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Comunidade eclesial de base e iniciação à vida cristã

Por Nelito Dornelas

A exortação apostólica Evangelii Nunciandi, do Papa Paulo VI, de 1975, já nos advertia de que evangelizar não é, para quem quer que seja, um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial. Nenhum evangelizador/a é o senhor/a absoluto/a da sua ação evangelizadora (EN 60).

Nesta mesma linha de pensamento, o Documento de Aparecida faz vigorosa afirmação de que não há discipulado, seguimento a Cristo, sem comunhão, sem comunidade (DAp 156). Afirma que a fé em Jesus Cristo nos chegou através da comunidade eclesial e ela “nos dá uma família, a família universal de Deus na Igreja Católica. A fé nos liberta do isolamento do eu, porque nos conduz à comunhão”.

As Comunidades Eclesiais de Base são escolas que ajudam a formar cristãos/cristãs comprometidos com sua fé, discípulos e discípulas, missionários e missionárias do Senhor, como testemunhas de uma entrega generosa, até mesmo com o derramamento do sangue de muitos de seus membros. Elas abraçam a experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47) (DAp 178).

Para desenvolver em seus membros “o amadurecimento no seguimento de Jesus e a paixão por anunciá-lo”, a Igreja precisa renovar-se constantemente em sua vida e ardor missionário, transformando-se em redes de comunidades, promovendo a “conversão pastoral”. Só assim a Igreja pode ser, para todos os batizados, casa e escola de comunhão, de participação e solidariedade. Em sua realidade social concreta e em comunidade, o discípulo e a discípula fazem a experiência do encontro com Jesus Cristo vivo, amadurecem sua vocação cristã, descobrem a riqueza e a graça de ser missionário e missionária e anunciam a Palavra com alegria (DAp 167).

A grande contribuição das Comunidades Eclesiais de Base, surgidas na década de 1960, foi o redescobrimento da pessoa de Jesus Cristo a partir da leitura comunitária da Palavra de Deus. Esse redescobrimento, em primeiro lugar, não foi efeito de investigação teológica, mas simplesmente porque o Evangelho reencontrou seu próprio lugar, aquele lugar onde deve ser lido e onde se torna Palavra para nós, a comunidade eclesial. Esse lugar é o mundo das pessoas simples, dos pobres e excluídos.

A redescoberta da pessoa de Jesus Cristo pelo povo simples das CEBs foi constatada pelo teólogo e cardeal Joseph Ratzinger, o Papa emérito Bento XVI que assim o expressou:

Às vezes parece ser tão complicado (ler a Bíblia) que se julga que só os estudiosos podem ter uma visão de conjunto. A exegese deu-nos muitos elementos positivos, mas também fez com que surgisse a impressão de que uma pessoa normal não é capaz de ler a Bíblia, porque tudo é tão complicado. Temos de voltar a aprender que a Bíblia diz alguma coisa a cada um e que é oferecida precisamente aos simples. Nesse caso dou razão a um movimento que surgiu no seio da teologia da libertação que fala da interpretação popular. De acordo com essa interpretação, o povo é o verdadeiro proprietário da Bíblia e, por isso, o seu verdadeiro intérprete. Não precisam conhecer todas as nuances críticas; compreendem o essencial. A teologia, com os seus grandes conhecimentos, não se tornará supérflua, até se tornará mais necessária no diálogo mundial das culturas. Mas não pode obscurecer a suprema simplicidade da fé que nos põe simplesmente diante de Deus, e diante de um Deus que se tornou próximo de mim ao fazer-se homem” (RATZINGER, Cardeal Joseph, O sal da terra: o cristianismo e a Igreja católica no limiar do terceiro milênio. Rio de Janeiro, Imago, 1997, p210-211).

A grande descoberta da pessoa de Jesus, feita em comunidade, levou os pobres e os simples a perceberem Jesus como um próximo e uma Boa Nova. Sendo Jesus entendido como Boa Nova, ele traz alegria, júbilo, gratidão e o compromisso com seu projeto de vida até o martírio.

A Paixão de Cristo, interpretada em comunidade, fez com que muitas pessoas descobrissem que não é só Jesus quem carregou a cruz e foi submetido aos piores tormentos. Sua paixão se inscreve no interior da paixão dolorosa do mundo. Seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história. Da consciência da relação da paixão do mundo com a paixão de Cristo nasce o desafio de enfrentar e superar as causas que as provocam, mediante o compromisso com a justiça por uma sociedade fraterna e solidária, em vista do Reino de Deus.

 

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