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Sínodo da Amazônia: tempo para construir uma Igreja com rosto laical e feminino

Por Luis Miguel Modino

Foto: Luis Modino

Refletir sobre o Sínodo da Amazônia e o Laicato é o propósito do I Simpósio de Teologia Amazônica que está acontecendo no Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia – ITEPES, em Manaus, nos dias 16 e 17 de agosto. A temática corresponde com a realidade eclesial da Igreja do Brasil que em 2018 celebra o Ano do Laicato e na Amazônia participa do processo do Sínodo Pan-Amazônico.

O Simpósio faz parte de um planejamento que foi feito no início do ano. De cara ao Sínodo e ao trabalho evangelizador na Amazônia, a importância do laicato “tem uma razão histórica, porque a Igreja na Amazônia sempre foi levada a frente pelos leigos e leigas”, reconhece o Padre Ricardo Castro, diretor do Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior da Amazônia – ITEPES, que vê necessário que “se elabore uma reflexão ao respeito disso. São anos de experiência, de formação, de um processo de construção, e agora a gente precisa parar, sentar, verificar, fazer um processo avaliativo e retomar dentro dessa perspectiva dos novos caminhos que o Papa pede para o Sínodo”.

O Simpósio consta de mesas de debate, comunicações temáticas e míni cursos e oficinas, onde são debatidas questões indígenas, sobre os Leigos e Igreja Ministerial, teologia sobre o Sínodo, metodologia da educação popular na Amazônia e inculturação e interculturalidade.

A realidade social, cultural e eclesial na Amazônia é muito diversa e deve ser enfocada desde diversas perspectivas. Nesse sentido, o Padre Justino Sarmento Rezende, salesiano indígena do povo tuyuka e assessor do Sínodo da Amazônia, refletindo sobre o sentir a partir do coração indígena, se perguntava, seguindo a temática sinodal, “por onde devemos começar a abrir novos caminhos para a Igreja e a Ecologia Integral?”

Ele parte da visibilização da Amazônia e dos povos da Amazônia, “uma região que clama e que deve ser conhecida, reconhecida, para conviver, comprometer-se e defende-la”. Por isso, “os povos da Amazônia e do mundo precisam acordar e sentir que a vida está ameaçada, agredida, a Amazônia está triste, de luto, pois cada dia os povos amazônicos perdem as condições de vida, expulsos, estão sendo assassinados, estão fugindo”.

Faz-se necessário “arregaçar as mangas, levantar e sair para defender as nossas vidas e os direitos dos povos”, afirma o assessor do Sínodo. A Amazônia é uma Casa-Família, uma Terra Sagrada, cuidada pelos sábios, com espiritualidades que se conectam aos seres criadores e que, através dos sábios, promovem a harmonia das pessoas entre si e com o cosmos. Desde aí, o salesiano insiste em “mostrar para o mundo e para a Igreja quem somos nós povos da Amazônia, com conhecimentos e sabedorias para cuidar da vida humana, do mundo e construir uma convivência equilibrada”.

O Sínodo é um bom momento para escutar e conhecer as histórias dos povos amazônicos, para que eles mostrem suas capacidades e também as realidades que precisam mudar diante dos novos colonialismos que fomentam o desenvolvimentismo, destruição, contaminação, conflitos socioambientais, violência no campo, deslocamentos compulsivos, tráfico de pessoas, contrabando de crianças e de migrantes.

Desde aí, o Padre Justino reconhece que “pode ser construída uma Igreja com rostos amazônicos que saiba dialogar com as diversidades dos povos, com suas diversas espiritualidades, uma Igreja companheira na caminhada, com rosto laical e feminino, com os pés no chão, encarnada, inculturada e intercultural, com o coração aberto, contemplativa e de gratuidade, que promova o protagonismo dos povos amazônicos e que exerça a humildade, bondade e misericórdia”.

Quem faz parte da Igreja da Amazônia “precisa se despir dos nossos preconceitos, angustias e limitações na acolhida” reconhecia Edney Manaura, pois “a Amazônia é um povo cheio de povos”, que mesmo assim tem dificuldade de acolher quem chega, uma realidade muito atual diante da massiva chegada de migrantes. De fato, o grande desafio do laicato é “atuar como cristãos lá onde estamos, nem só dentro da comunidade, da Igreja”, segundo Patrícia Cabral, Presidenta do Laicato da Arquidiocese de Manaus. Ela vê o Ano do Laicato como momento para perceber que “estamos nesses espaços para evangelizar no nosso cotidiano, na família, no mundo do trabalho, na política, e ser sal e luz”.

Desde a Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, sua Articuladora no Brasil, Elisângela Dias Barbosa, reconhece que o Sínodo faz parte de um processo de articulação de várias décadas, tendo como objetivo “construir uma Igreja mais alicerçada em nossas raízes”. O Sínodo é “um convite do Papa à Igreja da Amazônia para ela se pronunciar”, sendo, nesse sentido, um desafio que se faça real uma capilaridade que permita que a reflexão sinodal chegue na Amazônia toda.

A articuladora da REPAM-Brasil destaca algumas novidades do Sínodo, como é a presença de mulheres e leigos entre os assessores e no Conselho Pre-sinodal e vê necessário sensibilizar os bispos da Amazônia, “pois eles serão os delegados do Sínodo, mas a voz tem que ser nossa”, insistindo na necessidade de nos pronunciarmos, pois “se não falamos, outros vão falar”.

Um Sínodo que mostra a necessidade da Igreja refletir sobre as problemáticas atuais, como insistia a jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas, Ivânia Maria Carneiro Vieira, quem tem como ponto de partida a ideia de que, segundo os atuais entes do poder, “os povos da Amazônia têm que ser cortados porque não cabem dentro da caixa do sistema”. Ela se perguntava sobre o papel dos leigos na Amazônia, se é cumprir ordens ou ser protagonistas e, como jornalista, enumerava uma longa serie de fatos que, mesmo decisivos na vida social da Amazônia, não estão presentes nas pautas informativas. Isso a levava a se perguntar com qual comunicação amazônica estamos comprometidos, afirmando que “o laicato exige coragem e fé na vida para romper o que nos oprime, não somos objetos e sim sujeitos”.

Márcia Dias, advogada e militante dos movimentos sociais, insistia em que, num contexto assombroso e massacrante, provocado pelo golpe e seus efeitos, se faz preciso “uma Igreja militante, que luta pela transformação da vida, mas a Igreja católica, que sempre encabeçou as lutas sociais, ficou quieta diante do golpe”. A militante social insiste em que “o judiciário, associado aos poderosos, tira a vida dos pequenos”. Diante disso se escandaliza com a atual existência de “cristãos adeptos ao fascismo” e daqueles que chama de “coroneis da fé”. É preocupante que “nossas bases estão enfraquecidas e faltam novas lideranças”, destacando a importância da figura do Papa Francisco e sua visão da Igreja e da sociedade.

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