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Eleições 2018: a resistência da esquerda frente ao avanço do fascismo

"A radicalização da polarização política no Brasil. Algumas análises. Entrevistas especiais"

O Instituto Humanitas Unisinos publicou na manhã dessa segunda feira (08/10), uma entrevista com alguns intelectuais brasileiros e ativistas de esquerda e de direitos humanos, sobre os resultados do pleito eleitoral deste domingo.

Uma das pessoas entrevistadas foi Ivo Lesbaupin Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e membro da ONG Iser Assessoria, do Rio de Janeiro. É doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, França. É autor e organizador de diversos livros, entre os quais O Desmonte da nação: balanço do governo FHC (1999); O Desmonte da nação em dados (com Adhemar Mineiro, 2002); Uma análise do Governo Lula (2003-2010): de como servir aos ricos sem deixar de atender aos pobres (2010).

Trazemos aqui o texto do site IHU que apresenta um breve resumo dos entrevistados, e em seguida a entrevista na íntegra com Ivo Lesbaupin.

Desde 1989, isto é, desde o princípio da Nova República o Brasil nunca foi capaz de virar, no segundo turno, uma eleição presidencial. O resultado da votação de domingo, 07-10-2018, coloca os brasileiros diante da escolha entre Jair Bolsonaro, PSL – com 46% dos votos –, e Fernando Haddad, PT – com 29,3% dos votos. O cenário traz à tona a polarização que tem marcado a política brasileira nos últimos anos. Para analisar os impactos e os significados desta eleição, a IHU On-Line ouviu uma série de especialistas para analisar o primeiro turno de 2018.

O resultado das eleições presidenciais deste ano confirmou “a preferência do eleitorado pela candidatura Bolsonaro, o que diz muito sobre a mente da sociedade brasileira”, diz Roberto Romano. Segundo ele, a eleição indica que “no mesmo passo em que o Estado nacional não se democratiza, os dirigentes políticos aumentam seus privilégios e legislam em causa própria, a massa sem condições de partilhar do cotidiano administrativo, não ouvida e escorchada com impostos sem retorno, busca um salvador encarnado em indivíduo autoritário que promete tudo mudar. Foi assim com Jânio Quadros, com a ditadura de 1964, Fernando Collor e, em boa parte com Luis Inácio da Silva”.

Para Clemente Ganz Lúcio, do Dieese, para quem a eleição no segundo turno será um grande desafio diante da “larga vantagem” do candidato do PSL, cabe “iniciar uma etapa fundamental de rearticulação de um campo democrático para um novo arranjo político”. “A esquerda tem demonstrado enorme dificuldade de fazê-lo, o que pode configurar sua derrota! Poderá superar e dar um salto de qualidade. (…) Mas, para isso, será preciso humildade para um diálogo entre iguais e determinação para a luta política conjunta. Serão três semanas de fortes emoções, de um jogo duríssimo”, pondera.

Ivo Lesbaupin, também entrevistado por e-mail, menciona que o resultado do primeiro turno foi marcado por um “antipetismo” que tem sido “difundido a nível nacional no correr dos últimos anos” e pela “candidatura de um político que se apresenta como um candidato antissistema, diferente de ‘tudo o que está aí’, que afirma que vai acabar com a corrupção e com a violência. Com medidas simples: armas para toda a população, facilitação do uso da violência pela polícia”.

Na análise de Rudá Ricci, que concedeu entrevista por telefone, as eleições serviram para revelar um país radicalmente dividido em dois importantes pólos eleitorais: centro-sul e nordeste. “O sudeste dando uma guinada muito nítida à direita e em alguns casos para a extrema direita. É o caso, por exemplo, do Rio de Janeiro onde o candidato a deputado estadual mais votado é justamente aquele personagem que quebrou a placa com nome de rua da Marielle”, avalia. “Já no nordeste, a votação é toda à esquerda. O PT faz vários governadores, o PCdoB reelege Flavio Dino, no Maranhão, nós temos o PSB elegendo vários governadores”, complementa.

Para Bruno Cava, em entrevista por e-mail, considera que o principal risco que corremos é que as estruturas estatais passem a ressoar o fascismo social que temos testemunhado. “O desafio de uma mobilização como o #EleNão é mostrar como as preocupações das minorias não se restringem à suposta ‘elite de esquerda’ que organiza os protestos, mas são preocupações de todos, preocupações transversais. Porque, no Brasil, todo mundo é minoria em alguma medida. Nem tanto a luta da minoria, mas a minoria enquanto luta, minoria que devimos, que nos constitui”, coloca.

Adriano Pilatti, que atuou na Assembleia Constituinte de 1988, em entrevista por e-mail, admite um olhar de preocupação com o cenário atual, mas adverte que é preciso arregaçar as mangas. “Será preciso muito esforço, muita coesão, muita paciência, muita disposição de persuadir a parcela de votantes ao centro e à direita para que não cedam, agora ou mais uma vez, à ilusão autoritária e obscurantista. Por isso mesmo é preciso começar imediatamente, sem hesitações”, provoca.

Na avaliação de Acauam Oliveira, “o resultado das eleições apresentou o cenário ideal tanto para petistas quanto bolsonaristas. Grande parte da força de Bolsonaro alimenta-se de um antipetismo radical aliado a um sentimento geral de negação da política tradicional, considerada como espaço da corrupção e da bandalheira. Sua candidatura claramente depende do avanço do PT para se sustentar. O mesmo se passa com o PT, cujas maiores chances de vitórias se dão obviamente contra uma candidatura cujo índice de rejeição seja superior ao do próprio partido, sendo Jair Bolsonaro o único que preenche esse requisito”. O cálculo, adverte, “arremessa o país para um clima de assustadora instabilidade, mas é praticamente a única esperança petista, que pode contar novamente com a lógica do ‘nós contra eles e arregimentar grupos de eleitores que já haviam desistido de apoiar o partido”.

Moysés Pinto Neto frisa que o resultado da eleição “confirma-se o que todo mundo sabia: o país vive uma onda de viralização da ideologia conservadora somada a uma revolta contra o sistema inspirada da crítica à corrupção. O discurso encontrou em Bolsonaro a figura que sintetiza autoritarismo e discurso de renovação”.

IHU On-Line – Qual sua avaliação do resultado das eleições deste domingo?

Ivo Lesbaupin Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e membro da ONG Iser Assessoria, do Rio de Janeiro. É doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, França. É autor e organizador de diversos livros, entre os quais O Desmonte da nação: balanço do governo FHC (1999); O Desmonte da nação em dados (com Adhemar Mineiro, 2002); Uma análise do Governo Lula (2003-2010): de como servir aos ricos sem deixar de atender aos pobres (2010).

Ivo Lesbaupin – Em primeiro lugar, é preciso dizer que estas eleições foram realizadas em condições absolutamente anormais:

  1. a) A presidente eleita no pleito anterior (2014), foi afastada por impeachment em 2016, sem que houvesse “crime de responsabilidade”, como exige a Constituição.

Um dos principais líderes do PSDB reconhece: “O partido (PSDB) cometeu um conjunto de erros memoráveis. O primeiro foi questionar o resultado eleitoral. Começou no dia seguinte (à eleição). (…) O segundo erro foi votar contra princípios básicos nossos, sobretudo na economia, só para ser contra o PT”. [Entrevista de Tasso Jereissati ao jornal O Estado de São Paulo, 13/09/2018].

  1. b) A maior liderança política do país está impossibilitada de concorrer, em virtude de uma condenação injusta – segundo a avaliação de muitos juristas, tanto do Brasil como de outros países. Não há provas concretas que justifiquem sua condenação e prisão. Aparentemente, o único objetivo de sua condenação foi impedi-lo de concorrer. Segundo todas as pesquisas, se fosse candidato, Lula seria eleito.

Estas duas medidas – o afastamento da presidente eleita e a condenação e prisão de Lula – atingem unicamente o PT, como se houvesse a intenção deliberada de ceifar o PT da vida política nacional. A operação Lava Jato cometeu uma série de irregularidades (conduções coercitivas sem intimação prévia, vazamentos seletivos de depoimentos, direcionamento de delações, divulgação para a mídia de conversas gravadas com a presidente da república, divulgação para a mídia em véspera de eleições, etc.). E, além disso, foi claramente direcionada para atingir as lideranças e os políticos de um só partido, o PT. Muitos outros políticos, de outros partidos, foram citados e, eventualmente denunciados, mas tiveram um tratamento diferenciado tanto pela força tarefa da operação quanto pela mídia. Alguns destes, com provas concretas de corrupção, continuam atuando na política como se nada tivesse acontecido.

IHU On-Line – O que explica o resultado das eleições e qual é o seu significado político?

Ivo Lesbaupin – A campanha judiciário-mediática de quatro anos e meio contra Lula e o PT construiu o antipetismo que marcou o 1º turno destas eleições. Durante este período não saiu uma notícia positiva sobre os governos Lula ou Dilma: a ascensão de 30 milhões de brasileiros que deixaram a miséria, o aumento real do salário-mínimo, o Bolsa-Família, o papel proativo do Brasil no cenário internacional, etc. Até o desastre dos dois anos do governo Temer foram colocados na conta dos governos do PT. As falsas notícias não estiveram apenas nas redes sociais, estiveram também na grande mídia.

Clima de ódio e difusão de mentiras (“fake news”)

A saída não é mais ódio ou mais violência (“agora é guerra”) e, sim, a superação deste clima – Ivo Lesbaupin

De outubro de 2014 para cá cresceu uma onda de ódio em nossa sociedade. Não foi gratuita. Ela foi incentivada pela grande mídia, que quis jogar a opinião pública contra um partido, o PT, e suas principais lideranças, com o objetivo de derrubar a presidente e de afastar Lula e o PT da cena política. Durante quatro anos e meio, a Operação Lava Jato construiu a narrativa da “maior história de corrupção do país”. Passado este tempo, a Operação não acabou com a corrupção e deixou intocados os maiores partidos de direita assim como suas lideranças – desde Temer a Aécio Neves, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Moreira Franco. Mas conseguiu a derrubada de Dilma e a condenação e prisão de Lula.

A campanha “A Lei é para todos” se revelou “A Lei é para o PT”, numa atualização do dito “para os amigos tudo, para os inimigos a Lei”. A maioria da opinião pública, embora atingida pela campanha, não se deixou enganar: nas pesquisas de opinião, apesar do massacre mediático incessante, o líder do PT, mesmo preso, enquanto era candidato permaneceu em primeiro lugar. Fora do Brasil, na mídia internacional, o discurso dominante na nossa mídia não passou: a saída de Dilma é vista como uma espécie de golpe parlamentar e a prisão de Lula como uma manobra para afastá-lo das eleições. Desde o New York Times, passando pelo El País até a Comissão de Direitos Humanos da ONU, a situação no Brasil é vista como irregular. E o governo Temer é totalmente desmoralizado. Até o The Economist adverte para o risco que Bolsonaro representa.

Isto explica em boa parte o crescimento do voto útil em Bolsonaro nos últimos dias do primeiro turno. O antipetismo não surgiu do nada, surgiu de uma campanha orquestrada para gerar, em parte da sociedade, a reação que gerou a seu líder e ao partido.

Isto não reduz as críticas que se possa fazer aos governos Lula e sobretudo aos governos Dilma (especialmente, ao segundo governo). Há críticas a serem feitas a estes governos, mas o antipetismo é outra coisa: é a geração de um ódio baseado na exacerbação de falhas ocorridas nestes governos. Isto foi feito usando meios da Justiça e meios de comunicação de massa, em especial a televisão, além das redes sociais, alimentadas por “fake news”.

Não temos no Brasil instrumentos públicos de controle destas falsas notícias. Tal como nos EUA, elas servem aos conservadores, para confundir a opinião pública e gerar um clima de desconfiança face aos meios de comunicação em geral. E a grande mídia tem sido condescendente com a difusão das falsas notícias.

Não contentes com a condenação e prisão de Lula, uma parte do Judiciário e generais querem condicionar o resultado das eleições ao que eles desejam: manifestam-se para dizer ao STF a posição que deve tomar e para definir qual eleito eles aceitam e qual seria inaceitável (para eles). Ou seja, a decisão democrática – do povo – não importa.

Eleições sob tutela

Em outras palavras, as eleições, que são uma prática típica da democracia, pela qual o povo escolhe seus governantes e seus representantes, não estão sendo realizadas em condições de liberdade e, sim, em condições de tutela, tanto por parte de alguns juízes, inclusive do STF, como por parte de setores das Forças Armadas, que se pronunciam como se fossem donos do país.

O candidato Jair Bolsonaro sofreu um atentado. Certamente, o clima de ódio difuso presente na conjuntura atual contribuiu para este acontecimento trágico. Mas o crime foi rechaçado por todos os partidos e por todos os candidatos à presidência. Embora o candidato tenha um discurso de intolerância, ninguém defende outra solução para esta postura que não a democracia.

A saída não é mais ódio ou mais violência (“agora é guerra”) e, sim, a superação deste clima. A política se constrói pelo debate de ideias, num clima de liberdade e respeito às diferentes posições existentes. E o rumo é definido, com muito debate, pela maioria. Tomada a decisão, os que perderam naquele momento se reorganizam para influir no decorrer do período e para convencer a maioria na oportunidade seguinte.

HU On-Line – Como deve se dar a disputa eleitoral no segundo turno? 

I Ivo Lesbaupin – Temos de levar em conta estes fatores:

1) a existência de um antipetismo difundido a nível nacional no correr dos últimos anos;

2) a candidatura de um político que se apresenta como um candidato antissistema, diferente de “tudo o que está aí”, que afirma que vai acabar com a corrupção e com a violência. Com medidas simples: armas para toda a população, facilitação do uso da violência pela polícia.

Este candidato já disse frases muito fortes em sua vida política e durante a campanha eleitoral, discriminatórias com relação às mulheres, aos/às homossexuais, aos negros. Tudo lhe foi perdoado pelos órgãos de justiça, até o presente momento. Seus eleitores são pessoas conservadoras, de um lado, alguns dos quais desejam a volta da ditadura militar, mas também pessoas que apenas querem acabar com a corrupção no pais, acabar com o caos em que nos encontramos.

A facilidade com que este candidato fala positivamente da ditadura militar tem a ver com o desconhecimento da história dos vinte e um anos deste regime por parte da maioria da população: muitos imaginam a ditadura como um período em que houve ordem e progresso, em que não havia violência nas ruas. A supressão da liberdade, a opressão daqueles anos, as prisões, as torturas, é fato desconhecido para muitos. Provavelmente, este candidato vai continuar tomando as posições que tomou até hoje e vai procurar alimentar o antipetismo para derrotar o outro candidato, que é do PT. Por sua vez, Fernando Haddad terá de conseguir galvanizar o apoio dos candidatos que perderam a eleição, o que implicará em muito diálogo e abertura para incorporar preocupações que não são do PT.

O segundo turno colocará em disputa o campo democrático e o campo que flerta com a ditadura, o campo da defesa das liberdades e dos direitos humanos e o campo que aposta na violência e na intolerância. Será preciso abrir a consciência dos eleitores do outro candidato para os riscos que ele traz para o país e para os direitos dos trabalhadores, das mulheres, da população LGBTI, dos negros.

A reportagem é Patricia Fachin e Ricardo Machado, publicado em 08 Outubro de 2018. http://www.ihu.unisinos.br/583456-eleicoes-2018-a-radicalizacao-da-polarizacao-politica-no-brasil-algumas-analises-entrevistas-especiais

Foto: DM/Opinião.

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