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Padre Paulo Bezerra: “é fundamental não deixar desperdiçar a passagem de Francisco entre nós”

Por Luis Miguel Modino

Um padre da periferia, da teologia da libertação, da opção pelos pobres. Esse é Paulo Sergio Bezerra, alguém que, depois de 36 anos em Itaquera, na zona leste de São Paulo, tem se tornado uma referência para muitos. Chegou lá seguindo os passos de Dom Angélico Bernardino, um bispo que, mesmo emérito, nunca perdeu sua voz e seu testemunho profético.

Nesta entrevista, o Padre Paulo, reflete sobre a realidade social e eclesial no Brasil atual e sobre as mudanças que têm acontecido desde que 38 anos atrás foi ordenado padre. Define os padres novos e seminaristas dizendo que “buscam a carreira”, clericais, interessados mais nos objetos religiosos do que nos livros, criticando também os institutos de teologia, onde “alguns professores são explicitamente contrários ao que o Papa fala”. Nesse sentido ele afirma que “com Francisco, veio, em primeiro lugar, uma certeza de que estávamos e estamos no rumo certo. Em segundo lugar, temos uma força maior que nos ajuda a enfrentar tudo aquilo que vem como repressão, ou incompreensão”.

O Padre Paulo Bezerra tem feito realidade uma Igreja de portas abertas, em saída, que se faz presente nas lutas sociais e na defesa dos mais pobres, especialmente no coletivo IPDM – Igreja Povo de Deus em Movimento. Ele, que participou na celebração ecumênica prévia a prisão de Lula, afirma a injustiça desse fato e vê em Guilherme Boulos, a quem diz apoiar abertamente, alguém que está fazendo realidade “uma política a partir de baixo”.

Em resumo, ele insiste em duas coisas, “a crise é importante como um kairós, um tempo favorável para a gente aprofundar na crise e ver caminhos novos”, e junto com isso, na necessidade de “não deixar desperdiçar a passagem de Francisco entre nós”.

Você sempre trabalhou na periferia de São Paulo, o que significa ser padre na periferia?

Em nasci na periferia de São Paulo, em São Miguel Paulista, no bairro de Cangaíba, fiquei treze anos com os Redentoristas em Aparecida. Depois no tempo do noviciado eu li muito o Jornal “O São Paulo”, no tempo em que Dom Paulo era cardeal. Aí, lindo muito o Jornal “O São Paulo” e vendo como a Igreja de São Miguel Paulista era mais firme na questão social, fiz o noviciado, um ano de teologia e decidi voltar para meu lugar, que é a periferia, e vim para a periferia com o bispo Dom Angélico Sândalo Bernardino.

Vim por opção pelos pobres, numa época marcada pela conjuntura do regime militar, viemos muitos ex-religiosos, na época em que aconteceu a operação periferia. Muitas religiosas deixaram os colégios e foram para as periferias e com Dom Angélico formamos um grupo muito bom de agentes pastorais. Então vir para a periferia significa também voltar ao original do Evangelho.

Todo o trabalho que você fez ao longo de tanto tempo, que muitas vezes não foi entendido dentro da própria Igreja, com a chegada do Papa Francisco, que fala dessa Igreja nas periferias, sente que reafirma a opção que um dia fez, mesmo diante das críticas e de situações incomodas que tem experimentado ao longo da sua vida?

Acho que para você assumir um trabalho de periferia tem que ser um trabalho feito com corpo intereclesial, o bispo tendo religiosos, padres e leigos comprometidos. Isso nós vimos como um processo constante, nada era feito de uma forma pessoal, personalista, havia uma pastoral de conjunto. Isso foi quebrado em 1989, justamente com a divisão da Arquidiocese de São Paulo por João Paulo II, e aí quebrou todo o trabalho pastoral da grande São Paulo.

Nesses anos todos de pontificado de João Paulo II e Bento XVI fomos ficando cada vez mais reduzidos cada um em seu pedaço, cada um em seu canto. Muitos gostaram da independência, sem pastoral de conjunto, desacreditando de comunidades, de conselhos econômicos, de conselhos pastorais, assumindo cada vez mais uma linha pessoal mais de conservação da paróquia.

No meu caso eu estou em Itaquera, e isso explica trinta e seis anos, eu tenho trinta e oito de padre, explica porque a gente optou por não deixar desconstruir todo o feito no tempo da região episcopal. Durante muitos anos quase que sozinho, umas três, quatro, cinco paróquias em meio de cem paróquias. Em 2010 então, a gente para não ficar sozinho, alguns padres, sentimos a necessidade de nos encontrar para uma coordenação pastoral, nossas questões presbiterais e decidimos porque não fazer os leigos e os padres ficar juntos e formamos o coletivo IPDM, Igreja Povo de Deus em Movimento.

Esse nome surgiu de uma expressão de Dom Angélico mesmo, a gente fez um livro sobre o tempo dele aqui em São Miguel, e ele mesmo falou, faça um livro não sobre Dom Angélico, faça um livro dizendo que Dom Angélico está no meio do povo, somos Igreja Povo de Deus em Movimento, daí surgiu o nome do coletivo. Então começamos as reuniões, eram dez paróquias no começo, hoje estamos só três. Era-se de esperar que com o Papa Francisco aumentasse o número de paróquias, inclusive para assumir as propostas de Francisco, mas infelizmente diminuiu para três.

Com Francisco, veio, em primeiro lugar, uma certeza de que estávamos e estamos no rumo certo. Em segundo lugar, temos uma força maior que nos ajuda a enfrentar tudo aquilo que vem como repressão, ou incompreensão. E terceiro, a gente não fica lamentando o passado e partilha a criatividade pastoral. Na minha paróquia sempre teve, mas existe um espírito novo agora. Você tem que quebrar o clericalismo que é muito forte, clericalismo, devocionismo, um povo totalmente ligado a tradições novas, eu digo aí em relação à ECC, o Terço dos homens, uma serie de devoções que vieram justamente para deixar tudo só no religioso. Com Francisco, eu não tenho dúvida, todas as portas estão abertas, e quem quer que seja que vem a nos reprimir, nos temos argumento mais forte agora.

Essa atitude de Francisco e o que acontece com a Igreja Povo de Deus em Movimento, pode nos levar a pensar que Francisco fica muitas vezes como um enfeite. Como convencer ao clero e à Igreja que o caminho que propõe Francisco é o caminho que deve ser seguido?

A partir da prática pastoral, ir fazendo a partir do que o Papa fala, escreve, o que ele pede, e fazendo que Francisco seja reconhecido nas bases, porque mal ele é citado na oração eucarística. Há paróquias aqui que quando fala lembremos do Papa, não fala nem o nome dele. Desde que a Evangelii Gaudium foi editada, todas as dioceses do mundo deveriam parar para fazer seu plano pastoral a partir daí, que é uma nova etapa da Igreja, como ele mesmo fala no inicio da Evangelii Gaudium, e isso não foi feito.

Cabe às pessoas que estão mordendo essa isca, de tentar ganhar a simpatia, sobretudo do povo desinformado. Com as redes sociais, assim como circula de tudo o que não presta, a gente divulgar esses blogs, essas páginas importantes, eu sempre faço isso. Sei que texto longo o povo não lê, então resumir o texto, fazer um comentário. É um processo que vai a médio, longo prazo.

Também tem que ter uma interferência radical nos seminários, mudar completamente a estrutura de formação de padre, essa estrutura de formação de padre não dá mais, não leva às ideias de Francisco, pelo contrário leva à rejeição da Igreja de Francisco, tem que acabar com esse tipo de seminário. Essa é uma convicção que eu tenho, e tem outras pessoas que pensam igual. Penso que será um passo importantíssimo, rever toda a formação dos padres. Voltar até um estilo que a gente fazia antes aqui, que eram as casas de formação, se colocavam os seminaristas em casas paroquiais, com padres lúcidos, que na época eram mais próximos da linha que o bispo pedia, e ali se formavam os padres, na pastoral, no estudo e no trabalho. Agora se coloca de volta o seminário antigo, as pessoas com tempo para estudar a vontade, mas não estudam, buscam a carreira.

Tem duas coisas, em primeiro lugar reforçar nas comunidades e divulgar o Papa Francisco, renovar as estruturas paroquiais, ele fala de estrutura paroquial nova, renovar de fato horários, modalidades. Divulgar, eu acho que divulgar é fundamental. Cria caso, mas é bom. Depois mexer nos seminários, eu acho que são duas vertentes aí que não pode deixar de lado.

A gente poderia dizer que o seminários, ainda hoje, mesmo diante das críticas do Papa Francisco, diante dessa atitude, continuam sendo uma escola de clericalismo?

Sem dúvida, o seminário é feito por pessoas clericais. Os reitores dos seminários têm essa cabeça e alguns institutos de teologia, o mais importante nosso aqui é a PUC. Mas alguns institutos, alguns bispos aqui na grande São Paulo, não têm mais seminaristas na PUC estudando, tem outros institutos na zona leste, em Mogi das Cruzes, na zona oeste. Colocam os seminaristas em institutos onde alguns professores são explicitamente contrários ao que o Papa fala, ao ponto de um professor chegar na sala de aula falar que Francisco deixa a moral muito solta, que é um Papa que deixa as coisas sem amarrar, sem um rosto definido.

Continuam nos institutos de teologia alguns professores com uma pregação contraria ao que o Papa propõe. Os seminaristas são carreiristas mesmo. Aqui em São Paulo tem varias lojas, livrarias, sempre encontra eles nas Vozes, lá na Loiola, nas Paulinas, onde mais os padres vão. Eles estão na parte de objetos religiosos, na parte dos livros poucos param, onde vende turíbulo, onde vende naveta, onde vende as velas, onde vende clergiman, mas livros que estão quase sempre na frente, poucos param, e geralmente o clero mais jovem.

Falou de Dom Angélico, quem se tornou famoso por presidir um ato ecumênico no dia em que Lula se entregou. A atitude de Dom Angélico despertou muitos elogios na Igreja de base, mas alguns membros da hierarquia criticaram aberta ou veladamente essa atitude, inclusive você estava lá naquele dia. O que dizer diante dessa situação que Dom Angélico passou? O que dizer diante da situação que Lula e o Brasil estão vivendo?

Em primeiro lugar, Dom Angélico sempre foi um bispo de base, desde padre novo em Ribeirão Preto. Quando na catedral de Ribeirão Preto não tinha mais espaço, porque havia certa persecução, pois ele falava abertamente contra o regime militar, ele pegou a pasta dele e foi para uma favela, ele foi nomeado bispo sendo padre de uma favela e de lá veio para São Paulo. A vida inteira, o pai metalúrgico, a mãe também, mãe de oito filhos se não me engano, e Dom Angélico sempre teve uma atitude a vida inteira. Ele abriu caminhos para muitas pessoas seguirem, eu estou na zona leste pelo testemunho dele.

O fato de ter ido lá no dia em que Lula foi preso em São Bernardo, eu também fui e esperava ter encontrado no mínimo cinqüenta padres, pelo menos. Tinha quatro padres idosos, inclusive Dom Angélico, um deles. Penso que é uma atitude de alguém que é coerente com o Evangelho e com a história, de uma lucidez profunda e uma pessoa que tem uma abertura à realidade, onde a Igreja deveria estar. Era de se esperar ali pelo menos cem padres, bispos também. Quando nós quatro saímos do Sindicato e fomos para a Praça, fomos aplaudidos, a multitude que estava lá aplaudiu. Quer dizer, a presença da Igreja era esperada.

Dom Angélico é uma pessoa que tem a presença do real, e onde vai dá o recado a partir do Evangelho, mas o Evangelho encarnado na realidade do agora, e só podia ser, no momento aquele, de não concordância com a prisão do Presidente Lula. Foi retalhada, foi dito que ele estava instrumentalizando a liturgia. A liturgia ela é ressonância do que acontece na vida. Então não e questão de instrumentalizar, há vários tipos de instrumentalização da liturgia. E ali está um fato inegável de injustiça, o Brasil inteiro falando, juristas falando, pessoas internacionalmente falando.

Acho que é um ato de coragem de Dom Angélico, e mais que coragem, de coerência dele. As más línguas falam que ele é velho, emérito e então que ele faz e deixa fazer, mas não é isso não. Tem essa leitura que fazem dos padres mais idosos, dizendo que não têm nada a perder. Não tem nada a perder quem não quer carreira, que vive da realidade e dos apelos da realidade. Eu vejo em Dom Angélico coerência com o Evangelho e coerência com a história da CNBB no Brasil, uma linha profética, engajada, comprometida.

Até porque Lula no início da sua carreira política esteve muito ligado com a Igreja católica e ao longo dos mandatos dele, o cuidado que teve com os pobres, é uma mostra que essa visão a partir do Evangelho e da vida da sociedade esteve muito marcado. Por que esse distanciamento na atualidade, de onde vem tudo isso?

Eu acho que vem, em primeiro lugar, de que os bispos têm-se associado aos grandes meios de comunicação social que fazem o papel de infernizar e manipular a opinião pública contra aquilo que deu certo no governo Lula, que entrou na alma do povo. No tempo da ditadura militar em São Paulo, havia aqui dos radialistas que diariamente no rádio, falavam contra Dom Paulo Evaristo e contra os direitos humanos, dizendo que direitos humanos é defender bandido, e isso está até hoje. Se falar de direitos humanos, o pessoal diz que a Igreja defende bandido. Aquilo era rádio, imagina na televisão.

É impressionante como pessoas de classe media hoje, beneficiadas também pelo governo Lula, têm uma raiva que, nem psicologicamente eu sei explicar de onde vem essa raiva. Mas eu penso que muito da explicação está nos meios de comunicação social comprometidos com o poder econômico. Então, o poder econômico, ele se defende, ele se propaga, ele domina através dos meios de comunicação social comprometidos com ele mesmo. Aí é que eu vejo que infestou a cabeça do povo e é difícil você convencer do contrário. Você veja aí aquelas manifestações do verde-amarelo, é o pessoal que fala, fala, fala, mas não tem uma proposta concreta. E agora onde está esse povo todo que saiu contra Dilma? E hoje está muito pior.

Por outro lado, você vê, vamos pegar o MTST aqui em São Paulo, como no interior o MST, como estão firmes, continuam varias frentes de luta, não é só uma questão de habitação, é uma questão de direitos, sendo presentes nas lutas populares do povo brasileiro. Agora, não tem visibilidade, não aparece nas estatísticas. Aí o que eu vejo que os meios alternativos são fundamentais, para que essas lutas possam aparecer e também ir mudando a visão que o povo tem. Penso que o principal é essa vinculação, esse serviço, que os meios de comunicação social fazem ao poder econômico para manter essa política atual.

No mês de outubro estão marcadas eleições no Brasil. Pessoalmente e desde a Igreja Povo de Deus em Movimento, tem manifestado certa aproximação de Gilherme Boulos, visto por algumas pessoas como o novo líder da esquerda brasileira. O que ele pode representar para o futuro do Brasil?

O Boulos já está apresentando, no presente, algo para o futuro do Brasil na questão política, que é a política a partir de baixo, que o PT fez nas décadas de oitenta e noventa, nos comitês, nos grupos, etc. E está fazendo isso a través daquela plataforma Vamos que percorre o Brasil inteiro com muitas propostas, está indo em vários lugares onde é convidado, e o discurso do Boulos bate em dois pontos, o primeiro ponto uma ciência que a política como está ninguém mais acredita. O povo faz rejeição com o voto nulo ou em branco. E segunda condição é que tem que partir das bases mesmo. A proposta do Boulos passa a médio e longo prazo, de total reconfiguração da maneira representativa da política.

Penso que algo novo vai acontecer daqui ao futuro, já está acontecendo. Ele mesmo falou que não é herdeiro de Lula, ele está com o povo quando critica a prisão injusta de Lula, tem suas críticas ao PT, mas ele propõe outra saída, porque essa saída passa por não profissionalizar os mandatos. Você faz do mandato uma carreira, fica aí quatro anos, oito anos, doze anos, dezesseis anos…

Penso que é algo novo e há um diálogo com os movimentos sociais, que o PT deixou de fazer, isso é uma fraqueza. Não ter concessão nenhuma para o andar de cima, nada de concessão aos grandes, no que diz a juros e riquezas, nada de um governo ao serviço dos banqueiros, privilegiando temas importantes que às vezes, não foi dito explicitamente pelo PT, como a questão das terras indígenas. Quantas vezes Dom Erwin Kräutler pedia para Dilma recebê-lo e parece que não foi recebido. Depois os debates de temas abertos, aborto, homossexualidade, negros, diversidade. Não tem problema em conversar sobre nada, conversa sobre tudo, não só conversa como valoriza as pessoas.

É um mandato, eu penso, muito mais plural, muito mais aberto e sem medo de se tocar em temas que parecem temas que dêem mais ibope ou menos ibope. Nós IPDM, é claro há pessoas no IPDM que apóiam Lula, se for candidato, e outros o Boulos. Agora, o próprio Boulos entrou como candidato por causa dessa situação que está aí, ele pensou muito, conversou com as bases do MTST, com várias pessoas, é uma candidatura que foi muito conversada, não é uma candidatura assim de chutar em qualquer direção, há um processo de construção dessa candidatura, com propostas também. Está a plataforma dele com sugestões para ser um governo diferente.

Acho que vale a pena investir, eu pessoalmente declaro meu voto para ele e estamos comprometidos nas lutas também, a presença nossa nas manifestações, como caminho a uma cosa nova, a ser construída.

Na Igreja brasileira, o movimento Fé e Política, durante muito tempo teve uma grande importância. Aos poucos, esse desencanto, não sei se é a palavra mais certa, com a política tomou conta também do interior da própria Igreja. Não seria necessário retomar essa dimensão dentro da Igreja católica e fazer uma reflexão que ajude a tomar consciência da importância da política como instrumento necessário para fazer realidade um mundo melhor para todos?

Se depender do clero isso não vai sair nunca. A questão da Fé e Política, pelo menos na zona leste, foi substituída por uma organização chamada escolas da cidadania. Tem varias escolas aqui em São Paulo que vão nessa linha de Fé e Política, mas com um nome diferente e com propostas bem concretas, de conquista de direitos cidadãos. Eu acho que esse é um caminho interessante, algumas dioceses assumiram isso e algumas paróquias, as nossas regiões.

A nossa paróquia está tentando fazer encontros sobre a realidade brasileira, no primeiro encontro veio uma pessoa só, depois foram duas. Parece que o povo não quer falar da realidade brasileira, parece que não quer mesmo, porque foi contaminado que tudo isso não presta, todo mundo rouba, etc. Isso acho que também é uma coisa a ser reconstruída, penso que nos acampamentos do MTST eles fazem muito bem feito, mas minha opinião é que eles refletem mais da prática deles. Não tenho habitação, não tenho casa, não pago aluguel, então vamos atrás e ali começa uma reflexão.

Nossa Igreja hoje, os nossos católicos que freqüentam a Igreja em São Paulo pelo menos, tem desempregados, tem pessoas sem dinheiro, mas existe uma camada da população que já tem sua casinha, se acomodou. Outra questão é que isso é um trabalho que não se faz numa paróquia, é uma opção prioritária de uma Igreja que está organizada. Tem que ter pessoas, meios, instrumentos, objetivos. Eu penso que a gente faz, mas se houvesse uma concordância maior, você consegue mais resultados.

Nós não temos isso, a pastoral de conjunto, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Você pega a CNBB, por exemplo, suas propostas, quais que chegam realmente ate as dioceses? A própria proposta do Papa sobre o Sínodo da Família, o questionário. Quem foi que respondeu àquilo, que diocese organizou, pouquíssimas. Eu não sei agora com o Sínodo da Amazônia, com os questionários, se chega ate a gente, se tem interesse. Eu sinto muito um desinteresse, uma indiferença com o que está acontecendo muito perigosa, onde as pessoas não acreditam, e eu entendo, estão tão contaminadas, com tanta raiva , tanto ódio, que nem dialogar não quer.

Eu penso que tem que ser com a prática. Os movimentos sociais hoje e os sindicatos têm que se converter. Os sindicatos fizeram muito na linha da profissionalização, mas quem sabe se a crise toda, a crise do próprio Partido dos Trabalhadores, a crise econômica, faz também os sindicatos rever institucionalmente, a sair do profissionalismo, a fazer trabalho de base de novo. Na greve dos caminhoneiros tinha de tudo, tinha caminhoneiros defendendo o Bolsonaro, outros defendendo a volta dos militares, alguns defendendo a questão da libertação do Lula. Há uma desorganização geral, a gente precisa reunir forças, acreditar. É um desafio para mim, eu sou padre há 36 anos, e não há coisa mais complexa do que o povo. Você nunca entende para onde seu povo quer ir. Você pensa e lá na frente voltou de novo. Algumas lideranças que tinha investido nelas.

A juventude é uma questão que poderia ser mais bem vista pela Igreja. Eu vejo agora que a PJ, que foi castigada nos anos noventa, até tiraram da CNBB o nome de PJ, está viva, tem encontros de PJ. Eu vejo muitos núcleos surgindo mais fora da Igreja do que dentro da Igreja, inclusive nesses coletivos novos de juventude. No PSOL tem vários núcleos, núcleos de bairro. Se a Igreja dialogar com esse pessoal, se nós não estivermos aí dentro juntos, nós vamos ficar num grupinho de pessoas cada vez mais envelhecido.

Nesse sentido, a gente poderia dizer que a educação desempenha um papel fundamental. Vocês participam da organização Scholas Ocurrentes, que é um projeto de educação alternativo e que faz que uma educação de qualidade possa chegar a todos, também às periferias. Como esse trabalho está melhorando ou pode melhorar a vida das crianças e dos jovens nas periferias?

Scholas Ocurrentes aqui no Brasil são chamadas Pontos de Encontro e já estavam presentes na época do Lula. Nós estamos começando agora praticamente. Essa proposta de encantamento dos jovens pela cultura, da arte, etc. Para nós aqui, enquanto essa organização, é nova. Nós temos também outras formas na paróquia, oficinas, aulas de teatro, debates. Através de algumas pessoas da IPDM a gente vai levar em frente para o Brasil essa proposta de Scholas Ocurrentes.

Eu mesmo participei lá em Roma de um encontro internacional que serviu para conhecer. Enquanto proposta, eu acho que é maravilhosa, é uma coisa de direito pontifício, ligado diretamente ao Papa. Existe a proposta de estados que investem dinheiro na educação de militares, serviço militar obrigatório. Talvez fazer isso com os jovens na questão da cultura. Na Argentina já foi lançado, aqui no Brasil tem também alguns pontos, mas eu pessoalmente estou começando a conhecer isso agora, embora haja já no Brasil essa experiência há algum tempo, chamada Pontos de Encontro.

Mais alguma coisa que quer destacar?

Eu gostaria de insistir em duas coisas, em primeiro lugar a crise é importante como um kairós, um tempo favorável para a gente aprofundar na crise e ver caminhos novos. Em segundo lugar, não deixar desperdiçar a passagem de Francisco entre nós. Acho que é fundamental que a gente se articule em torno das suas propostas.

No seminário que teve no Rio Grande do Sul, sobre a virada profética de Francisco, achei algumas pessoas mais de base que diziam que na sua diocese o bispo não faz isso ou os padres não fazem aquilo. A minha resposta foi, façam vocês, façam independente do bispo, do padre, vão fazendo. Acho que isso é fundamental, a gente não ficar esperando promoção, nem apoio , ir fazendo, ir criando casos, fazendo, revendo, e sem medo de avançar.

Eu penso que nessas duas coisas, a gente precisa estar muito firme. A crise ensina e ela é Kairos. Em segundo lugar, não ter medo de fazer e descobrir parceiros e parceiras nesta caminhada de libertação.

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