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Bom Jesus da Lapa, na Bahia realiza sua 41ª Romaria da Terra e das Águas

Romaria destacou a violência e a ausência da justiça no Brasil

Foto: Thomas Bauer/CPT Bahia

Centenas de pessoas vindas de diversas regiões da Bahia e do Brasil participaram da 41ª Romaria da Terra e das Águas, que iniciou na noite desta sexta-feira (06), em Bom Jesus da Lapa (BA) e foi até domingo (08). Este ano, a romaria teve como tema “Justiça e Paz na terra! Compromisso e fidelidade em defesa da vida”, e o lema: “Se calarem a voz do povo, as fontes secarão”.

Esta tradição, que acontece desde 1977, tem o caráter de fortalecer a luta dos trabalhadores e trabalhadoras em defesa da vida e dos territórios tradicionalmente ocupados. É um momento em que os romeiros e romeiras anunciam e denunciam os diversos tipos de violências sofridas no campo e na cidade, das injustiças e perdas de direitos, a exemplo da população de Correntina, que reuniu cerca de dez mil pessoas nas ruas em defesa das águas em novembro de 2017.

Na homilia, Dom João Cardoso dos Santos, Bispo da Diocese local, ressaltou o compromisso e a fidelidade dos povos da terra, e reforçou o compromisso de todos nós em defesa da vida e dos pobres. Relacionou o tema da romaria ao da Campanha da Fraternidade deste ano, “A fraternidade e a superação da violência”, apresentando dados da violência no Brasil, a exemplo dos 71,5% de jovens negros e pardos assassinados, entre 15 e 29 anos, no ano passado.

Dom João, também lembrou da passagem bíblica de Amós, onde haveria um tempo em que teria fome e sede sobre a terra, mas não de pão e sim da palavra de Deus. “É a palavra que nos alimenta, e se a perdemos, perdemos também o sentido da vida”, e continuou, “quem tem fome e sede de justiça será saciado”.

Foto: José Helio/Notícias da Lapa

Outro momento marcante foi a homenagem à vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, vítimas de

assassinato em 14 de março deste ano. A homenagem aconteceu na grande plenária da 41ª Romaria da Terra e das Águas, na manhã deste domingo(8), na Gruta da Soledade, no Santuário do Bom Jesus da Lapa.

O bispo de Barra, dom Luís Flávio Cappio, lembrou que no início de 2018 a população brasileira vivenciou uma ação brutal. “O sacrifício, a morte da vereadora Marielle Franco, que foi sacrificada, justamente porque lutava como vereadora pelos direitos sociais da população”, disse.

Ele frisou que quando as autoridades constituídas fazem coisas erradas, é criticada, e é um dever criticar, “porque somos cidadãos, nós temos a obrigação de fiscalizarmos aquele que colocamos no poder para governar. Quando fazem coisas erradas nós criticamos. Agora é um dever nosso saber valorizar, reconhecer aqueles que assumem postos eletivos de governança e que cumprem o seu dever. São fieis ao povo que o elegeu. É nesse sentido, que a Romaria da Terra e das Águas nesse ano de 2018 tem a honra de parabenizar, enaltecer, valorizar e homenagear  a vereadora Marielle Franco, por ter cumprido o seu dever, destacou o Bispo, e pediu um minuto de silêncio.

Em seguida um  jovem entrou com uma faixa estampada a imagem  da vereadora, que foi aplaudida pela plenária. “A gente tem lado, tem classe e tem identificação de gênero. Com essas palavras, Marielle Franco discursou pela primeira vez no plenário da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, no início de 2017”, e leu o discurso: “dessa forma, a partir das soluções coletivas, que a gente vai traçar esse mandato. É isso que nos coloca enquanto mulher negra, origem na Favela da Maré, com o debate de valorização das identidades”, frisou uma das representações da juventude.

Ela lembrou que o projeto foi abrupta e tragicamente interrompido pouco mais de um ano depois, com o assassinato da vereadora, de 38 anos, e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, no centro da capital fluminense.  “Em pouco tempo de mandato, no entanto, Marielle se apresentou para a luta de forma intensa. Com 16 projetos de lei registrados, ela foi uma das mais atuantes no período, enquanto se desdobrava para manter a presença nos encontros com a comunidade. Nos planos do mandato, as pautas pelas quais sempre lutou: defesa dos direitos humanos, feminismo, defesa da população negra e combate à homofobia”, destacou.

Foto: Thomas Bauer/CPT Bahia

Durante três dias, romeiros e romeiras refletiram e partilharam as experiências de luta e vivências de fé, em Bom Jesus da Lapa. Na Grande Plenária, com as conclusões e encaminhamentos dos compromissos assumidos em todos os  espaços de formação social e política.

A seguir apresentamos os compromissos firmados na Romaria.

Terra e Território

  • Continuar as lutas, investir e divulgar os espaços de formação dos povos do campo (indígenas, quilombolas, comunidades extrativistas, fundo e fecho de pasto);
  • Valorizar e divulgar a produção camponesa, criando redes em defesa das bacias hidrográficas.

Fé e Política

  • Formação continuada acerca do tema fé e política e estudo dos documentos da igreja, em especial o documento 105 e o 107.
  • Conscientizar na base para não votar em candidatos que defendam projetos que tiram direitos e ceifam vidas.

Crianças

  • Dar continuidade com a preservação da água e nos conscientizando que água é vida. Sendo o sal da terra e a luz do mundo, dando testemunho desta fé.

Juventudes

  • Fortalecer os nossos grupos na vivência da espiritualidade libertadora, profética e missionária, compromissada com o Reino e com as causas dos povos, fazendo-nos presença ativa, sobretudo nos espaços juvenis e coletivos, construção do bem comum e políticas públicas voltadas para a juventude
  • Garantir espaços de diálogos, discussões e ações, onde a mulher e demais cidadãos em todas as fases da vida, possam defender os seus direitos em consonância com os diversos seguimentos sociais, tais como: igrejas, escolas, pastorais, movimentos e redes, que propiciem campanhas, passeatas, mobilizações  sociais em defesa dos direitos de todas as mulheres e das pessoas em geral.
  • Criar espaço, campanhas regionais, rodas de conversa e encontros com grupos de base, para discutir com a família, igrejas, sociedade e nos meios de comunicação o extermínio da juventude.

São Francisco e outras Bacias

  • Multiplicar e intensificar as lutas pela água, articuladas entre si, inclusive pela articulação popular São Francisco Vivo, e com mais apoio da Igreja.

 

A matéria foi construída com trechos extraídos das reportagens do Site da Diocese de Barreiras e do site da CPT Bahia.

Segue o link dos referidos sites: http://diocesedebarreiras.org.br/  e http://cptba.org.br/compromissos-dos-plenarinhos-da-41a-romaria-da-terra-e-das-aguas/

Fotografias: Tomas Bauer/CPT Bahia e José Helio – Notícias da Lapa.

 

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