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Migração e tráfico humano, realidades abafadas que precisam ser debatidas dentro da Igreja

O processo sinodal é o pano de fundo que está presente em muitos encontros eclesial da Igreja da Amazônia. Uma das atitudes fundamentais dentro desse processo é a escuta, que ajuda a conhecer realidades muitas vezes abafadas na Amazônia, inclusive dentro da própria Igreja. A migração forçada e o tráfico humano fazem parte dessa lista de “coisas esquecidas”.

Na perspectiva de conhecer melhor para poder fazer um trabalho pastoral mais eficaz nesses campos, aconteceu de 31 de agosto a 02 de setembro em Manaus o Seminário sobre Migração forçada e Tráfico de pessoas, com mais de cem participantes, representantes de todas as dioceses e prelazias do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos de Brasil – CNBB.

O tráfico de pessoas pode ser definido como a escravidão moderna. Nesse sentido, como reconhecia Eurides Alves de Oliveira, da Rede um Grito pela Vida, é preciso “se colocar no lugar do outro, daquele que está em situação ou em risco de tráfico”. Não podemos esquecer que essa é uma realidade cada vez mais presente na Amazônia, onde as vítimas e rotas aumentam de maneira exponencial. O tráfico humano na região, segundo lembrava Roselei Bertoldo, se concretiza no desaparecimento de crianças e adolescentes, o trabalho escravo, a exploração sexual e a servidão doméstica. Por isso, é necessário buscar mecanismos de enfrentamento que dê visibilidade e denuncie esse tipo de crime, um trabalho que deve ser desenvolvido em rede.

Uma das regiões onde essas problemáticas na Amazônia brasileira estão mais presentes é Roraima, porta de entrada dos imigrantes venezuelanos no país. Dom Mário Antônio da Silva, bispo de Roraima e Presidente do Regional Norte 1 da CNBB, presente no seminário, ressaltava que “é hora de insistir na incidência política, de espalhar o que a gente discute aqui. Estar aqui é um privilégio, sair daqui um compromisso”. O bispo insistia na necessidade de envolver nessas problemáticas seus colegas bispos.

O relato de situações presentes na região exige uma posição como Igreja diante da exploração sofrida pelo povo, especialmente mulheres, adolescentes e crianças. Pode servir como exemplo a realidade de São Gabriel da Cachoeira, onde a impunidade está presente, como ficou demonstrada na chamada “operação cunhantã”, que prendeu vários suspeitos de exploração sexual, ficaram presos por um tempo e hoje, depois de cinco anos, esperam o julgamento em liberdade. Enquanto isso algumas crianças e pessoas que denunciaram o caso, tiveram que sair da cidade sob ameaças.

No que faz referência à migração, a socióloga Márcia de Oliveira, Professora da Universidade Federal de Roraima – UFRR destacava que América Latina é a região com maior número de migrantes e que na Amazônia estão surgindo novas rotas migratórias. Frente à ausência de fronteiras para mercadorias, cada vez mais aumentam os mecanismos que impedem a migração das pessoas, o que provoca o aumento da migração ilegal, favorece os distintos tipos de exploração, uma prática histórica no Brasil, sobretudo naquilo que faz referência ao mundo do trabalho. De fato, no Brasil, segundo a professora, não existem políticas migratórias e, ao mesmo tempo, cresce a xenofobia, que se manifesta em agressões físicas, na mídia e nas redes sociais.

A reflexão explícita sobre migração e tráfico humano está presente na vida da Igreja desde a década de 1950, mas tem-se incentivado decisivamente com a chegada e escritos do Papa Francisco, que aos poucos de iniciar seu pontificado fez uma viagem em Lampedusa que vai ficar marcada na história. Em sua reflexão, Dom Evaristo Spengler, bispo da Prelazia de Marajó e membro da Comissão Especial de Pastoral de Enfrentamento ao Tráfico Humano – CEPEETH da CNBB insistia no conceito de “globalização da indiferença”, que vai apagando a sensibilidade com o próximo, numa sociedade que perdeu a capacidade de se compadecer.

O bispo de Marajó refletia sobre atitudes presentes dentro da Igreja, que leva algumas pessoas a dizer abertamente que tráfico de pessoas não tem a ver com religião. “Quando perdemos a prática do Jesus histórico e esquecemos o anúncio do Reino, espiritualizamos a religião”, segundo o bispo, que insiste em que “o Reino de Deus chega quando a realidade começa a ser transformada, quando os pequenos começam a ser tratados como pessoas e tem seu espaço, não quando a Igreja está cheia de gente”.

Como está acontecendo na maioria dos encontros na Amazônia, os participantes do seminário tem estudado o Documento Preparatório, apresentado por Márcia de Oliveira, única mulher assessora do Sínodo da Amazônia. Posteriormente foram respondidas algumas das questões presentes no Documento Preparatório do Sínodo, levantando provocações que ajudem no processo sinodal, pois não podemos esquecer que um dos aspectos fundamentais é a uma atitude de escuta.

Foram destacadas ameaças e dificuldades para a vida, o território e a cultura, como os grandes projetos (mineradoras, estradas, hidrelétricas, desmatamento, privatização da água…), os impactos do turismo (ambientais, crescimento da violência, abuso e exploração sexual, prostituição, tráfico de pessoas), tráfico de drogas, onde também são envolvidas crianças, pessoas, armas e das riquezas naturais, o alto índice de suicídios entre a juventude, o alcoolismo, a corrupção, a falta de acesso a comunicação em muitas regiões, o alto custo de vida e a falta de segurança. Junto com isso deve ser recolhido pelo Sínodo à prática histórica da violência e abuso contra a mulher, vista como objeto de troca e comércio, vítima da violência doméstica que gera conflito na vida das famílias, âmbito onde também está presente o abuso e exploração sexual. A Igreja, que nem sempre tem uma atitude profética, deve tomar postura ao respeito dessas problemáticas.

Na reflexão apareceram outros elementos importantes para a região e a Igreja da Amazônia, como o papel da Igreja dentro dos novos contextos presentes na Amazônia (políticos, sociais, culturais, religiosos e econômicos), as diferentes cosmovisões, espiritualidades e suas expressões. Também é importante o acompanhamento das vocações nativas considerando as culturas, línguas, espiritualidades, cosmovisões, teologias, dando lugar aos próprios indígenas nessa formação.

A evangelização deve ser pautada pelo conhecimento da Palavra de Deus, buscando restaurar a dignidade humana, frente às injustiças e desigualdades, sendo anunciadora e denunciadora. Deve ser superado um processo ultrapassado, com um investimento a longo prazo que fomente uma Igreja envolvida na realidade, com um olhar atencioso de compaixão e misericórdia vendo no próximo a pessoa de Jesus, tendo coragem de denunciar, de ser uma Igreja profética, que tem voz e atua no resgate da história dos povos, respeitando as culturas e não se calando em defesa dos bens naturais e das vítimas do tráfico.

Os meios de comunicação devem ajudar a edificar uma Igreja com rosto amazônico na medida em que promovam e mostrem a realidade própria da Amazônia com sua pluralidade cultural e étnica, especialmente os trabalhos positivos que são realizados, também no meio dos povos indígenas. Os meios da Igreja devem insistir na divulgação da ação missionária e do trabalho das pastorais, falando mais dos temas como tráfico de pessoas, violência contra mulher e migração. Nesse sentido, é necessário preparar comunicadores inculturados na realidade amazônica.

Na Igreja da Amazônia a participação das mulheres é decisiva. Por isso, é necessária uma mudança do olhar patriarcal e o machismo institucional da Igreja. A Igreja amazônica tem rosto feminino, pois nas bases as mulheres realizam o trabalho missionário, especialmente em locais longínquos (comunidades indígenas, rurais e assentamentos). Elas não podem ser inferiorizadas e devem participar nas decisões da Igreja, chegando a ser pedido à ordenação das mulheres, pois como algumas das mulheres presentes reconheciam, as mulheres devem expressar suas legítimas aspirações. Os participantes têm denunciado que os padres muitas vezes, mesmo indo pouco nas comunidades, desestruturam todo esse trabalho. Por isso, tem que se rever a formação dos padres que não valorizam as mulheres.

As partilhas realizadas ao longo do seminário ajudaram a mostrar o grande trabalho que está sendo desenvolvido no Regional Norte 1 da CNBB por muitas religiosas, leigos e leigas, nas diferentes dioceses e prelazias naquilo que faz referência ao combate do tráfico de pessoas, exploração sexual de crianças e adolescentes e apoio aos imigrantes, cada vez mais presentes na região. São sinais de esperança que nascem de uma Igreja viva na Amazônia.

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