eles reconhecem que “há um grande desacordo entre os jovens, tanto dentro da Igreja quanto no resto do mundo, sobre alguns de seus ensinamentos que são especialmente controversos hoje em dia”. Alguns exemplos listados no documento: “contracepção, aborto, homossexualidade, uniões sem casamento formal, casamento e como o sacerdócio é percebido em diferentes realidades da Igreja.” O texto reconhece que “muitos jovens  desejam que a Igreja mude seu ensinamento ou, pelo menos, explique-lhes melhor sua posição. Embora haja um debate interno, jovens católicos cujas convicções estão em conflito com o ensino oficial ainda desejam fazer parte da Igreja.”

Mais ainda, ao assumirem-se como “a jovem Igreja”, os que estiveram em Roma querem que “nossos líderes falem em termos práticos sobre assuntos controversos, como homossexualidade e questões de gênero, sobre os quais os jovens já estão discutindo livremente sem tabu.” O negacionismo dos tradicionalistas foi atacado também: “Alguns percebem que a Igreja é ‘anti-ciência’, então seu diálogo com a comunidade científica também é importante, pois a ciência pode iluminar a beleza da criação. Neste contexto, a Igreja deve também cuidar das questões ambientais, especialmente a poluição.

A formulação deve levantar uma onda de hostilidade dos integristas em relação aos jovens, pois, para aqueles, a defesa do direito ao aborto, a aceitação plena dos homossexuais e o uso corriqueiro de anticoncepcionais deveriam ser penalizados com a excomunhão. Mesmo aqueles jovens que “aceitam esses ensinamentos” em relação aos temas morais desejam que a hierarquia “os proclame com maior profundidade de ensino”.

O texto resultante das discussões dos jovens afronta outro ponto da agenda clerical-integrista logo em seu início, ao alinhar-se com a dinâmica do pluralismo religioso e não com a do sectarismo. “Este documento é uma plataforma sintetizada para expressar alguns dos nossos pensamentos e experiências. É importante notar que estas são as reflexões de jovens do século 21 de várias origens religiosas e culturais”. Para os integristas,  é inconcebível pensar uma plataforma para além dos limites do catolicismo de corte medieval; não por outro motivo, os principais teólogos do pluralismo religioso foram perseguidos e punidos durante os papados de João Paulo II e Bento XVI.

A questão da mulher da Igreja aparece por três vezes no documento –nenhum outro assunto mereceu tanto destaque: “Uma questão chave surge dessas reflexões; Quais são os lugares onde as mulheres podem florescer dentro da Igreja e da sociedade? A Igreja pode abordar esses problemas com discussões reais e abertura de ideias e experiências diferentes.”  O fato de as mulheres não “receberem um lugar igual” na sociedade e na Igreja foi denunciado com vigor no texto. “Se é difícil para os jovens sentirem um sentimento de pertença e liderança na Igreja, é muito mais para as mulheres jovens”, afirma a assembleia juvenil reunida em Roma.

A agenda de cunho moralista e agressiva dos integristas foi explicitamente rejeitada, propondo em seu lugar –como faz o Papa- uma agenda pautada pela misericórdia: “Às vezes, sentimos que o sagrado parece ser algo separado de nossas vidas diárias. A Igreja muitas vezes aparece como muito severa e é frequentemente associada com excessivo moralismo. Às vezes, na Igreja, é difícil superar a lógica de ‘sempre foi feito assim’. Precisamos de uma Igreja que seja acolhedora e misericordiosa, que valorize suas raízes e seu patrimônio e que ame a todos, mesmo aqueles que não estão seguindo os padrões percebidos. Muitos daqueles que buscam uma vida em paz acabam dedicando-se a filosofias ou experiências alternativas.”

Para os jovens, a diversidade é “uma riqueza” que pode propiciar “o diálogo e a tolerância”. Isso não quer dizer abdicar da “identidade cultural” cristã. “Não devemos  temer nossa diversidade, mas celebrar nossas diferenças e o que torna cada um de nós único.”  Ou seja: é tempo de diálogo e não de guerras religiosas.

Mesmo porque, segundo o documento, as religiões tornaram-se aprisionadoras do espírito: “Muitos jovens, ao serem perguntados sobre qual é o sentido de suas vidas, não sabem o quê responder. Eles nem sempre fazem a conexão entre a vida e a transcendência. Muitos jovens, tendo perdido a confiança nas instituições, desvincularam-se da religião institucionalizada e não se veem a si mesmo como ‘religiosos’.” Esta rejeição às religiões institucionalizadas não torno os jovens insensíveis a transcendência: “os jovens estão abertos ao espiritual”.

A religião “não é mais vista como a corrente principal através da qual um jovem procura por significado” e a Igreja Católica, com seus escândalos, “tanto reais quanto percebidos” tem despertado uma relação de desconfiança com os jovens.

“Os jovens de hoje anseiam por uma Igreja autêntica. Queremos dizer, especialmente à hierarquia da Igreja, que eles devem ser uma comunidade transparente, acolhedora, honesta, convidativa, comunicativa, acessível, alegre e interativa.” –proclamam os jovens. No documento, afirmam que “uma Igreja credível é aquela que não tem medo de se permitir ser vista como vulnerável. A Igreja deve ser sincera em admitir seus erros passados e presentes, que é uma Igreja composta de pessoas que são capazes de erro e incompreensão.”

O encontro exigiu que a Igreja condene de maneira veemente “ações como abuso sexual e má administração de poder e riqueza”, com o reforço da “postura de não-tolerância em relação ao abuso sexual dentro de suas instituições” .

O clericalismo esteve no foco da formulação: “Para alguns jovens, a Igreja desenvolveu uma cultura que se concentra fortemente em membros engajados com o aspecto institucional de si mesma, não a pessoa de Cristo. Outros jovens veem os líderes religiosos como desconectados e mais focados na administração do que na construção da comunidade, e outros ainda veem a Igreja como irrelevante.”

Outro destaque do documento é a luta contra a injustiça, a pobreza e a destruição do planeta: “os jovens procuram envolver-se e abordar as questões de justiça social do nosso tempo. Buscamos a oportunidade de trabalhar para construir um mundo melhor. Nesse sentido, o Ensino Social Católico é uma ferramenta particularmente informativa para os jovens católicos que também desejam exercer essa vocação. Queremos um mundo de paz, que harmonize a ecologia integral com uma economia global sustentável.”

Os jovens ressaltam: “desejamos ver uma Igreja que seja compreensiva e alcance aqueles que lutam à margem, os perseguidos e os pobres.” O documento traz um reconhecimento, ainda que indireto à Teologia Latino-Americana e aos movimentos carismáticos, ao anotar que muitos jovens “experimentam a Igreja como muito próxima deles, em lugares como a África, a Ásia e a América Latina, bem como em diferentes movimentos globais”.

Ao reivindicar protagonismo e liderança, os participantes do encontro de Roma reclamam do pouco espaço que encontram na Igreja, por serem “considerados jovens e inexperientes demais para liderar ou tomar decisões, pois só cometerão erros”, e afirmam que os movimentos na base da Igreja e as “novas comunidades” estão capacitando-os “para serem os principais embaixadores da fé”.

Ao final do texto, são elencadas uma série de “iniciativas frutíferas” do jovens que apontam para esta convergência entre as vertentes progressista e carismática da Igreja: “eventos como a Jornada Mundial da Juventude; cursos e programas que fornecem respostas e formação, especialmente para aqueles que são novos para a fé; ministérios de extensão; catecismos juvenis; retiros de fim de semana e exercícios espirituais; eventos carismáticos, coros e grupos de culto; peregrinações; ligas esportivas cristãs; grupos juvenis paroquiais ou diocesanos; grupos de estudos bíblicos; grupos cristãos universitários; diferentes aplicativos voltados aos temas da fé; e a imensa variedade de movimentos e associações dentro da Igreja.”

Leia a íntegra do documento em espanhol no site do Vaticano clicando aqui.

Matéria publicada em 27 de março, no blog do Mauro Lopes – Caminho para Casa

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