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O Sínodo e as possíveis transformações da Igreja para as juventudes

Sínodo dos Bispos com a temática Jovens, a fé e o discernimento vocacional, inicia nesta quarta-feira, 03-10-2018, com as proposições do Concilio Vaticano II e do pontificado de Francisco. Essa sinodalidade é uma radicalização, por assim dizer, democrática da Igreja. A participação no Sínodo da Família, 2014 e 2015, envolveu a expansão da discussão às comunidades, com texto-base, questionários e a participação de famílias no encontro com os bispos. Entretanto, há nesse pontificado de Francisco, desde o seu primeiro momento, a orientação de “uma igreja pobre para os pobres“. Portanto, a partir dessa premissa que o Sínodo da Juventude é excepcional.

Pela primeira vez a Igreja do mundo reúne-se para debater sobre juventude. Os encontros da Jornada Mundial da Juventude, motivados pelo papa João Paulo II, em 1985, são encontros de massa, de mobilização juvenil. As expressões das JMJs sempre foram distantes da maioria dos jovens, exemplo é a edição recente ocorrida no Brasil. Apesar da participação massiva, calculada em mais de 2 milhões de jovens, envolvia custos organizacionais e participativos, isso é, uma reorientação da formação e estruturação do processo de evangelização da juventude no país – e ademais os custos financeiros. Isso não significa que as JMJs foram experiências frustradas, mas são impositivas ao desconsiderar que a organização pastoral dos jovens, deve ser continuamente integral em seu processo formativo e vivencial. No documento produzido pela reunião Pré-Sinodal, de março de 2018, os quase 300 jovens participantes presencialmente e outros 15 mil pela internet apontaram que há uma seletividade nas participações da JMJ, sobretudo ao se considerar a possibilidade de participação internacional.

Essas características próprias do evento massificam a juventude, tornam-na “a juventude do papa”, colocam cruzes para jovens carregarem enquanto bispos e padres os aplaudem, mas não sustentam com a juventude as cruzes que enfrentam, na paixão pela vida, diariamente. Essa relação pode ser apontada como um símbolo da crise clericalista da Igreja. Não há no jovem a expressão de ser um sujeito de direito à participação da instância eclesial.

Por que importa citar que o Sínodo e a JMJ se contrapõem? Porque ao se admitir uma formação integral da juventude, estamos considerando que a dimensão festiva, de encontro, não pode ser relegada, nem impositiva. O padre Hilário Dick, ainda em meados dos anos 90 apresentava uma teologia jovem, aponta a festa como uma dimensão da identidade juvenil. Mas a festa é momento celebrativo da caminhada perpassada pelos próprios jovens.

Instrumentum laboris do Sínodo pode se dizer que é um caminho feito pelos jovens. As participações nas comunidades, na internet, discussões entre pastorais e movimentos, questionários encaminhados ao Vaticano… um processo de democracia direta, e que dado em uma instituição “monárquica”, realiza o que nossas instituições do Estado não contemplam mais.

A abertura sinodal do papa Francisco rompeu com tabus. Os jovens discutiram temáticas que tocam a sua realidade concreta, em muitas vezes contrapostas ao percurso que a Igreja propõe ou, para muitas jovens, impõe. O teólogo Peter Hunnermann afirma que a sinodalidade é a grande novidade impulsionada nesse papado. Citando o Papa, afirma que “é impossível tratar o povo de Deus, que foi distinguido pelo Espírito Santo com o sensus fidei, que não se engana, e tem parte na missão profética de Jesus Cristo, como sujeito meramente passivo a ser instruído por ministros”. A diferença de incluir esses jovens como sujeitos ativos, e não passivos na Igreja, previne umas das doenças clericais que parasitam a instituição: a esquizofrenia existencial. Diz Francisco que a esquizofrenia é “atinge muitas vezes aqueles que, abandonando o serviço pastoral, se limitam às coisas burocráticas, perdendo assim o contato com a realidade, com as pessoas concretas”.

Pois os temas que tocam a vida da juventude e são simplesmente tabus na Igreja e, influenciados pelo pensamento religioso muitas vezes, na sociedade moderna, não podem ser trabalhados no sentimento da esquizofrenia. Isso é, não se pode viver e pensar duplamente e contraditoriamente. A burocracia, por vezes dita até espiritual, institui à concretude apontamentos e normas que afrontam a vida dos e das jovens, literalmente.

Que questões cruciais da vida apareceram na discussão entre os jovens? Aborto, homossexualidade, feminismo, violência, racismo, intolerância religiosa… porém, vale destacar que a juventude não é um grupo homogêneo. São preocupações que atingem diretamente a vida de muitos e muitas jovens.

Portanto, é importante frisar que o relatório final da Reunião Pré-sinodal e o Instrumentum laboris expõem essa diversidade. Há jovens que gostariam que o posicionamento da igreja mudasse, há jovens que querem aprender mais sobre aquilo que a igreja ensina, e há muitos jovens que são felizes com o ensinamento da igreja. A juventude não é essencialmente revolucionária. É uma categoria que está sempre em construção, e seja na Igreja, no mercado ou na política, está em conflito.

papa Francisco aponta como a economia de mercado “fagocita tudo, qualquer realidade frágil fica indefesa diante do mercado divinizado” (Evangelii Gaudium, 56). Exemplo disso é a mercantilização das pautas LGBTIs, feministas, do povo negro… embora o patriarcado, o racismo e o colonialismo sejam pilares desse sistema. A economia de mercado se reorganiza sobre esses assuntos e se alimenta, se fortalece captando o que está na superfície, como se possibilitasse uma transformação instantânea das desigualdades e das violências.

A sociedade de mercado atenta contra a vida da juventude e seu produto, em termos estatísticos, é a morte, em números crescentes, para grupos bem demarcados. No Brasil, por exemplo, o Atlas da Violência aponta que houve redução na taxa de homicídios de não-negros. Entretanto, 33.590 jovens foram assassinados em 2016, crescimento de 7,4% em um ano, e a taxa de homicídio de negros é 2,5 vezes maior que a de não negros, e há um aumento constante nesses números, sendo de 23% de 2015 para 2016.

trabalho de evangelização da juventude envolve um compromisso de transformação social, e de forma integral. Discutir as questões de modo superficial, ao modelo do mercado, apenas desloca estatísticas com maior intensidade para os grupos mais vulneráveis.

A política, sobretudo latino-americana, tem entrelaçada essa relação contraditória do pensamento cristão com a economia de mercado. Estados são laicos, mas não seculares, logo há interferência das igrejas na discussão de políticas públicas. Exemplo recente disso é o movimento das mulheres argentinas, jovens, adultas e idosas que protagonizaram um debate ao decorrer de 2018 sobre o aborto. Embora a pauta tenha sido aprovada na Câmara, a possibilidade de legalização de interrupção voluntária de gravidez despertou a reação dos cristãos, com