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Medellín em gotas

Nesses dias em que se aproxima os 50 anos a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizada em Medellín (Colômbia) entre os dias 26 de agosto e 6 de setembro de 1968, o Portal das CEBs vem contribuir disponibilizando alguns artigos e documentos que explicitam a importância do documento para os caminhos da Igreja nessas últimas décadas.

A seguir apresentamos um conjunto de artigos publicados no IHU, chamado “Medellín em gotas” elaborado Frei Marcos.

Medellín em gotas                           2018-07-02

1ª- Contexto histórico………………………………………………………………………………………………………………………. 1

2ª- Método adotado…………………………………………………………………………………………………………………………. 2

3ª- Modelo eclesiológico……………………………………………………………………………………………………………………. 4

4ª- Centro da atenção da Igreja…………………………………………………………………………………………………………. 6

5ª – Verdadeiro desenvolvimento………………………………………………………………………………………………………… 7

6ª- Vocação original da América Latina………………………………………………………………………………………………… 8

7ª – Situação de Injustiça………………………………………………………………………………………………………………….. 9

8ª- Processo de socialização…………………………………………………………………………………………………………….. 10

9ª – Igreja servidora……………………………………………………………………………………………………………………… 11

10ª- Luzes para a ação evangelizadora………………………………………………………………………………………………. 12

1ª- Contexto histórico

Escreve Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP) e professor aposentado de Filosofia (UFG).

Neste ano de 2018, celebramos o Jubileu de ouro50 anosda II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, que foi aberta por Paulo VI em Bogotá (Bolívia), no dia 24 de agosto de 1968 e realizada em Medellín (Colômbia) entre os dias 26 de agosto e 6 de setembro daquele ano.

Fazer a memória desse importante acontecimento significa voltar às fontes e reviver, em nossa realidade, os ensinamentos de Medellín, mostrando sua atualidade, que – aliás – é uma tarefa urgente no meio eclesial e, sobretudo, eclesiástico de hoje. Tem-se a impressão que muitas Igrejas esqueceram de Medellín e do papel fundamental que exerceu e ainda exerce na caminhada de renovação da Igreja latino-americana e caribenha depois do Concílio Vaticano II. Às vezes, parece até que seus ensinamentos foram descartados e jogados no lixo.

No decorrer deste ano e, se for necessário, continuando também em 2019, numa série de artigos, com o título geral “Medellín em gotas”, pretendo – de cada um dos 16 documentos – destacar e divulgar, com algumas reflexões e utilizando ao máximo as palavras dos próprios documentos, as principais contribuições (ideias-chave) das Conclusões de Medellín para a Igreja na América Latina e no Caribe, hoje.

Só as primeira três “gotas” (Contexto histórico, Método adotado e Modelo eclesiológico) serão de caráter geral, com a finalidade de situar, social e teologicamente, o sentido da Conferência de Medellín como um todo.

Por serem as “gotas” numeradas, se houver a necessidade de escrever artigos sobre outros assuntos, sua publicação poderá ser momentaneamente interrompida, sem causar nenhum problema ao leitor ou à leitora.

Para fazer algumas reflexões sobre o contexto histórico de Medellín – a 1ª gota” – sirvo-me das informações do historiador e teólogo José Oscar Beozzo.

A Conferência – diz ele – “encontra suas raízes e inspiração, de uma parte, nos clamores e esperanças do povo latino-americano e caribenho e, de outra, no Concílio Vaticano II (1962-1965) e nos processos e sonhos por ele desencadeados na vida da igreja”.

A América Latina “era o único Continente que, ao chegar ao Concílio, já contava com uma estrutura episcopal de caráter colegial, o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM)”, fundado na I Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, Rio de Janeiro, 1955.

Entretanto, seu Presidente, o Cardeal do México, Mons. Dario Miranda y Gómez, “ao chegar a Roma, para a abertura do Concílio, em outubro de 1962, recebeu uma notificação da Cúria Romana de que o CELAM não podia convocar reuniões durante o Concílio. A imprevista suspensão da assembleia conciliar, logo em sua primeira sessão, a pedido do cardeal Achille Lienart, arcebispo de Lille na França e de outros cardeais que o secundaram, para que os bispos e Conferências episcopais pudessem se consultar para elaborar as listas de candidatos às Comissões conciliares, provocou o primeiro encontro não oficial dos bispos do CELAM. Da segunda sessão, em diante, já dentro do clima de liberdade do Concílio, o CELAM realizará suas assembleias, durante o próprio Concílio, além de inúmeras sessões de estudos, em função dos debates conciliares”.

Dessas reuniões, surgiu – muito forte – o desejo de uma II Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho por duas razões. Primeira: “a convicção da necessidade de um grande esforço conjunto do Continente para encaminhar a aplicação à vida da Igreja da América Latina, das Resoluções, Decretos e Reformas urgidas pelo Concílio”. Segunda: “a consciência de que temas fundamentais para o Continente não conseguiam entrar na pauta conciliar determinada, em grande parte, pelos episcopados centro-europeus. Mesmo a grande esperança depositada no esquema XVII, transformado em esquema XIII e, finalmente, na Constituição Pastoral sobre a ‘Igreja no mundo de hoje’ (Gaudium et Spes – GS), cumpriu-se apenas parcialmente. Os países subdesenvolvidos da América Latina, África e Ásia, não sentiam que seus problemas fossem compreendidos e, finalmente, assumidos pela já sobrecarregada agenda conciliar”.

Medellín, “espiritualmente, deita raízes no grupo da ‘Igreja dos Pobres’ que se organizou já na primeira sessão do Concílio, com alguns bispos da Europa, da Áfricae da América Latina, por inspiração de Paul Gauthier que fora professor no Seminário Maior de Dijon na França e partira para Nazaré, onde levava vida de pobreza como operário na imitação de Jesus Carpinteiro”. Terminado o Concílio, “este grupo propôs o Pacto das Catacumbas, em que se comprometia em levar vida de pobreza e de compromisso com as lutas dos pobres e solidariedade em suas necessidades e penas”.

Após o Concílio, Paulo VI – atendendo também ao pedido de diversos bispos – na Encíclica “Desenvolvimento dos Povos” (Populorum Progressio – PP, 1967), retomou os temas do clamor e das angústias dos povos da América Latina, África e Ásia, e da necessária solidariedade internacional. A Encíclica exerceu “profunda e duradoura influência sobre o Continente e sobre as atitudes da Igreja, frente ao desenvolvimento, ‘o novo nome da paz’, no dizer da própria Encíclica. Tornou-se, ao lado dos Documentos do Vaticano II, uma das principais fontes de Medellín”.

Entre os objetivos desta nova Conferência, “perfilavam-se uma revisão das Conclusões da I Conferência Geral do Rio de Janeiro (RJ), mas, sobretudo, a aplicação à América Latina e Caribe das Constituições, Decretos e Declarações do Concílio Vaticano II, a partir das realidades e aspirações, dores e esperanças do Continente”.

Por ocasião do décimo aniversário do CELAM, Paulo VI – em seu discurso de 23 de novembro de 1965 aos cerca de 600 bispos latino-americanos – “acena, pela primeira vez, publicamente, com a realização da II Conferência, como meio de estabelecer um Plano de Pastoral para a aplicação do Concílio no Continente”.

Mesmo “com muitas dificuldades práticas nascidas, de um lado, da instável situação político-social da América Latina e, de outro, dos problemas entre o CELAM e a Santa Sé, representada pela Comissão para a América Latina (CAL), na repartição das responsabilidades e no estabelecimento do regulamento”, é neste contexto histórico que – depois de diversos encontros de preparação imediata, promovidos pelo CELAM – foi realizada a II Conferência Latino-americana e Caribenha e foram publicadas suas Conclusões.

Referência:

José Oscar Beozzo. Medellín: inspiração e raízes.

2ª- Método adotado

A II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Medellín adotou e vivenciou o método (caminho) de trabalho “ver-julgar-agir” (“analisar-interpretar-libertar”) e “celebrar”. Para fazer algumas reflexões sobre esse método – a 2ª gota” – sirvo-me ainda das informações do historiador e teólogo José Oscar Beozzo.

Em Medellín, o primeiro passo “foi sempre o estudo atento da realidade tanto econômica, política e social, quanto eclesial do Continente latino americano e caribenho” (ver, analisar).

O segundo passo “consistiu em identificar as interpelações que brotavam da realidade, analisando-as à luz da palavra de Deus, do Vaticano II, do magistério e da experiência de toda a Igreja” (julgar, interpretar).

O terceiro passo – talvez o mais importante – “foi o de propor pistas de ação pastoral, visando transformar, no sentido do Reino de Deus e da libertação dos pobres, a realidade atravessada por estruturas de pecado e pelo clamor e esperança dos pequenos” (agir, libertar).

Para o estudo da realidade, Medellín contou com as contribuições das 8 Conferências preparatórias, com a assessoria do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS), “encarregado de oferecer aos participantes os dados sócio religiosos do Continente e uma análise da sua significação para a pastoral”.

Nas Comissões, o trabalho em grupos “permitiu cruzar a experiência pessoal dos participantes com os dados apresentados, colocar em comum a visão dos bispos com a prática de leigos e leigas, religiosos e religiosas, peritos e teólogos, párocos e observadores não católicos”.

A dinâmica dos trabalhos “previa que os textos elaborados nas Comissões fossem submetidos ao Plenário para sugestões e modificações. Uma vez incorporadas estas sugestões e modificações, deviam ser confiados a uma Comissão de redação, encarregada de sintetizar e fundir os textos das 16 Comissões num único Documento final. A falta de tempo e também a convicção de que a síntese faria perder muito da riqueza dos textos das Comissões, levou à feliz decisão de transformar nas Conclusões da II Conferência a contribuição de cada uma das Comissões, depois de submetidas a um voto do Plenário”.

Pela decisão tomada, os textos finais da Assembleia de Medellín compreendem: a Mensagem aos Povos da América Latina, a Introdução às Conclusões e as Conclusões propriamente ditas (16 Documentos, agrupados em três blocos: Promoção Humana, Evangelização e Crescimento na Fé e Igreja Visível e suas Estruturas).

A Conferência de Medellín “transformou-se num exemplo singular de recepção colegial do Concílio, pelas igrejas da América Latina e do Caribe”. É “o intento maior realizado pelas Igrejas de todo um Continente para receber o Concílio Vaticano II. Essa dimensão está expressa já no título escolhido para a II Conferência: ‘A Igreja na atual transformação da América Latina, à luz do Concílio’. Em todo acontecimento eclesial, mormente naqueles, como os Concílios, destinados a marcar em profundidade a vida da igreja, três elementos devem ser tomados em consideração: o evento em si, os documentos nele aprovados e finalmente a sua recepção”.

O método de trabalho adotado na Conferência possibilitou uma recepção do Concílio Vaticano II fiel, mas crítica e, ao mesmo tempo, criativa.

Medellín “caracteriza-se pela radicalidade com que determinadas orientações de fundo do Vaticano II foram plenamente assumidas. A primeira delas é a pastoralidade, que o Papa São João XXIII quis imprimir ao conjunto da obra conciliar. Nem todos os documentos conciliares alcançaram assimilar, plenamente, este horizonte que se encontra melhor expresso naquela que seria chamada de Constituição Pastoral da Igreja no Mundo de Hoje (Gaudium et Spes – GS)”.

Todos os seus 16 documentos “devem ser lidos à luz da pastoralidade. Eles arrancam da preocupação pastoral dos bispos frente à realidade pungente do Continente e terminam sempre com orientações, de caráter prático, para os trabalhos pastorais. Vários deles trazem impresso, no seu próprio título, a dimensão da pastoralidade”. E mais ainda, “esta dimensão constitui, explicitamente, a terceira parte de todos os dezesseis documentos”

Outra dimensão conciliar, “plenamente vivida por Medellín foi a colegialidade episcopal, não enquanto debate teórico ou aprimoramento de sua definição, mas como exercício prático inovador. Foi todo um Continente que buscou colegialmente a melhor maneira de aplicar o espírito e as determinações da Concílio à vida de suas igrejas particulares”.

As Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano, a partir de Medellín, “ainda que de maneira penosa e sofrendo crescentes restrições por parte de Roma, conquistaram um espaço de realização da colegialidade episcopal, em profunda comunhão com a Sé de Pedro, mas sem abdicar do pleno exercício de sua própria responsabilidade de pastores desta porção do povo de Deus, deliberando e propondo às suas igrejas um magistério próprio e investido de autoridade. Esta forma de exercício da colegialidade ganhou um selo excepcional, ao acolher Paulo VI, o pedido expresso pelos bispos de levar imediatamente para suas igrejas (antes da versão oficial aprovada em Roma) as Conclusões que acabavam de ser aprovadas, em Medellín”.

A Conferência de Medellín constitui, assim, “um modelo alternativo à maneira de se exercer a colegialidade episcopal consubstanciada nos Sínodos dos Bispos, reduzidos à condição de um órgão consultivo do Romano Pontífice. Medellín preservou, na sua inteireza, ao lado da voz papal, a voz dos bispos latino-americanos e caribenhos; ao lado da autoridade petrina e, em harmonia e comunhão com a mesma, a autoridade própria dos bispos; ao lado do magistério pontifício, o magistério próprio das igrejas locais”.

No exercício da colegialidade, Medellín inovou também em outro sentido. “Uma das intuições, que permitiu a revolução eclesiológica do Vaticano II foi a de ancorar a noção de Igreja na figura do Povo de Deus, lutando-se tenazmente para que este capítulo precedesse o da constituição hierárquica da Igreja, deixando claro que bispos, padres e o conjunto dos batizados formam parte do mesmo Povo de Deus”.

Em Medellín, pelo método adotado, trabalharam lado a lado, nas 16 Comissões e Subcomissões, bispos, peritos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e leigas, além dos observadores não católicos, participando todos ativamente da elaboração dos textos.

Podemos dizer que “simbolicamente, a igreja toda estava ali implicada na busca dos caminhos para melhor servir ao povo latino-americano, no sentido de sua redenção e libertação, ainda que nas votações tomassem parte apenas os bispos e outra pequena fração da assembleia constituída pelos padres diocesanos ou religiosos. De todos os modos, o voto, em Medellín, não se restringiu apenas aos bispos. O que ali aconteceu, aponta na direção de que todos os membros do Povo de Deus tenham voz e voto nos assuntos pastorais, seja nos Conselhos pastorais paroquiais e nos Conselhos diocesanos de pastoral, seja na prática já consagrada das Assembleias diocesanas para aprovação das diretrizes e prioridades pastorais de uma Igreja particular. Esta noção alargada de colegialidade, implicando o conjunto do Povo de Deus nas responsabilidades pela vida e missão da igreja esteve esboçada no método de trabalho adotado em Medellín e, em parte, nas votações ali realizadas”.

Em Medellín, o Concílio Vaticano II “não é tomado, nem como ponto de partida e nem mesmo como ponto de chegada”. O ponto de partida “é sempre a realidade do povo e dos países latino-americanos lida como sinais do tempo, onde a voz de Deus se faz ouvir e se torna interpelação premente que exige a resposta generosa da ação pastoral e social”. Como afirma a Introdução às Conclusões da Conferência, “não basta refletir, obter maior clareza e falar. É preciso agir. Esta não deixou de ser a hora da palavra, mas tornou-se, com dramática urgência, a hora da ação”.

O Concílio “não é tampouco o ponto de chegada, mas sim as pistas pastorais que nos convocam para agir. Os documentos conciliares entram bem mais, junto com a Palavra de Deus, como um dos elementos de iluminação da realidade e critério para o discernimento evangélico de qual deva ser o nosso juízo sobre esta realidade e qual o nosso compromisso perante a mesma. Processa-se, assim, uma releitura significativa dos textos conciliares que coloca em relevo dimensões que tiveram inclusive dificuldades em encontrar sua plena expressão no desenrolar-se do Concílio” (Fonte: José Oscar Beozzo. Medellín: inspiração e raízes.).

Por fim, podemos afirmar que o método de trabalho adotado na Conferência de Medellín vivenciou e levou para à prática a Teologia dos sinais dos tempos do Concílio Vaticano II, que afirma categoricamente: “Para desempenhar sua missão (ou como diz hoje o Papa Francisco: ser “Igreja em saída”) a Igreja, a todo momento (reparem: “a todo momento” e não “de vez em quando”), deve (reparem também: “deve” e não “pode”) perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender (reparem ainda: “conhecer e entender”) o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática” (A Igreja no mundo de hoje – GS, 4).

3ª- Modelo eclesiológico

Para refletir sobre o modelo eclesiológico da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Medellín (1968) – a “3ª gota” – sirvo-me da leitura – análise e interpretação – desse importante acontecimento, feita pelo teólogo Clodovis Boff.

O maior fruto da Assembleia de Medellín “foi ter dado à luz a Igreja latino-americana e caribenha como latino-americana e caribenha. Os Documentos de Medellínrepresentam o ‘ato de fundação’ da Igreja da América Latina e Caribe a partir e em função de seus povos e de suas culturas”. Esses textos “constituem a ‘carta magna’ da Igreja do Continente.

Relendo hoje os documentos de Medellín “fica-se impressionado com o vigor e a audácia de sua expressão, ou, para dizer numa palavra, com seu ‘pathos profético’, típico dos textos originários e fundantes de uma tradição. Aquilo é linguagem de verdadeiros ‘Pais da Igreja’, Pais da Igreja latino-americana e caribenha como tal (Pe. José Comblin)”.

Até Medellín, “a Igreja no Continente era a reprodução do modelo da Igreja europeia, em seu modo de organização, em sua problemática teológica e em suas propostas pastorais. Era uma ‘Igreja-reflexo’ e não uma ‘Igreja-fonte’ (Pe. Henrique. de Lima Vaz)”.

Portanto, podemos dizer que “a Igreja latino-americana e caribenha, mais que ser Igreja da América Latina e do Caribe, era Igreja europeia na América Latina e no Caribe”, ou seja, “uma Igreja em estado de minoridade, tutelada, privada de sua legítima autonomia institucional”. Em outras palavras, a Igreja do Continente, até Medellín, “era substancialmente a extensão da Igreja europeia na América Latina e no Caribe”.

De fato, “num primeiro momento, a Igreja na América Latina e Caribe foi uma Igreja ibérica, espanhola ou portuguesa que fosse. Era, no sentido cultural do termo, uma Igreja ‘colonial’”.

Os grandes Sínodos realizados na América Latina no século XVI, como o do México e o de Lima, “são meras aplicações do Concílio de Trento ao novo Continente. De resto, Trento foi um Concílio extremamente eurocêntrico: ele não viu a América Latina e o Caribe e não disse uma palavra sequer da trágica realidade da destruição dos povos e culturas ameríndias, também pela ausência naquele Concílio dos bispos do Novo Mundo e de sua voz própria”.

Num segundo momento, temos na América Latina e Caribe uma Igreja‘romanizada’, que era “um modelo de Igreja extremamente centralizado no clero, na prática dos sacramentos e nas devoções de santos recentes e ‘oficiais’, destacando-se a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O I Concílio Plenário Latino-Americano, realizado em Roma em 1899, representou a aplicação direta do Vaticano I ao Continente”.

Foi com o Concílio Vaticano II “que se deram as condições de emergência de uma Igreja continental em sua originalidade e em sua diferença em relação ao modelo da Igreja europeia”. O Vaticano II significou a “deseuropeização” da Igreja e sua abertura verdadeiramente “católica” (Karl Rahner).

À época da realização de Medellín, “quando os modelos de desenvolvimento e os primeiros Regimes de Segurança Nacional, como o do Brasil, não conseguiam mais esconder sua verdadeira natureza elitista e opressiva, várias Igrejas latino-americanas estavam questionando sua aliança secular com o poder. Medellín, no caminho aberto pelo Vaticano II, que rompeu a ‘aliança constantiniana’ (M.-D. Chenu), foi decisivo para dar à Igreja da AL o perfil de uma Igreja livre do poder, próxima dos pobres e companheira do povo em sua caminhada libertadora. No Brasil em particular, com o documento do Regional Centro Oeste da CNBB ‘Marginalização de um povo’ e o documento do Nordeste II ‘Ouvi os gritos do meu povo’, a Igreja marcava, de modo resoluto, sua ruptura com o Poder e ao mesmo tempo sua aproximação com o povo pobre”. A Igreja da América Latina e do Caribe “se caracteriza por ser uma ‘Igreja social’: uma igreja profética, dos pobres e libertadora”.

Medellín “constitui ou foi o verdadeiro ‘divisor de águas’ na história da Igreja do Continente, de tal modo que se pode falar do ‘antes de Medellín’ e do ‘depois de Medellín’. Os bispos que fizeram aquela Conferência estavam conscientes da importância histórica daquele momento. Na ‘Introdução às Conclusões’ proclamam explicitamente uma “nova época da história” e a definem precisamente em termos de ‘libertação’”.

As três marcas que constituem a identidade do modelo eclesiológico de Medellín são: a Opção pelos Pobres, a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base(CEBs).

A Opção pelos Pobres (Empobrecidos, Excluídos e Descartados) indica o caminho que devemos seguir para sermos a Igreja de Jesus de Nazaré: uma Igreja a partir da “manjedoura” e de tudo o que ela significa hoje.

A Teologia da Libertação é a leitura – análise e interpretação – à luz da Palavra, que as Comunidades cristãs e seus teólogos fazem da Práxis (Teoria e Prática) de Libertação.

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são Comunidades “encarnadas” na vida do povo, são um jeito novo e, ao mesmo tempo, antigo de ser Igreja. São “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial” (Medellín, XV, 10), que transformam a Paróquia em “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (ib. 13).

E nós? E as nossas Igrejas? O que esse modelo eclesiológico representa para nós? Em outras “gotas” teremos a oportunidade de voltar sobre o assunto.

Fonte: Clodovis Boff. A originalidade histórica de Medellín.

4ª- Centro da atenção da Igreja

“E hoje? Será que a Igreja coloca realmente o ser humano deste continente latino-americano no centro de suas atenções? Será que procura compreender o momento histórico que estamos vivendo?”, questiona Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP) e professor aposentado de Filosofia (UFG).

Eis o artigo.

A Introdução às Conclusões de Medellín – que têm como título “A Igreja na atual transformação da América Latina, à luz do Concílio” – começa dizendo que a Igreja “situou no centro de sua atenção o ser humano deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico. Assim sendo, não se acha ‘desviada’, mas ‘voltou-se para’ o ser humano, consciente de que ‘para conhecer Deus é necessário conhecer o ser humano’. Pois Cristo é aquele em quem se manifesta o mistério do ser humano”.

Diz também que a Igreja “procurou compreender este momento histórico do ser humano latino-americano (que inclui também o caribenho) à Luz da Palavra, que é Cristo. Procurou ser iluminada por esta Palavra para tomar consciência mais profunda do serviço que lhe incumbe prestar neste momento”.

E hoje? Será que a Igreja coloca realmente o ser humano deste continente latino-americano no centro de suas atenções? Será que procura compreender o momento histórico que estamos vivendo?

Fazendo a memória de sua história, a Igreja diz ainda: “Esta tomada de consciência do presente volta-se para o passado. Ao examiná-lo, vê com alegria a obra realizada com tanta generosidade: seria este o momento de exprimir o nosso reconhecimento a todos aqueles que traçaram o sulco do Evangelho em nossos países e que estiveram ativa e caritativamente presentes nas diversas raças, especialmente indígenas, do continente, àqueles que vêm continuando a tarefa educadora da Igreja em nossas cidades e nossos campos. Reconhece, também que ‘nem sempre’, ao longo de sua história, foram todos os seus membros, clérigos ou leigos, fiéis ao Espírito de Deus; ‘também em nossos tempos, a Igreja não ignora quanto se distanciam entre si a mensagem que ela profere e a fraqueza humana daqueles aos quais o Evangelho foi confiado’ (GS 43)”.

Com realismo e consciência de sua missão, declara: “Acatando o juízo da história sobre estas luzes e sombras, a Igreja quer assumir inteiramente a responsabilidade histórica que recai sobre ela no presente”. Hoje, a Igreja tem essa preocupação?

A Introdução, com muita objetividade, afirma: “Não basta, certamente, refletir, conseguir mais clarividência e falar. E necessário agir. A hora atual não deixou de ser a hora da palavra, mas já se tornou, com dramática urgência, a hora da ação. Chegou o momento de inventar com imaginação criadora a ação que cabe realizar e que, principalmente, terá que ser levada a cabo com a audácia do Espírito e o equilíbrio de Deus”. Hoje, a Igreja faz isso?

Esta Assembleia – continua a Introdução – foi convidada “a tomar decisões e a estabelecer projetos, somente com a condição de que estivéssemos dispostos a executá-los como compromisso pessoal nosso, mesmo à custa de sacrifícios”.

Por fim, reconhece: “A América Latina está evidentemente sob o signo da transformação e do desenvolvimento. Transformação que, além de produzir-se com uma rapidez extraordinária, atinge e afeta todos os níveis do ser humano, desde o econômico até o religioso. Isto indica estarmos no limiar de uma nova época da história do nosso continente. Época cheia de anelo de emancipação total, de libertação diante de qualquer servidão, de maturação pessoal e de integração coletiva. Percebemos aqui os prenúncios do parto doloroso de urna nova civilização”.

Conclui: “Não podemos deixar de interpretar este gigantesco esforço por uma rápida transformação e desenvolvimento como um evidente signo do Espírito que conduz a história dos seres humanos e dos povos para sua vocação. Não podemos deixar de descobrir nesta vontade, cada dia mais tenaz e apressada de transformação, os vestígios da imagem de Deus no ser humano, como um poderoso dinamismo. Progressivamente, este dinamismo leva-o ao domínio cada vez maior da natureza (que – em sentido bíblico– quer dizer: “ao cuidado cada vez maior para com a natureza”), a uma mais profunda personalização e coesão fraterna (de irmãos e irmãs) e também a um encontro com aquele que ratifica, purifica e dá fundamento aos valores conquistados pelo esforço humano”.

Como são atuais essas reflexões! Pensemos!

5ª – Verdadeiro desenvolvimento

A Introdução às Conclusões de Medellín afirma ainda: “O fato de a transformação a que assiste nosso continente atingir com seu impacto todos os níveis da existência, apresenta-se como um signo e uma exigência”.

E continua: “Nós, cristãos, não podemos deixar de pressentir a presença de Deus, que quer salvar o ser humano inteiro, alma e corpo. No dia definitivo da salvação Deus ressuscitará também nossos corpos, por cuja redenção geme agora em nós o Espírito com gemidos indescritíveis. Deus ressuscitou a Cristo e, por conseguinte, todos os que creem nele. Através de Cristo, ele está ativamente presente em nossa história e antecipa seu gesto escatológico não somente no desejo impaciente do ser humano para conseguir sua total redenção, mas também naquelas conquistas que, como sinais indicadores, com voz cada vez mais poderosa, do futuro, vai fazendo o ser humano através de uma atividade realizada no amor”.

Fazendo a memória do passado, lembra-nos: “Assim, como outrora Israel, o antigo Povo, sentia a presença salvífica de Deus quando ele o libertava da opressão do Egito, quando o fazia atravessar o mar e o conduzia à conquista da terra prometida, assim também nós: novo Povo de Deus não podemos deixar de sentir seu passo que salva, quando se diz o ‘verdadeiro desenvolvimento, que é, para cada um e para todos, a passagem de condições de vida menos humanas para condições de vida mais humanas’”.

A Introdução enumera, pois, essas condições. Menos humanas: “as carências materiais dos que são privados do mínimo vital e as carências morais dos que são mutilados pelo egoísmo; as estruturas opressoras que provenham dos abusos da posse do poder, das explorações dos trabalhadores ou da injustiça das transações”.

Mais humanas: “a passagem da miséria para a posse do necessário, a vitória sobre as calamidades sociais, a ampliação dos conhecimentos e a aquisição da cultura; o aumento na consideração da dignidade dos demais, a orientação para o espírito de pobreza, a cooperação no bem comum e a vontade de paz; o reconhecimento, por parte do ser humano, dos valores supremos e de Deus, que deles é a fonte e o fim; e em especial, a Fé, dom de Deus acolhido pela boa vontade dos seres humanos e a unidade na caridade de Cristo, que nos chama a todos a participar como filhos na vida de Deus vivo, Pai de todos os seres humanos”.

Reparem a profundidade e atualidade das reflexões: as conquistas que “o ser humano vai fazendo, através de uma atividade realizada no amor”, são “sinais indicadores” de salvação, que antecipam o “gesto escatológico” de Cristo. E também: como outrora o antigo Povo de Deus sentia a “presença salvífica” de Deus na libertação da opressão do Egito e na conquista da terra prometida, assim também nós, novo Povo de Deus, não podemos deixar de sentir “seu passo que salva”, quando se diz o “verdadeiro desenvolvimento”, que é, para cada um e para todos, a passagem (= páscoa) de condições de vida menos humanas para condições de vida mais humanas”.

A visão de salvação de Medellín supera todo tipo de dualismo e abrange o ser humano no mundo, na totalidade de suas dimensões e relações: com o mundo (a criação), com os outros (os semelhantes) e com o Outro absoluto (Deus). Segundo essa visão, a salvação acontece no processo histórico de libertação – que é um processo permanente – de tudo o que impede a vida. A salvação é, pois, a realização, dentro do plano de Deus, do ser humano em sua história pessoal, social e cósmica, até à plenitude na meta-história. Nisso consiste o sentido da vida do ser humano e sua felicidade.

Diz o Concílio Vaticano II: “Aprouve a Deus salvar e santificar os seres humanos, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em Povo que o conhecesse na verdade e o servisse santamente” (Sobre a Igreja – LG, 9).

Por sua visão de salvação como libertação que acontece e se faz história, Medellíntornou-se a principal fonte inspiradora da Teologia da Libertação. No mundo, não existem duas histórias: a história humana e a história da salvação. A história humana é a história da salvação.

Qual é a visão de salvação (visão teológica mesmo) que nós – como Igreja – temos hoje? Será que é a de Medellín? Que ação evangelizadora e que prática pastoral são necessárias para sentirmos a “presença salvífica” de Deus ou “seu passo que salva” nas lutas de libertação hoje? Mais uma vez, pensemos!

6ª- Vocação original da América Latina

A Introdução às Conclusões de Medellín – em sua última parte – leva-nos a tomar consciência da “vocação original” da América Latina e do Caribe.

Afirma: “Nesta transformação (que é libertação, que é salvação), por trás da qual se anuncia o desejo de passar do conjunto de condições menos humanas para a totalidade de condições plenamente humanas e de integrar toda a escala de valores temporais na visão global da fé cristã, tomamos consciência da ‘vocação original’ da América Latina: ‘vocação de unir em uma síntese nova e genial o antigo e o moderno, o espiritual e o temporal, o que outros nos legaram e nossa própria originalidade’”.

Quanta clareza e quanta profundidade encontramos nesta afirmação! E hoje? Será que nós – como Igreja – temos realmente consciência desta “vocação original” e a vivemos?

Por experiência própria, os bispos constatam: “Nesta Assembleia do Episcopado Latino-americano renovou-se o mistério de Pentecostes. Em torno de Maria como Mãe da Igreja, que com seu patrocínio assistiu a este continente desde sua primeira evangelização, imploramos as luzes do Espírito Santo e perseverando na oração, alimentamo-nos do pão da Palavra e da Eucaristia. Esta Palavra foi intensamente meditada”.

Tendo presente a realidade em que vivemos atualmente, podemos dizer que em nossas Assembleias e em nossos Encontros de Igreja renova-se – na presença de Maria, nossa Mãe – o mistério de Pentecostes?

Reparem o que dizem os participantes da Assembleia: “Nossa reflexão orientou-se para a busca de formas de presença mais intensa e renovada da Igreja na atual transformação da América Latina”. Hoje, temos essa preocupação? Em nossa ação evangelizadora, buscamos “formas de presença mais intensa e renovada na atual transformação da América Latina”? Não somos, muitas vezes, uma Igreja acomodada e alienada, que está por fora (e faz questão de estar por fora) dos desafios que a atual transformação da América Latina e do Caribe nos apresenta?

Os bispos apontam pistas concretas – que continuam plenamente atuais – para um plano de ação evangelizadora. Afirmam: “Três grandes setores, sobre os quais recai nossa solicitude pastoral, foram abordados em sua relação com o processo de transformação do continente. Em primeiro lugar, o setor da promoção do ser humano e dos povos do continente para os valores da justiça, da paz, da educação e do amor conjugal. Em seguida, nossa reflexão se dirigiu para os povos deste continente e suas lideranças (no lugar da palavra “elites” – que se presta a interpretações ambíguas – uso a palavra “lideranças”), que por estarem num processo de profunda mutação de suas condições de vida e de seus valores, requerem uma adaptada evangelização e educação na fé, através da catequese e da Liturgia”.

Reparem o que os bispos, em sua solicitude pastoral, colocam em primeiro lugar: “o setor da promoção do ser humano e dos povos do continente para os valores da justiça, da paz, da educação e do amor conjugal”. Fazemos o mesmo hoje?

Finalmente – dizem os bispos – “abordamos os problemas relativos aos membros da Igreja. E preciso intensificar sua unidade e ação pastoral através de estruturas visíveis, também adaptadas às novas condições do continente”. E terminam declarando: “As conclusões seguintes são o fruto do trabalho realizado nesta Conferência”.

Em síntese, até o presente – dentro do tema geral “Medellín em gotas” – nas primeiras três gotas destacamos, com algumas reflexões: o “Contexto histórico”, o “Método adotado” e o “Modelo eclesiológico”, que situam social e teologicamente a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho; nas outras três gotas, o “Centro da atenção da Igreja”, o “Verdadeiro desenvolvimento” e a “Vocação original da América Latina” (incluindo também o Caribe), que são os pontos principais da Introdução aos documentos.

A partir de agora, nas próximas gotas (que, se Deus quiser, serão muitas) destacaremos, sempre com algumas reflexões, os pontos principais (ideias-chave) – que continuam atuais – dos 16 documentos da Conferência: Justiça, Paz, Família e Demografia, Educação, Juventude, Pastoral das massas, Pastoral das lideranças, Catequese, Liturgia, Movimentos leigos, Sacerdotes, Religiosos/as, Formação do Clero, Pobreza da Igreja, Colegialidade, Meios de comunicação social.

7ª – Situação de Injustiça

No documento “Justiça” – que é o primeiro – a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Medellín começa afirmando que, além do texto preparatório da Conferência – que certamente não será o último – “existem muitos estudos sobre a situação do ser humano latino-americano”. E reconhece: “Em todos eles se descreve a miséria que marginaliza grandes grupos humanos em nossos povos. Essa miséria, como fato coletivo, se qualifica de injustiça que clama aos céus (reparem: injustiça que clama aos céus)”.

No entanto – continua a Conferência – “o que talvez não se esclareceu suficientemente é que os esforços que foram feitos, em geral, não foram capazes de assegurar que a justiça seja respeitada e realizada em todos os setores das respectivas comunidades nacionais”.

Entre as situações de injustiça citadas, destaco: as famílias, que “muitas vezes, não encontram possibilidades concretas de educação para seus filhos”; a juventude que “reclama seu direito de entrar nas universidades ou em centros superiores de aperfeiçoamento intelectual ou técnico-profissional”; a mulher que “reivindica sua igualdade, de direito e de fato, com o homem”; e os camponeses (ou, todos os trabalhadores e trabalhadoras) que “pedem melhores condições de vida”.

A Conferência constata: “Não podemos ignorar o fenômeno desta quase frustração universal de legítimas aspirações, que cria o clima de angústia coletiva que já estamos vivendo”.

Declara ainda: “A falta de integração sociocultural, na maioria de nossos países deu origem a superposição de culturas. No campo econômico implantaram-se sistemas que encaram só as possibilidades dos setores com alto poder aquisitivo. Esta falta de adaptação ao que é próprio e às possibilidades de nossa população, origina, por sua vez, uma frequente instabilidade política e a consolidação de instituições puramente formais”.

Fazendo, pois, um juízo ético, afirma: “A tudo isto deve-se acrescentar a falta de solidariedade, que provoca no campo individual e social, verdadeiros pecados, cuja cristalização aparece evidente nas estruturas injustas (reparem: estruturas injustas) que caracterizam a situação da América Latina.”

Referindo-se à condição de injustiça, na qual vivem os trabalhadores e trabalhadoras, a Conferência “dirige-se a todos aqueles que, com o esforço diário, vão criando os bens e serviços que permitem a existência e o desenvolvimento da vida humana” e afirma: “Pensamos muito especialmente nos milhões de homens e mulheres latino-americanos, que constituem o setor camponês e operário. Eles, na sua maioria, sofrem, esperam e se esforçam por uma mudança que humanize e dignifique seu trabalho. Sem desconhecer a totalidade do significado humano do trabalho, aqui o consideramos como estrutura intermediária, enquanto constitui a função que dá origem à organização profissional no campo da produção”.

Com realismo, afirma: “Muitos de nossos trabalhadores/as, se bem que venham adquirindo consciência da necessidade de transformação (para uma economia verdadeiramente humana), experimentam, simultaneamente, uma situação de dependência ante os sistemas e instituições econômicas inumanas, situação que, para muitos deles, aproxima-se da escravidão não apenas física, mas também profissional, cultural, cívica e espiritual”.

Por fim, denuncia: “O sistema empresarial latino-americano e, devido a ele, a economia atual, corresponde a uma concepção errada sobre o direito de propriedade dos meios de produção e sobre a finalidade mesma da economia. A empresa, numa economia verdadeiramente humana, não se identifica com os donos do capital, porque é fundamentalmente uma comunidade de pessoas e unidade de trabalho (reparem: uma comunidade de pessoas e unidade de trabalho) que necessita de capital para a produção de bens. Uma pessoa ou um grupo de pessoas não pode ser propriedade de um indivíduo, de uma sociedade ou do Estado”. Que ideal bonito! A empresa como “comunidade de pessoas e unidade de trabalho” não é a utopia de todos os trabalhadores e trabalhadoras! Lutemos por ela!

A respeito do sistema liberal capitalista e do sistema marxista (o chamado “socialismo real”, que – mesmo tendo contribuído para uma maior igualdade e justiça social – foi, de fato, um capitalismo de estado), a Conferência afirma: “Ambos sistemas atentam contra a dignidade da pessoa humana; um porque tem como pressuposto a primazia do capital, seu poder e sua discriminatória utilização em função do lucro. O outro, embora ideologicamente defenda um humanismo, vislumbra melhor o homem coletivo e na prática se transforma numa concentração totalitária do poder do Estado”.

Infelizmente, esta situação de “injustiça que clama aos céus”, de que fala a Conferência, persiste ainda hoje e, de alguma forma, parece até que se agravou. Mesmo assim, não podemos perder a esperança, sobretudo os e as que somos cristãos e cristãs.

8ª- Processo de socialização

A respeito do processo de socialização – na Carta Encíclica “Mãe e Mestra” de 1961 – o Papa São João XXIII escreve: “A socialização é um dos aspectos característicos da nossa época. Consiste na multiplicação progressiva das relações dentro da convivência social, e comporta a associação de várias formas de vida e de atividade, e a criação de instituições jurídicas. O fato deve-se a multíplices causas históricas, como aos progressos científicos e técnicos, à maior eficiência produtiva e ao aumento do nível de vida” (59).

A socialização – continua a Carta – “é simultaneamente efeito e causa de uma crescente intervenção dos poderes públicos, mesmo nos domínios mais delicados, como os da saúde, da instrução e educação das novas gerações, da orientação profissional, dos métodos de recuperação e readaptação dos indivíduos de algum modo menos dotados. Mas é também fruto e expressão de uma tendência natural, quase irreprimível, dos seres humanos: tendência a associarem-se para fins que ultrapassam as capacidades e os meios de que podem dispor os indivíduos em particular. Esta tendência deu origem, sobretudo nestes últimos decênios, a grande variedade de grupos, movimentos, associações e instituições, com finalidades econômicas, culturais, sociais, desportivas, recreativas, profissionais e políticas, tanto nos diversos países como no plano mundial” (60).

A socialização assim entendida “torna possível satisfazer muitos direitos da pessoa humana, especialmente os chamados econômicos e sociais, por exemplo, o direito aos meios indispensáveis ao sustento, ao tratamento médico, a uma educação de base mais elevada, a uma formação profissional mais adequada, à habitação, ao trabalho, a um repouso conveniente e à recreação. Além disso, através da organização cada vez mais perfeita dos meios modernos da comunicação – imprensa, cinema, rádio e televisão (hoje podemos acrescentar: telefone celular, internet e redes sociais) – permite-se a todos de participar nos acontecimentos de caráter mundial” (61).

Para conseguir isso, “requer-se, porém, que as autoridades públicas se tenham formado, e realizem praticamente, uma concepção exata do bem comum; este compreende o conjunto das condições sociais que permitem e favorecem nos seres humanos o desenvolvimento integral da personalidade” (65).

O Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral “A Igreja no mundo de hoje”, refere-se também ao processo de socialização, afirmando: “Multiplicam-se sem cessar as relações do ser humano com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que a própria socialização introduz novas ligações, sem no entanto favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações verdadeiramente pessoais (‘personalização’)” (6).

A respeito do processo de socialização, a II Conferência Episcopal Latino-americana e Caribenha de Medellín – ainda no documento “Justiça” (o primeiro) – retoma (a partir da realidade Latino-americana e Caribenha) o ensinamento da Carta Encíclica “Mãe e Mestra” e da Constituição Pastoral “A Igreja no mundo de hoje”.

Afirma: “A socialização compreendida como processo sociocultural de personalização e de solidariedade crescente (reparem: personalização e solidariedade crescente), nos induz a pensar que todos os setores da sociedade, mas, nesse caso, principalmente o setor econômico-social, deverão superar, pela justiça e fraternidade (reparem novamente: pela justiça e fraternidade), os antagonismos, para se transformarem em agentes do desenvolvimento nacional e continental”.

E declara: “Sem esta unidade, a América Latina não conseguirá livrar-se do neocolonialismo a que está submetida, nem, em consequência, realizar-se com liberdade, com suas características próprias, no campo cultural, sociopolítico e econômico”.

A Conferência reconhece o papel fundamental do processo de socialização em curso na América Latina e no Caribe para a educação social, a conscientização, a transformação das estruturas e a prática da justiça. A Conferência “tem plena consciência de que o processo de socialização, desencadeado pelas técnicas e meios de comunicação social, faz destes um instrumento necessário e muito apto à educação social, à conscientização de acordo com a transformação de estruturas e à vigência da justiça”.

O processo de socialização abre caminhos concretos para que o projeto de vida do Evangelho – a Boa-Notícia de Jesus de Nazaré – aconteça cada vez mais na história do ser humano e do mundo. Esse projeto – que muitas vezes foi e continua sendo interpretado de maneira meramente espiritualista, individualista, intimista e a-histórica – é o mais revolucionário possível, é um projeto radicalmente humano. Nesse projeto, histórico e meta-histórico ao mesmo tempo (o Reino de Deus), todos e todas somos filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe, irmãos e irmãs em Cristo, iguais em dignidade e valor e chamados/as a viver em Comunidade.

“Todos/as que abraçavam a fé (seguiam Jesus de Nazaré) eram unidos/as e colocavam em comum todas as coisas, vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos/as, conforme a necessidade de cada um/uma (reparem mais uma vez: conforme a necessidade de cada um/uma)” (At 2,44-45).

Não é esse o verdadeiro socialismo comunitário, o verdadeiro comunismo? Não está na hora de – os cristãos e cristãs que somos e nossas Igrejas – nos libertarmos totalmente das influências desumanas e antievangélicas do imperialismo, do feudalismo e do capitalismo, que absorvemos – às vezes de maneira inconsciente – na nossa maneira de viver e que, farisaicamente, tentamos justificar? Não está na hora de vencermos a tentação do poder hierárquico, inclusive eclesiástico, que sempre procuramos legitimar em nome de Deus? Não está na hora de exigirmos – na organização social de nossas Igrejas – mudanças profundas, não só conjunturais, mas também e sobretudo estruturais.

Enfim, não está na hora de voltarmos às fontes e – unidos/as a todas as pessoas de boa vontade, que lutam pela mesma causa – construirmos o projeto de vida do Evangelho, que na realidade é o Projeto Popular? O processo de socialização não nos deve levar a viver esse projeto de forma cada vez mais radical? Pensemos!

9ª – Igreja servidora

A Igreja “é-no-mundo”, é mundo e serve ao mundo. No processo de socialização – “como processo sociocultural de personalização e solidariedade crescente” – a Igreja, cumprindo sua missão de servidora, contribui na construção da Sociedade do Bem Viverou, à luz da Fé, do Reino de Deus – “Reino de Justiça, de Amor e de Paz” – que é a Boa Notícia de Jesus de Nazaré.

O documento “Justiça” afirma: “A Igreja Latino-Americana tem uma mensagem para todos os seres humanos que neste continente têm ‘fome e sede de justiça’. O mesmo Deus que criou o ser humano à sua imagem e semelhança, criou a terra e tudo o que nela existe para uso (e – acrescento eu – cuidado) de todos os seres humanos, e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje – GS 69), e dá poder ao ser humano para que solidariamente transforme e aperfeiçoe o mundo (Gn 1,29). É o mesmo Deus que, na plenitude dos tempos envia seu Filho para que feito carne, venha libertar (reparem: libertar) todos os seres humanos, de todas as escravidões a que o pecado os sujeita: a fome, a miséria, a opressão e a ignorância, numa palavra, a injustiça que tem sua origem no egoísmo humano (Jo 8,32-34)”.

Continua reconhecendo: “Por isso, para nossa verdadeira libertação (reparem novamente: verdadeira libertação), todos os seres humanos necessitam de profunda conversão para que chegue a nós o ‘Reino de Justiça, de Amor e de Paz’. A origem de todo desprezo ao ser humano, de toda injustiça, deve ser procurada no desequilíbrio interior da liberdade humana, que necessita sempre, na história, de um permanente esforço de retificação”.

E ainda: “A originalidade da mensagem cristã não consiste tanto na afirmação da necessidade de uma mudança de estruturas, quanto na insistência que devemos por na conversão do ser humano. Não teremos um continente novo sem novas e renovadas estruturas, mas sobretudo não haverá continente novo sem seres humanos novos, que à luz do Evangelho saibam ser verdadeiramente livres e responsáveis”.

Lembra, pois: “Somente a luz de Cristo esclarece o mistério do ser humano. Sob essa luz, toda a obra divina, na história da salvação é uma ação de promoção e de libertação humana (reparem mais uma vez: de promoção e de libertação humana) que tem como único objeto o amor. O ser humano é ‘criado em Cristo Jesus’, feito nele ‘criatura nova’ (2Cor 5,17). Pela e pelo batismo, o ser humano é transformado, cheio do dom do Espírito, com um dinamismo novo, não de egoísmo, mas de amor que o leva a buscar uma nova relação mais profunda com Deus, com os seres humanos seus irmãos e com as coisas. O amor, ‘a lei fundamental da perfeição humana, e portanto da transformação do mundo’ (GS 32), não é somente o mandamento supremo do Senhor, é também o dinamismo que deve mover os cristãos a realizarem a justiça no mundo, tendo como fundamento a verdade e como sinal a liberdade”.

E declara: “É assim que a Igreja quer servir ao mundo, irradiando sobre ele uma luz e uma vida que cura e eleva a dignidade da pessoa humana (GS 41), consolida a unidade da sociedade (GS 42) e dá um sentido e um significado mais profundo a toda a atividade dos seres humanos”.

Com toda firmeza, destaca: “Certamente, para a Igreja, a plenitude e a perfeição da vocação humana se alcança com a inserção definitiva de cada ser humano na Páscoa ou triunfo de Cristo, porém a esperança de tal realização definitiva, antes de adormecer, deve ‘avivar a preocupação de aperfeiçoar esta terra onde cresce o corpo da nova família humana, o que pode, de certa maneira, antecipar a visão do novo século’. Não confundimos progresso temporal com Reino de Cristo; entretanto, o primeiro, ‘enquanto pode contribuir a ordenar melhor a sociedade humana, interessa em grande medida o Reino de Deus’ (GS 39)’.

E conclui: “A busca cristã da justiça é uma exigência do ensinamento bíblico. Todos os seres humanos, somos apenas humildes administradores dos bens”.

Termina com uma afirmação que é fundamental para a nossa missão de cristãos ecristãs: “Na busca da salvação devemos evitar o dualismo que separa as tarefas temporais da santificação. Apesar de estarmos rodeados de imperfeições, somos seres humanos de esperança. Cremos que o amor a Cristo e a nossos irmãos será não somente a grande força libertadora (reparem outra vez: a grande força libertadora) da injustiça e da opressão, mas também e principalmente a inspiradora da justiça social, entendida como concepção de vida e como impulso para o desenvolvimento integral de nossos povos”.

O presente texto é verdadeira Teologia da Libertação. Infelizmente, na Igreja, muitos e muitas esqueceram-no ou fizeram questão de esquecê-lo. O texto é tão claro que não precisa de maiores explicações. Para todos e todas nós, cristãos e cristãs, deve ser um texto de cabeceira. Ele é uma luz que ilumina toda nossa ação evangelizadora. Meditemos!

10ª- Luzes para a ação evangelizadora

Nossa missão pastoral – afirmam os participantes da II Conferência Episcopal – “é essencialmente serviço de inspiração e de educação das consciências dos fiéis para ajudar-lhes a perceberem as exigências e responsabilidades de sua fé na vida pessoal e social”. Dentro dessa perspectiva, a Conferência “quer evidenciar as mais importantes para os países de nosso continente, tendo em conta o juízo de valor que, sobre a situação econômica e social do mundo de hoje, emitiram os últimos documentos do magistério da Igreja e que no continente latino-americano têm plena vigência”.

O documento “Justiça” oferece luzes para a ação evangelizadora que liberta e que – abrindo caminhos novos – faz acontecer a Sociedade do Bem Viver: o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.

  1. A Igreja latino-americana “julga dever orientar-se para a formação de comunidades nacionais, que refletem uma organização global, onde toda a população, porém, especialmente as classes populares, tenha, através de estruturas territoriais e funcionais, uma participação receptiva e ativa, criadora e decisiva, na construção de uma nova sociedade”.
  2. As estruturas intermediárias entre a pessoa e o Estado “devem ser organizadas livremente, sem uma intervenção indevida da autoridade ou de grupos dominantes, no seu desenvolvimento e na sua participação concreta na realização do bem comum total. Constituem a trama vital da sociedade. São também a expressão real da liberdade e da solidariedade dos cidadãos”.
  3. A família – sem desconhecer seu caráter insubstituível como grupo natural – é uma estrutura intermediária. “O conjunto das famílias deve assumir sua função no processo de transformação social. As famílias latino-americanas deverão organizar seu potencial econômico e cultural para que suas legitimas necessidades e aspirações sejam levadas em conta, dentro dos setores onde se tomam as decisões fundamentais, que podem promovê-las ou prejudicá-las. Deste modo, assumirão um papel representativo e de participação eficiente na vida de comunidade global. Além da dinâmica que lhes cabe desencadear no conjunto de famílias de cada país, é necessário que os governos estabeleçam uma legislação e uma sadia e atualizada política familiar”.
  4. O trabalho – sem desconhecer a totalidade de seu significado humano – é também (como já disse na 7ª GotaSituação de Injustiça”) uma estrutura intermediária “enquanto constitui a função que dá origem à organização profissional no campo da produção”. Reparem: “Por isso, na estrutura intermediária profissional, a organização sindical rural e operária, deverá adquirir a força e a presença suficientes a que os trabalhadores têm direito. Suas associações deverão ter uma força de solidariedade e responsabilidade capaz de fazer valer o direito de sua representação e participação nos meios de produção e no comércio nacional, continental e internacional”. A II Conferência Episcopal “dirige-se a todos aqueles que, com o esforço diário, vão criando os bens e serviços que permitem a existência e o desenvolvimento da vida humana”. De modo muito especial pensa “nos milhões de homens e mulheres latino-americanos, que constituem o setor camponês e operário. Eles, na sua maioria, sofrem, esperam e se esforçam por uma mudança que humanize e dignifique seu trabalho”. Embora considerando “a diversidade de situações e recursos em países diferentes, não há dúvida de que existe um denominador comum em todas elas: a necessidade de uma promoção humana para as populações camponesas e indígenas. Esta promoção não será viável se não for realizada uma autêntica e urgente reforma das estruturas e da política agrárias. Esta transformação estrutural e suas políticas correspondentes não podem limitar-se a uma simples distribuição de terras. Torna-se necessário fazer um estudo profundo das mesmas, segundo determinadas condições que legitimam sua ocupação e seu rendimento, tanto para as famílias camponesas como para sua contribuição à economia do país”. Isso exigirá “a organização dos camponeses em estruturas intermediárias eficazes, principalmente em forma de cooperativas e estímulo para a criação de centros urbanos nos meios rurais, que permitam o acesso da população camponesa aos bens de sua cultura, da saúde, desenvolvimento espiritual e de sua participação nas decisões locais e naquelas que incidam sobre a economia e a política nacional”.
  5. A industrialização é um processo “irreversível e necessário à independência econômica e para que possamos nos integrar na moderna economia mundial”. Se for a serviço do bem comum – de todos e todas, principalmente dos trabalhadores e trabalhadoras – ela “será um fator decisivo à elevação dos níveis de vida de nossos povos e para que se possa proporcionar-lhes melhores condições para o desenvolvimento integral”. Para isso “é indispensável que se revejam os planos e as macroeconomias nacionais, salvando-se a legítima autonomia de nossos países, as justas reivindicações das nações mais fracas e a almejada integração econômica do continente, respeitando-se sempre os inalienáveis direitos das pessoas e das estruturas intermediárias, como protagonistas deste processo”.
  6. A reforma política é um requisito indispensável “em face da necessidade de uma transformação global nas estruturas latino-americanas”. “O exercício da autoridade política e suas decisões têm como única finalidade o bem comum”. Reparem mais uma vez: “Na América Latina tal exercício e decisões frequentemente aparecem favorecendo sistemas que atentam contra o bem comum ou favorecem grupos privilegiados”.
  7. A informação e a conscientização são também indispensáveis. “Desejamos afirmar que é indispensável a formação da consciência social e a percepção realista dos problemas da comunidade e das estruturas sociais. Devemos despertar a consciência social e hábitos comunitários em todos os meios e grupos profissionais, seja no que se refere ao diálogo e à vivência comunitária dentro do mesmo grupo, seja no que se refere a suas relações com grupos sociais maiores” (operários, camponeses, profissionais liberais e outros). Reparem outra vez: “A tarefa de conscientizar e educar socialmente, deverá ser parte integrante dos Planos de Pastoral de Conjunto, em seus diversos níveis”. Nossas Igrejas têm hoje essa preocupação? Reparem novamente: “É necessário que as pequenas comunidades sociológicas de base se desenvolvam para o estabelecimento de um equilíbrio diante dos grupos minoritários, que são grupos que detêm o poder”. Por fim, “a Comissão de Justiça e Paz deverá ser promovida em todos os países, pelo menos em nível nacional”. As Conferências Episcopais – numa autêntica atitude de serviço – “constituirão sua Comissão de Ação ou Pastoral Social”. “O mesmo vale para os níveis diocesanos”. Que estas luzes nos ajudem a entender – melhor e mais profundamente – a realidade na qual vivemos e a encontrar estratégias eficazes para mudá-la.

 

 

 

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