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27 de agosto: memória de Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes e Dom José Maria Pires

Hoje, 27 de agosto, celebra-se a memória de Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Hélder Câmara e Dom José Maria Pires. Ambos com vida religiosa marcada por uma longa jornada de proteção aos pobres, luta pela justiça social, fé e amor à pessoa humana.

Em 2017, perdemos Dom José Maria Pires, nosso dom Zumbi. Carinhosamente reconhecido por assumir a pastoral Afro e com isso as causas do povo negro.

Foto: Reproduzida no IHU em 27 de agosto de 2017.

Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba-PB, nascido em 15 de março de 1919, na pequenina cidade de Córregos em Minas Gerais, nordeste do estado, participou das quatro sessões do Vaticano II. Na época, sendo o único bispo negro brasileiro, e uma das vozes mais importantes do episcopado brasileiro assumiu com altivez a nova imagem de Igreja proposta pelo Concílio.

É sagrado bispo em Diamantina, Minas Gerais, em 22 de setembro de 1957, iniciando seu ministério na diocese de Araçuai-MG. Seu lema episcopal foi Scientiam Salutis (a ciência da salvação).

Sua ação em favor do povo oprimido e marginalizado se tornou uma referência. Em seu discurso de posse como arcebispo metropolitano da Paraíba, secundado por Dom Helder Pessoa Câmara, em plena ditadura militar brasileira, Dom Helder assim se expressa ao falar de Dom José: “Dom José Maria vai às causas, vai às raízes… E fala claro, sem perder a serenidade, mas chamando as coisas pelos nomes. Quem quiser livrar-se de um Cristianismo desencarnado, quem quiser livrar-se de ensinamentos inodoros, incolores, pregados no vácuo, leia suas páginas (prefácio do livro Do Centro para a margem, Editora Acauã, Paraíba, 1978, p. 7)”.

Dom José teve outras ações proféticas que merecem ser lembradas!

– O apoio aos estudantes que foram às ruas em 1968. Dom José foi ao encontro deles no centro da cidade.

– A criação de um centro de defesa dos direitos humanos, que funcionava na Almirante Barroso, sob o comando do advogado Wanderley Caixe.

– A luta pela terra em Alagamar. Entre as ligas camponesas e o MST.

– A noite de Natal em que transferiu a missa da Catedral para a Praça João Pessoa e lá celebrou ao lado dos agricultores acampados.

– A recusa de receber o título de Cidadão Paraibano quando entendeu que seu discurso passaria por uma censura prévia da Assembleia Legislativa.

– A presença na Missa dos Quilombos, no Recife, ao lado de Dom Hélder, Dom Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento.

Dom José fez sua páscoa dia 27 de agosto de 2017, aos 98 anos. Seu sorriso e firmeza permanecem vivos e nos enche de esperança!

Dom Luciano Mendes, o bispos dos mais pobres!

Foto: Reproduzida no site IHU em 29 de agosto de 2016. Irmandade dos Mártires

Dom Luciano Mendes de Almeida, SJ, falecido em 2006, foi Arcebispo de Mariana, em Minas Gerais, presidente e secretário da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB e secretário na Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, ocorrida em 1979, em Puebla, no México. Dedicou sua trajetória à caridade, sobretudo às crianças e aos mais humildes. Fundou a Pastoral do Menor, que junto com outros movimentos e instituições de garantia de direitos, inspirou a redação do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA.

Trabalhou cinco anos na prisão, na Itália, depois com as populações mais pobres da periferia de São Paulo. Em seguida seguiu sua opção para e com os pobres nas áreas rurais de Mariana. Em uma entrevista ao IHU, em 27 de junho de 2002, ele afirmou: “Eu creio que isso dinamiza muito a própria vida numa fase de experiência e comunhão existencial.”

Dom Luciano esteve por diversos países da América Central, nos anos de 1980, a serviço do CELAM: Guatemala, El Salvador, a Nicarágua, Honduras, o Panamá, mais tarde também com Cuba. Com isso, dom Luciano contribuiu significativamente nos gritos que soavam da América latina e Caribenha.

Dom Luciano Mendes faleceu em 27 de agosto de 2006, tornando-se uma das maiores referências episcopais da Teologia da Libertação.

“O Santo rebelde”

Assim retratado pelo cinema, Dom Hélder Câmara, falecido em 1999, foi arcebispo emérito de Olinda e Recife e fundou a CNBB. Foi bispo auxiliar na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Também é conhecido por ter organizado mais de 500 Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. Além disso, atuou em momentos decisivos da igreja, principalmente quando participou da Segunda e da Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, em Medellín, na Colômbia, e Puebla e do Concílio Vaticano II, ocasiões em que defendeu a opção preferencial pelos pobres.

O místico, poeta e protetor dos pobres, tornou-se o calo no calcanhar da ditadura civil-militar brasileira. Um dos principais líderes da Igreja no Brasil, dom Helder foi, na definição de José Oscar Beozzo, “síntese da melhor tradição espiritual da América Latina”. Por sua militância em defesa dos direitos humanos, foi o único brasileiro indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Dom Hélder, com muita coragem, proferiu o discurso Quaisquer que sejam as consequências, em Paris, na França, para uma platéia de mais de 20 mil pessoas, em que denunciou a tortura no Brasil. O “Santo rebelde” foi silenciado pela ditadura e em 1985 foi nomeado Bispo Emérito. Todavia, jamais abandonou a cena pública, lançando, em 1990, a campanha Ano 2000 Sem Miséria. Continuou realizando o trabalho na promoção da paz até os 90 anos.

Nesse tempo em que a Igreja muitas vezes permanece em silêncio diante de tantas injustiças, retrocessos e ameaça à democracia. Lembrar a vida desses três profetas torna-se fundamental para seguir com esperanças em tempos tão sombrios!

Matéria elaboradas com trechos retirados de duas reportagens do site IHU: http://www.ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559382-dom-helder-camara-e-dom-luciano-mendes-de-almeida-paladinos-dos-pobres-e-da-justica

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