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Guarani-kaiowa, um povo largamente perseguido, que vive na miséria, mas permanece na luta

Por Luis Miguel Modino

As políticas do governo brasileiro contra os povos indígenas são claramente persecutórias, muitas vezes com o apoio explícito do poder judiciário. Um dos povos que mais sofrem essa atitude são os guarani-kaiowa, “um povo largamente perseguido, que vive na miséria e passa fome, que foi despejado de suas terras”, como denunciam agentes do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, que preferem não se identificar como medida de precaução diante das constantes ameaças que sofrem em conseqüência de seu trabalho pastoral.

Trabalhar com essas comunidades é uma resposta aos clamores de um povo. Em diferentes momentos os guarani-kaiowa tem manifestado que “preferem morrer todos a se entregar e sair, permanecer na luta, unidos, mesmo correndo o risco de todos serem enterrados”, reconhecem desde o Conselho Indigenista Missionário. Para eles, conhecer a realidade desse povo é “se deparar com situações muito dolorosas, sofrimento mesmo, crianças desnutridas, sem nada para comer em muitos lugares, doenças e sobretudo falta de terra, de ter onde morar”

Não é fácil realizar essa missão, dado as grandes distâncias, mas mesmo assim a presença efetiva nos acampamentos e aldeias indígenas é uma realidade. “O povo continua muito esperançoso, é um povo lutador, tem uma espiritualidade fantástica, que sustenta e se percebe que alimenta e dá força para a luta e mantém o povo guarani-kaiowa de pé. Eles são encantadores nessa dimensão da espiritualidade”, reconhecem desde o organismo dependente da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.

Nesse sentido deve ser destacada a importância dos rezadores, que animam o povo nos diversos momentos. Toda ação ou decisão importante é precedida de uma grande reza. Os guarani-kaiowa decidem em uma grande assembléia, que eles chamam de “tiguaçu”, momento que serve para fazer denúncias e assumir compromissos de luta. Hoje a grande luta é a retomada do território tradicional, uma missão difícil, pois no inicio da história grande parte de sua terra foi vendida pelo governo do estado, como terras devolutas, e para isso foi expulsando os indígenas.

O CIMI denuncia que em conseqüência do crescimento da população indígena, “hoje as oito reservas não comportam mais o povo”. Para o povo guarani-kaiowa o que caracteriza o território tradicional são os lugares onde estão sepultados seus antepassados, pois para eles essas terras são sagradas. Essa é “uma luta árdua, não vai ser fácil reconquistar o território tradicional”, reconhecem os agentes de pastoral. Eles continuam afirmando que nessa luta “já morreram muitos, a lista dos que foram assassinados é grande”, não só os que morreram nos confrontos, mas também os que foram atropelados, que passa por um acidente, mas que muitos são intencionados. Isso é comum, pois muitas vezes o que sobra para eles é à beira das estradas. É arrepiante escutar que “uma vez um caminhão atropelou um indígena e foi como se tivesse atropelado uma galinha, nem parou”.

Diante das mortes que acontecem nos confrontos com os capangas dos fazendeiros, a reação dos guarani-kaiowa, sobretudo os jovens, eis “a morte de nossas lideranças não nos intimida, só nos anima a prosseguir as nossas lutas, se tiver que morrer não nos importa”, um sentimento muito claro, que se escuta até nos adolescentes. Os agentes do CIMI relatam que até nas oficinas de desenho com as crianças, “eles retratam a luta perfeita, a garra com que eles entram para lutar por aquilo que eles acreditam”.

A grande luta deles é pela terra. De fato, “quando eles retomam alguma área, em três ou quatro meses você vê roça para todo lado”, relatam desde o CIMI, usando um estilo próprio dos guarani-kaiowa que faz possível que num pedacinho de terra eles têm um monte de coisa plantado, um estilo de agricultura que não precisa de muita terra para plantar o necessário para eles. “Até na beira da estrada eles plantam, é um povo de uma garra muito grande para viver”, contam os agentes do CIMI, quem dizem ter uma admiração muito grande por eles.

Os guarani-kaiowa conservam sua língua, as tradições, sua forte espiritualidade. De fato, a primeira coisa que eles fazem nos acampamentos é colocar um símbolo religioso. Junto com CIMI, os indígenas também têm o apoio da missão kaiowa, onde os evangélicos fazem um trabalho de acompanhamento por muitos anos na luta pela vida. Outros grupos de evangélicos fazem mais um trabalho que poderíamos denominar pastoral, sem tanto interesse e presença nas lutas.

Para os agentes do CIMI, “ali é quase impossível estar junto e pensar só na questão de fé, ali a fé, ela nasce da vida, está misturada com a luta. A vida do povo guarani, ela é uma mistura, até na perspectiva deles, porque para eles a Terra Sem Males onde querem chegar, aquilo é mística, que é parte integrante da vida”. De fato, nas assembleias guaranis, o rezador levanta e pega o maracá, quando ele bate, todos se levantam e começam a dançar. A mesma coisa diante de uma discussão polêmica onde não chega no consenso, bate o maracá, todo mundo reza, entram em sintonia, sentam e decidem. Não há uma separação, não se para a reza, é integrado, eles não conseguem desvincular uma coisa da outra.

A convivência dos agentes do CIMI com os guarani-kaiowa é um processo em que vai somando aos poucos, é um aprendizado. A língua é um desafio no trabalho com o povo, porque eles se comunicam em guarani, fazem as assembléias em sua língua.

A região vive envolvida em constantes processos, que dificilmente são resolvidos, pois a equipe do CIMI na região é bastante pequena e a presença de advogados é voluntaria. São vários os povos da região que passam por dificuldades e são perseguidos no Mato Grosso do Sul, o que demanda acompanhamento, nada fácil diante das distancias. Para superar as dificuldades a equipe do CIMI tem estabelecido alianças com outras instituições e organismo eclesiais, para dar maior fortaleza ao trabalho e fazer denúncias. Junto com isso, “nem sempre os bispos da região apoiam o trabalho do CIMI, até o ponto de que algumas dioceses, mantidas pelos fazendeiros, nunca vão ser favoráveis. Isso dificulta o trabalho”, denunciam desde o Conselho Indigenista Missionário. Inclusive, tem se dado o caso, de um bispo que não quer agentes na sua diocese que trabalhem diretamente com os indígenas para não dar problema.

Na perspectiva está a possibilidade de somar forças com algumas pessoas, alguns padres, alguns bispos um pouco mais sensíveis à questão. “É um desafio grande, quem entra na causa, aparentemente fica só, não é fácil, não”, reconhecem desde o CIMI. Também existe uma aliança muito boa com alguma universidade, que nos momentos de despejos, por exemplo, de uma agressão muito forte contra os guarani-kaiowa, tem ajudado com caravanas, o que permite somar com os indígenas na luta por algumas questões.

Com isso já se conseguiu algumas melhoras nas condições de vida, escola, saúde, aceso a água potável, que provoca desnutrição e morte de crianças. Outro problema é a pulverização aérea que muitas empresas realizam, o que prejudica muito às comunidades indígenas, pois passam acima das comunidades. Exemplo do caso de uma senhora idosa que estava no terreiro e quando o avião passou morreu quase que imediato. “Eles sabem que ali é a comunidade, mas fazem questão de passar por cima, é algo criminoso, intencional, é para eliminar mesmo”, como reconhecem os agentes.

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