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Comunidade de irmãs e irmãos, a questão de Gênero nas CEBs

Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. ( Gl.3, 28)

Nestes tempos em que mais uma vez, as mulheres precisam sair as ruas para combater o machismo, a misoginia , e principalmente o fascismo que ameaça a nossa tão frágil democracia. O Portal das CEBs resgatou o artigo da Lúcia Ribeiro, publicado no texto base em preparação ao X Intereclesial das CEBs que aconteceu em Ilhéus-BA, em 2000.

O texto aborda a o conceito de gênero, a construção histórica da lutas das mulheres por igualdade, empoderamento, combate a violência e a lógica patriarcal. Nesse sentido, o texto buscou evidenciar a importância de valorizar a participação das mulheres, principalmente à partir das experiências das Comunidades Eclesiais de Base.

Ato protagonizado pelas mulheres #EleNão, em SP.

Diante de toda a mobilização de sábado (29/09), em que a diversidade dos grupos de mulheres enalteceu ainda mais o ato #EleNão, inclusive mulheres cristãs. Perceber que as mulheres da Igreja tiveram importante papel na história é fundamental para impulsionar e motivas as jovens mulheres que decidem se opor ao sistema e a uma Igreja que se apresenta conservadora e cada vez mais fechada para o protagonismo das mulheres.

 

Leia o artigo na íntegra!

Introdução 

A questão de gênero surge  da própria experiência que mulheres e homens vêm vivendo nas CEBs. Mas no IX Intereclesial, em S. Luís, houve uma solicitação específica: foi aprovada uma moção, pedindo que este tema fosse tratado no próximo encontro.

De certa forma, esta moção já começou a se concretizar através da imagem da “Mulher grávida”, que foi modelada lá, durante a Celebração Inicial , e que o povo de S. Luís ofereceu a Ilheus. Nela, cada detalhe tem um significado. Lucineth C. Machado – coordenadora do IX Encontro –  nos relatou sua história: queríamos fazer uma imagem juntando o barro que as comunidades do Brasil todo tinham trazido – lembrando que todo mundo tem que misturar a mão na massa – como símbolo de unidade, de uma mesma busca, de um mesmo sonho. E tinha que ser a imagem de uma mulher negra está na hora da mulher – lembrando a luta pela terra e pela vida. Decidimos também que seria uma mulher grávida, grávida da novidade, grávida da Vida. E uma mulher alegre, porque no meio de todos os conflitos e todos os sofrimentos, a gente descobre a alegria. É a imagem de uma mulher partindo o pão, sinal da partilha. Neste sentido, é também um grito profético, lembrando que todo mundo – homens e mulheres – tem a missão de ser um povo profético, real, sacerdotal.Nós vamos chegar lá!

Hoje, refletindo sobre a questão de gênero, podemos dizer que a “Mulher grávida” nos ajuda também a pensar as diferenças, no interior das CEBs, onde há negros/as, índios/as e brancos/as; tem gente mais velha e gente mais jovem; há leigos/as, sacerdotes, religiosos e religiosas; tem gente do campo e da cidade; mas a belíssima imgem/símbolo aponta sobretudo para uma diferença básica que, por ser considerada “natural”, às vezes passa desapercebida: os participantes das CEBs são homens e mulheres.

O que parece uma coisa óbvia foi  o ponto de partida para uma descoberta importante.  Perceber que homens e mulheres são diferentes ajudou a tomar consciência de que, por trás desta diferença física, se escondia uma situação de opressão: a mulher era considerada não só diferente mas também inferior ao homem.

Esta tomada de consciência é um elemento fundamental de uma das grandes revoluções do século atual: a participação crescente das mulheres no espaço público e , em consequência disso, a possibilidade de novas relações entre homens e mulheres.

Portanto, este tema não é só “uma questão de mulher”, mas interessa a todos nós, mulheres e homens.

É aí que surge o conceito de gênero. É um conceito que está em moda – fala-se muito hoje de relações de gênero, perspectivas de gênero, representações de gênero – mas nem sempre seu conteúdo é claro.

Trata-se, entretanto, de um conceito extremamente rico, que brotou a partir da prática, como uma exigência para compreendê-la melhor: o conceito de gênero nasce neste processo de luta das mulheres contra uma situação de dominação.

Portanto, para nós,  é fundamental,  em primeiro lugar, entender estas origens do conceito e o seu significado, para depois aplicá-lo à análise e à prática das CEBs e ver de que forma este pode ajudar a iluminá-las.

A subordinação das mulheres e a luta pela igualdade 

A subordinação das mulheres em relação aos homens é considerada como a primeira forma de opressão na história da humanidade.[2] Remonta ao período pré-histórico, no qual foi se criando uma organização social que concentrava o poder em mãos masculinas. É o que se chama sistema patriarcal. Este sistema se baseia no modelo de familia que atribui ao chefe  – ou patriarca – a autoridade sobre a mulher, os/as filhos/as e os/as servos/as. [3]

Embora assumindo formas as mais diversas, em tempos e lugares distintos; o sistema patriarcal tem uma característica universal: a dominação masculina.[4] Isto não quer dizer que as mulheres sejam sempre e em todas as culturas igualmente oprimidas[5]; tampouco significa que não tenham poder em determinadas áreas; mas simplesmente aponta para uma tendência  geral, que atravessa os séculos.[6]

Entretanto, com o advento do capitalismo e o alvorecer da modernidade começam a ocorrer mudanças; e no nosso século a crescente participação das mulheres na esfera pública representa uma verdadeira revolução social e cultural [7]. As mulheres têm acesso à educação, entram de forma maciça no mercado de trabalho, podem controlar o número de filhos,  começam a participar do espaço político e assumem um lugar importante nos movimentos sociais.

Um fator fundamental – que é ao mesmo tempo causa e efeito desta mudança – é a luta pela igualdade nas relações entre homens e mulheres. Esta luta  se desenvolve, de forma organizada, através dos movimentos de mulheres e particularmente dos movimentos feministas. Estes movimentos são mais visíveis hoje, mas suas origens remontam ao século passado.

Na realidade, ao longo de toda a História, sempre houve mulheres isoladas que , de uma ou de outra forma, lutaram pelos seus direitos. Na  América Latina,  a primeira voz que se destaca para defender publicamente o direito das mulheres é a de Sor Juana Inés de la Cruz:  já no século XVII, no México, ela escreve sobre esta temática e, por esta razão, é considerada a “primeira feminista latino-americana”.  Sua obra tem um  significado particular  para as mulheres católicas, já que se trata de uma freira que consegue superar um duplo condicionamento: de gênero e de situação eclesial. [8]

A primeira formulação dos direitos da mulher teve origem na Revolução Francesa, no final do século XVIII: é a “Declaração dos direitos da mulher e da cidadã”; esta declaração tentava aplicar também à situação da mulher os princípios de igualdade,  liberdade e fraternidade, que fundamentaram a “Declaração dos direitos do Homem.”[9]

No final do século XIX, o início do movimento feminista  nos Estados Unidos traz consigo uma reivindicação específica das mulheres cristãs: o direito de ler e de interpretar a Bíblia por si mesmas, concretizado na redação da Bíblia da Mulher. [10]

Mas é no século XX  que as mulheres surgem, de forma coletiva, como protagonistas. A luta inicial por melhores condições de trabalho ( final do século XIX e inícios do XX) e pelo direito ao voto ( na primeira  metade do século) se amplia, com os novos movimentos feministas que surgem no final dos anos 60 e no início dos 70. Estes movimentos se definem pelos ideais de liberdade e igualdade e criticam as relações de desigualdade e subordinação que se estabelecem entre homens e mulheres[11].

Também no Brasil, as várias correntes do feminismo foram importantes para denunciar a discriminação sexual e  afirmar os direitos das mulheres. Mas há uma segunda matriz que, no nosso caso, teve uma importância especial: trata-se dos setores da  Igreja católica, que, seguindo a linha de Medellin e Puebla, trataram de integrar a mulher no mundo, através da sua participação na comunidade e nas lutas sociais.

Apesar de suas diferenças, estes dois discursos têm pontos importantes de coincidência, ao valorizar as mulheres como pessoas e ao questionar sua submissão[12]. Sua influência foi marcante: o primeiro discurso atingia sobretudo os setores médios, o segundo estava mais voltado para os movimentos populares. Mas em ambos estava presente um novo valor: a consciência da igualdade da mulher e do homem. É este o valor fundamental que está na base dos movimentos de emancipação feminina, refletindo a prática das mulheres.

É preciso reconhecer, entretanto, que a luta pela igualdade é um processo longo e complexo; se muito já se conquistou, resta ainda um longo caminho a percorrer.

Ainda estamos em um processo de transição, permeado de contradições, em que as transformações que vêm se verificando não são suficientes para que se possa identificar uma mudança radical: a estrutura social dominante ainda apresenta os traços típicos do sistema patriarcal.

Por outro lado, a crítica que vem sendo feita a este sistema não significa que já tenham sido encontrados, automaticamente, novos pontos de definição e novos modelos de relações entre homens e mulheres.[13] Não existem receitas pré-estabelecidas. Trata-se de descobrir  maneiras realmente novas de viver estas relações.

É aqui que o conceito de gênero traz uma contribuição importante, para entender melhor como se dão as relações entre homens e mulheres. 

 

Conceito de Gênero 

Ao falar em gênero, o que queremos significar com isto?

Trata-se de um conceito novo, que traz consequências para a teoria e para a prática; por isto mesmo, vem sendo muito discutido. Mas não se pode negar sua importância; esta foi reconhecida, inclusive, pelas Nações Unidas, que usaram este conceito nos documentos oficiais das duas Conferências Mundiais mais recentes (Conferência Mundial sobre População – Cairo /1994 e Conferência Mundial sobre a Mulher – Beijing / 1995).

Gênero como construção social  – O ponto de partida para entender o conceito de gênero é o reconhecimento da importância das diferenças sexuais: o sexo biológico é uma característica fundamental do ser humano. Assim, quando nasce uma criança, a primeira pergunta é : menino ou menina? Neste momento, somos imediatamente identificados como tendo um sexo masculino ou feminino, e esta característica -salvo raríssimas  exceções – permanece constante durante toda a vida.

Entretanto, esta distinção física não é vivida sempre de uma mesma forma: em todas as culturas, há coisas que são consideradas “próprias de homem”  e outras que são consideradas “próprias de mulher” ; estas coisas variam conforme o tempo e o lugar. Por exemplo, em nosso país os homens usam calça mas em outros países, como na Escócia,  usam saias.

Estas diferenças são socialmente determinadas: isto quer dizer que não são uma consequência direta e inevitável das diferenças físicas, mas são definidas pela cultura. É justamente a esta construção social da sexualidade que denominamos gênero. Na definição de Barbieri, “gênero é o sexo socialmente construído”. [14]

Isto significa que gênero não é a mesma coisa que sexo: sexo é uma característica  biológica, que diferencia machos e fêmeas; já  gênero é um produto da cultura, que nos faz ser homens ou ser mulheres. Entre as duas dimensões existe uma tensão permanente.[15]

Isto significa também que as relações entre os gêneros podem adquirir expressões diferentes em cada tempo e lugar e portanto podem mudar. Por exemplo, lavar pratos era visto, até um tempo atrás, como uma atribuição exclusiva das mulheres; atualmente, muitos homens assumem esta tarefa e isto passa a ser visto como sua  colaboração para o  trabalho doméstico.

Marcando  esta possibilidade de mudança, o conceito de gênero abre possibilidades novas de pensar o relacionamento entre homens e mulheres; escapa assim da imposição de um modêlo único e permanente, que não poderia mudar porque teria como fundamento características biológicas, estabelecidas pela natureza.

Gênero como relação de poder  – O conceito de gênero estabelece que as relações de gênero são relações de poder, e que, ao longo da História, estas relações têm favorecido os homens; desta forma, permite tomar consciência desta desigualdade para poder superá-la.

Descobrir e explicitar esta desigualdade fundamental entre os gêneros não quer dizer que ela seja a única. É preciso reconhecer também a existência de outras desigualdades sociais – como as de etnia/raça, de classe e de geração –  para não cair em uma posição reducionista. Estas diferenças,  no caso do Brasil, são muito importantes.[16] Entre estes diversos tipos de desigualdade há misturas e entrecruzamentos, gerando uma situação complexa e às vezes contraditória.[17] O clássico exemplo da mulher negra e favelada  mostra bem como as desigualdades se somam. Em outros casos, pode existir a subordinação de classe no interior do mesmo gênero: no caso da relação entre empregada doméstica e patroa,por exemplo, as duas são iguais enquanto mulheres, mas há uma desigualdade de classe que estabelece subordinação.

Ao tornar evidente a hierarquia que existe entre os gêneros, o  conceito abre possibilidades para lutar por um ideal de igualdade.

Entretanto, igualdade aqui não significa a uniformidade que nega as diferenças. Não se trata de transformar todo mundo em seres totalmente iguais, mas de respeitar as diferenças, reconhecendo a igualdade de direitos. A igualdade na diversidade é o fundamento de uma ordem autenticamente democrática. Por isto mesmo, no que se refere às relações de gênero, alguns/as autores/as preferem utilizar o termo equidade, que significa a disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um/a.  Assim, ao falar de igualdade de direitos, não se nega a especificidade e a diferença que existe entre homens e mulheres; pelo contrário, o conceito de equidade recupera e valoriza a contribuição de cada pessoa à  espécie humana .[18]

A dimensão relacional do conceito de gênero – Quando as mulheres perceberam que as relações de gênero representavam uma relação de poder que favorecia os homens, tomaram consciência de sua própria opressão e passaram a lutar pela própria emancipação. Em consequência, neste primeiro momento, falava-se muito da “situação da mulher”, ou da “discriminação da mulher”, refletindo esta preocupação centrada apenas na perspectiva da mulher.

Entretanto,  pouco a pouco, as próprias mulheres foram percebendo que não poderiam mudar esta situação de desigualdade transformando apenas a sua situação: é indispensável mudar também a situação do homem. A utilização do conceito de gênero vem justamente indicar isso. Não se trata de uma simples mudança de palavras mas de um deslocamento no próprio conteúdo do conceito.[19]

Trata-se de descobrir aí um novo conteúdo, que indica a maneira pela qual o homem  se reconhece e se apresenta como homem, assim como a mulher se reconhece e se apresenta como mulher: ou seja, este novo conteúdo aponta para a maneira como homens e mulheres constroem sua identidade masculina e feminina. Esta  “construção” de identidades não se dá separadamente, cada um pelo seu lado, mas, pelo contrário, implica em uma interrelação permanente. É neste sentido que se afirma que o conceito de gênero  é um conceito relacional.

Enfatizar esta  dimensão  implica em reconhecer a importância da relação homem/ mulher , levando em conta tanto a identidade feminina quanto a masculina. Descobre-se então a importância não só da análise mas também da ação conjunta, tendo em vista relações de gênero que respeitem a igualdade na diversidade.

Para isto, há que inventar, que propor , que criar um novo conceito de masculino e feminino num contexto de liberdade, igualdade e participação[20].  E esta criação de uma nova relação entre homens e mulheres se dá, sobretudo, ao nível das experiências concretas que vão se fazendo; não é o resultado de uma teoria pré-fabricada, mas passa pelas práticas novas que tanto o homem como a mulher ousem enfrentar.[21]

Isto supõe um esforço coletivo. Para tanto, um elemento fundamental é o diálogo. Este diálogo precisa se dar, às vezes, só entre  mulheres, para que a amizade e a cumplicidade entre as que compartilham a mesma condição feminina ajudem a descobrir uma identidade comum;[22] mas outras vezes tem que se dar também entre mulheres e homens, para que tanto umas quanto outros possam repensar suas respectivas identidades, que vão se construindo justamente neste encontro.[23]

Se em um primeiro momento coube sobretudo às mulheres – enquanto polo subordinado – denunciar a estrutura de dominação, hoje é indispensável contar também com a participação dos homens, na construção de novas relações de gênero. Isto supõe não só conhecer melhor o campo da masculinidade [24] como descobrir novas maneiras de vivenciar, hoje, o que representa “ser homem”. É este um tema que vem surgindo, no momento atual  e que leva os homens a se questionarem sobre a própria identidade masculina. [25]

Pode-se ver, portanto, que o conceito de gênero é um instrumento importante para entender melhor as relações entre homens e mulheres; a contribuição que oferece às CEBs é relevante tanto para aprofundar sua análise como para iluminar sua prática.

CEBs e gênero

Construir relações de gênero que estejam baseadas na igualdade de direitos e no respeito à diversidade é uma exigência do momento atual.

No caso das CEBs, esta exigência encontra raízes também na tradição bíblica. Já o Livro do Gênesis relata que o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus e por isso são a sua obra mais importante.[26]

Mas é sobretudo na mensagem evangélica e na prática de Jesus que se fundamenta esta exigência de igualdade entre homens e mulheres. Jesus viveu em uma sociedade profundamente patriarcal, na qual a mulher era uma das figuras mais excluídas; sua prática inaugurou um processo de inclusão da mulher na vida social e religiosa[27]. Neste contexto, a prática de Jesus é profundamente inovadora[28], ao acolher as mulheres como suas discípulas e integrá-las na comunidade eclesial, como membros ativos e participantes.[29]

Nas últimas décadas, o discurso da Igreja católica vem explicitando crescentemente esta exigência: o ideal de igualdade entre  mulheres e homens vem sendo proclamado em vários documentos eclesiais, inclusive no discurso papal. [30]

Nas CEBs, por sua vez, a igualdade nas relações de gênero é uma exigência também de coerência com seus próprios princípios. Ao afirmar-se como “uma nova forma de ser Igreja” – enquanto comunidades de irmãos e irmãs, marcadas pela dimensão da participação e da libertação integral[31] – as CEBs são contrárias a todo tipo de opressão. Importa que a Igreja faça (nas CEBs) um ensaio do Reino, onde homens e mulheres possam viver em mútuo respeito e  igualdade, escrevia Hoornaert, em uma das primeiras referências a esta questão.[32] Hoje, esta preocupação já encontra formulações mais concretas. Assim,  na cartilha elaborada por  um grupo de membros das CEBs, afirma-se: As CEBs procuram ser espaços onde homens e mulheres experimentam uma nova maneira de se relacionar. Vão descobrindo seu papel social, buscam tratar-se na igualdade e respeito. Formam uma nova consciência de que é juntos que irão construir uma sociedade sem dominação, sem submissão. [33]

Entretanto, se na teoria ninguem nega o ideal de igualdade entre homens e mulheres, na prática ainda se vive, frequentemente, situações de discriminação.[34] Mesmo nas CEBs este ideal ainda não é uma realidade plena, mas vem se  concretizando através de um processo lento e laborioso.

Aqui, tomaremos como referência os Intereclesiais; estes são momentos-chave para entender de que forma a questão vem surgindo nas CEBs; ao mesmo tempo, expressam sua prática, através da participação crescente que as mulheres vêm assumindo neste encontros.

É interessante observar que a questão da igualdade nas relações entre homens e mulheres não surge através do uso explícito do conceito de gênero – que ainda é relativamente pouco conhecido, nas CEBs. Mas surge através da preocupação com a “questão da mulher”; aí está implícita a consciência de sua subordinação e a necessidade de superá-la.

Por outro lado, a participação das mulheres nos Intereclesiais se dá frequentemente através de um trabalho invisível e silencioso, “por trás”, garantindo as tarefas básicas de infra-estrutura: secretariado, alimentação, hospedagem. Neste trabalho, as mulheres participam, em geral, de forma coletiva, em “mutirão”. Por isto mesmo, é importante resgatar aqui alguns rostos e nomes, que representam um coletivo muito mais amplo.

Ao analisar o histórico dos Intereclesiais,  vemos que esta colaboração feminina é crescente: já no IV Encontro, a contribuição de Mônica  Kopf , assumindo a secretaria, foi fundamental. Mas a formulação da “questão da mulher” só vem a aparecer de forma explícita no VI Encontro, onde surge a preocupação com novas problemáticas e a expressão índio, negro e mulher assume uma importância própria. Referindo-se à especificidade da luta das mulheres, Teixeira afirma:  as mulheres que,  na prática,  levam o trabalho mais cotidiano e duro das CEBs, visibilizaram a dinâmica de sua organização na pastoral da mulher, na pastoral da terra, nas lutas de reivindicação e nos espaços eclesiais. Aí já está presente o  empenho das mulheres contra todas as formas de machismo, exploração e marginalização.[35]  Neste Encontro, a participação de Marlene Ossami foi marcante, assim como a de Ir. Luzia R. Furtado, no VII Encontro.

Mas é no VIII Intereclesial, sobre “Culturas oprimidas e a evangelização na América Latina” em Santa Maria, que a presença e a voz reivindicativa das mulheres se faz ouvir com mais força. A discussão sobre cultura  permite a emergência da questão do autoritarismo, e a Igreja aparece como uma força opressora, marcada pela cultura branca, machista, ocidental.[36]

Do bloco dos/as negros/as e das mulheres vieram as reivindicações mais contundentes. na Carta do 8o Encontro encontra-se um chamado a lutar por uma Igreja na qual a mulher tenha igualdade de direitos e seja respeitada em sua identidade feminina. As mulheres sublinham a importância do reconhecimento do seu lugar na Igreja e o seu direito de participar em todos os níveis de poder e decisão. Sua presença trouxe também uma série de temas específicos: as realidades da mulher e do negro subverteram as temáticas bem comportadas: foram entrando, exigentes, o corpo, a sexualidade, o prazer, a gratuidade, a diferença.[37] Aqui se destacou a presença de Teresa Dalmaso.

Seguindo esta mesma linha, o IX Intereclesial, em S. Luís representou um passo a frente, porém, a forma adotada foi diferente. Santa Maria foi a explosão verbal; mas S. Luís, representou um marco importante: a vivência concreta . Sem estardalhaço e sem um discurso explícito sobre a questão da mulher, S. Luís avançou ao nível da prática e abriu novas perspectivas. [38] A presença das mulheres aí foi a presença tranquila de quem já conquistou um lugar e continua lutando, sem esmorecer.[39] Esta se  fez sentir  particularmente na liturgia, nos diversos níveis da organização e na participação ativa em todos os momentos do encontro. Neste sentido, a figura de Lucineth Cordeiro Machado foi emblemática, em todos os momentos.

Talvez se possa afirmar que este encontro marcou justamente a passagem da “questão da mulher” para a afirmação do conceito de gênero. Relançando o grito pela igualdade fundamental entre homens e mulheres, a moção aprovada no “Plenarião” propôs fundamentalmente assumir a questão de gênero nas abordagens, na prática e na linguagem . Apresentou também sugestões concretas, preparando o debate a ser realizado no X Intereclesial.[40]

A forma como este tema vem sendo tratado, nos Intereclesiais, é o reflexo de uma prática que já vem se dando nas bases, há um longo tempo. Neste sentido, é importante fazer agora a avaliação  do ponto em que a questão se encontra hoje, na prática das comunidades, distinguindo avanços e desafios.

A questão de gênero na prática das CEBs – Ao analisar a experiência concreta das CEBs, hoje, podemos distinguir diversos aspectos que, ao favorecer a posição das mulheres, tendem a tornar as relações de gênero mais igualitárias.

O primeiro deles é a intensa participação feminina nas CEBs.

Já em 1978, ao fazer uma revisão dos primeiros dez anos de experiências das CEBs, Hoornaert aponta como um dos avanços importantes a percepção e a vivência do papel positivo da mulher nas CEBs.[41]

Hoje, a importância da participação das mulheres nas CEBs já é quase um lugar-comum. Quem toca as comunidades são as mulheres. São elas que animam, que cantam, que organizam as Celebrações, que trabalham na catequese – este é um depoimento que se repete em qualquer lugar.Na realidade, as mulheres são a grande maioria nas bases: estima-se que representem dois terços dos membros das CEBs. [42]

Mas não se trata apenas de números. A novidade que aí aparece não é tanto a presença da mulher – já que a religião católica sempre foi, no Brasil, tradicionalmente “feminina”, em têrmos quantitativos – mas a qualidade desta presença. Os homens não têm mais a última palavra; as mulheres começam a sentir-se em pé de igualdade.[43] Sua presença se caracteriza por ser ativa e consciente, ao contrário da participação feminina tradicional, marcada pela passividade e pela submissão.

Esta presença se dá tanto através de atividades religiosas como sociais.

No campo especificamente religioso, as mulheres dão um novo sentido às atividades tradicionalmente consideradas “femininas” – como a catequese, a visita aos doentes e o cuidado das igrejas – que continuam a realizar. Mas realizam também novas tarefas, ao assumir diversos ministérios – como Ministras da Eucaristia e do Batismo, ou como Testemunhas qualificadas do Matrimonio – e ao participar diretamente da coordenação das comunidades, em diversos níveis. Na realidade, a mulher já ocupa um lugar na prática ministerial: nunca mais vai perder o que já conquistou – afirmava um sacerdote. Por sua vez, as mulheres das CEBs têm consciência das transformações que vêm se dando; o depoimento de uma delas é expressivo: quando eu era jovenzinha, e participava do Grupo de Jovens, não podia nem fazer uma leitura na igreja, muito menos ler o Evangelho. Hoje, eu proclamo o Evangelho.

Por sua vez, aquí há um movimento de interrelação que é interessante: participando do próprio surgimento e desenvolvimento das CEBs, as mulheres trouxeram para as comunidades sua contribuição própria; mas, ao mesmo tempo, esta participação nas comunidades – que são espaços inovadores onde “se dá voz a quem não tem voz” – foi o que permitiu a afirmação das mulheres.[44]

A dimensão conscientizadora que caracteriza as CEB’s  vem representando, para as mulheres populares, uma tomada de consciência de seus direitos enquanto pessoas e a abertura de um espaço fundamental para sua afirmação. O simples fato de poderem sair do âmbito exclusivo do espaço doméstico – para as que não se encontram inseridas no mercado de trabalho – já representa uma enorme ampliação de perspectivas; e a possibilidade de encontro e de diálogo, dentro da perspectiva das CEBs, é o início de um processo de conscientização, que se baseia na descoberta da própria identidade. Neste processo, a afirmação da mulher enquanto pessoa, sujeito de direitos e deveres, é o  primeiro passo indispensável. Para a mulher, isto significa fortalecer a auto-estima. A mulher está perdendo o mêdo. Está despertando para participar como mulher, sem ter vergonha de ser mulher. Com todas as barreiras e dificuldades, é maravilhoso ser mulher, afirma uma participante das CEBs.

Por outro lado, este passo possibilita outros mais, não necessariamente previstos antes. No caso das CEBs, embora não se pensasse, em um primeiro momento, em levantar especificamente a questão feminina, a própria prática vem levando a descobrir estes questionamentos. Na visão de Rosado Nunes, a forma como a Igreja estimulou a participação das mulheres nos movimentos sociais e a organização dos Clubes de Mães conduziu à reafirmação da atribuição prioritária das mulheres à esfera doméstica. Mas, ao mesmo tempo, colocou possibilidades de criação de espaços coletivos de articulação e discussão da experiência cotidiana das mulheres. Forneceu instrumentos para sua interpretação, permitindo que as mulheres vivam de forma nova sua condição de mulher e a questionem.[45]

Assim, de forma nem sempre explícita e talvez nem mesmo consciente, a participação nas comunidades acaba jogando um papel importante no processo de emancipação feminina, ao possibilitar uma tomada de consciência dos próprios direitos. Na medida em que as mulheres se afirmam e se tornam mais lúcidas e mais críticas, assumem também, com maior firmeza e tranquilidade, a defesa de seus direitos, não só enquanto pessoas, mas também enquanto mulheres.[46]

Isto se dá através do seu engajamento na vida da comunidade, e particularmente através da reflexão bíblica: são significativos, no Brasil, os grupos de mulheres que, iniciadas a uma leitura da Bíblia a partir da ótica dos oprimidos, foram capazes de encontrar as raízes de sua própria opressão.[47]

Esta tomada de consciência que se dá através da inserção nas CEBs tem consequências para toda a vida das mulheres; ao tornar-se conscientes da sua situação de subordinação,  percebem que esta se dá em todas as áreas: na família, no trabalho, nos movimentos populares, nos partidos políticos e nos sindicatos.

Na família, a mulher tem um lugar especial, enquanto mãe/esposa/dona de casa, sempre sujeita, porém, à autoridade masculina. Hoje, esta situação vem mudando, na medida em que a mulher passa a ter um trabalho remunerado fora de casa, tem um acesso maior à educação e consegue planejar o número de filhos que deseja ter. Mas ao mesmo tempo, ao acumular o trabalho fora de casa com o doméstico, se vê sobrecarregada pela “dupla ” ou mesmo “tripla jornada”, ao assumir também a responsabilidade da militância. Aqui, as novas conquistas implicam também em novos desafios, que precisam ser enfrentados.

O mundo do trabalho, por sua vez, ainda é marcado pela discriminação: se, por um lado, houve um sensível aumento na proporção de mulheres trabalhadoras, seu trabalho ainda é frequentemente  considerado apenas “uma ajuda” e o salário médio que recebem as mulheres é claramente inferior ao dos homens.[48] Entretanto, a participação neste espaço é importante, possibilitando a independência econômica e a realização pessoal.

Também no mundo da política, a desigualdade entre homens e mulheres é sensível e se acentua na medida em que se sobe nas esferas de poder; entretanto, aqui também, as mulheres vêm ganhando espaço, sobretudo a partir de sua participação crescente nos movimentos populares e nos sindicatos.

Em todos estes níveis, o sistema patriarcal – ainda dominante – começa a ser questionado. E o processo de conscientização que as mulheres vivem nas CEBs contribui para aprofundar este questionamento.

Por outro lado, há que distinguir também, nas CEBs, o papel das mulheres que se situam na “assessoria” ( agentes de pastoral, religiosas, assessoras, teólogas). Ao partilhar a mesma condição feminina, sua atuação junto às mulheres da base adquire características especiais: há uma identificação maior e uma cumplicidade que possibilitam maior abertura e confiança. Ao mesmo tempo, seu acesso a um nível educacional mais elevado permite também formular melhor as questões relativas às relações de gênero.

Não se trata, entretanto, de um caminho de mão única; o contato com as mulheres da base também representa aprender de sua prática e de sua reflexão. E é a partir deste encontro e deste diálogo entre mulheres de condições diferentes que vai se elaborando uma nova “consciência de gênero” dentro das CEBs.

Neste grupo, é importante distinguir  o papel das religiosas “inseridas”,  que se empenham em tornar realidade na Igreja a dimensão missionária, a opção evangélica pelos pobres e o diálogo intercultural e religioso[49]. Ao estar mais próximas das mulheres da base, têm uma compreensão e uma vivência mais profunda de suas condições de vida: sua valiosa contribuição é permanente, ao nível do cotidiano das comunidades.

Também as mulheres profissionais trazem uma contribuição específica, no campo da assessoria, da formação e da pesquisa. [50] Embora seu trabalho não se dê diretamente dentro das CEBs, tem como um de seus fundamentos esta experiência  e nela se reencontra e se reflete .

Entre as profissionais, há que destacar as teólogas; o acesso ao saber teológico representou uma importante conquista para as mulheres. Elaborando uma teologia na ótica da mulher, partiram de seu compromisso com os/as pobres – seguindo a linha da Teologia da Libertação – e descobriram na mulher pobre a “pobre entre os/as pobres”[51]; hoje, as teólogas se colocam como aliadas  das mulheres dos setores populares.[52]

A participação ativa das mulheres nas CEBs – de forma direta ou indireta – questiona não apenas a subordinação de gênero, mas também de classe e de raça. De certo modo, questiona também a hierarquia eclesial tradicional, na medida em que as mulheres assumem, na prática, tarefas que antes cabiam exclusivamente aos clérigos.

Apontar todos estes aspectos positivos, entretanto, não nos pode fazer esquecer que ainda resta um longo caminho a percorrer, para que se possa falar de uma relação de gêneros realmente justa e equitativa, no espaço das CEBs. 

 As limitações eclesiais e sociais – A experiência que se realiza nas CEBs não se constroi de forma isolada; as CEBs se encontram dentro de uma instituição eclesial mais ampla – a Igreja católica.

Enquanto instituição social, inserida na História, a Igreja católica possui uma estrutura, que vem sendo marcada, ao longo dos séculos, por uma dimensão patriarcal. Ao centralizar o poder hierárquico, de forma exclusiva, na mão de homens celibatários, a instituição apresenta limitações estruturais que dificultam – ou até mesmo impedem – relações de gênero igualitárias. A possibilidade do sacerdócio feminino, atualmente, está oficialmente fechada. Não se pode negar, entretanto, que este tema vem suscitando todo um questionamento, que encontra respaldo, inclusive, na experiência diversa de outras religiões e mesmo de outras denominações cristãs. Assim, por exemplo, em algumas Igrejas Evangélicas, (nas denominações Anglicana, Metodista, Presbiteriana e Luterana – IECLB) as mulheres têm acesso ao ministério sacerdotal: há pastoras e até mesmo Bispas. Já no contexto católico, esta limitação estrutural torna mais difícil construir espaços em que mulheres e homens possam se relacionar de novas formas.

A dificuldade de transformar a estrutura eclesial é reforçada por mais uma agravante: a conjugação entre a dimensão histórica e humana com a dimensão sagrada. Tal conjugação leva facilmente  a equívocos e confusões, já que, muitas vezes, a dimensão sagrada pode servir para validar e legitimar padrões institucionais historicamente datados que, desta forma, se tornam intocáveis e imutáveis.

Mas não é apenas no âmbito eclesial que a mentalidade patriarcal é (ainda) hegemônica; ela prevalece também na sociedade brasileira como um todo e embora venha sendo questionada pelos diversos movimentos de mulheres – particularmente pelos movimentos feministas – ainda representa a mentalidade dominante. Por mais que o pessoal se esforce, racismo e machismo vêm na mamadeira. O homem se esforça na cabeça dele, mas o que está lá dentro, que ele ganhou na teta da mãe, é muito forte – afirma uma mulher das CEBs.  Esta mentalidade se encontra frequentemente introjetada não só entre os homens mas até mesmo entre as próprias mulheres. As mulheres também são machistas. Se numa família tem filhos e filhas, a mãe é que vai (educando) de forma diferente os meninos e as meninas;  por exemplo, ela manda a filha cuidar do irmão: “estende a cama dele, recolhe as cuecas que os guri jogaram no chão”. Neste depoimento, fica claro como a situação de desigualdade vai se reproduzindo.

Diante desta realidade, há que reconhecer que não se transforma de um momento para o outro uma tradição de subordinação, que vem caracterizando a situação da mulher ao longo da História.

Reconhecer esta limitação estrutural básica é indispensável para entender a situação atual das CEBs. Sua caminhada não é um processo fácil: as tensões estão sempre presentes.[53] Reconhecê-las, entretanto, possibilita também descobrir  os espaços que ainda podem ser conquistados e – quem sabe? – ampliados.

Desigualdades que permanecem, dentro das CEBs – Dentro deste quadro mais global, não é de surpreender que a supremacia masculina ainda se afirme: é por causa do machismo, esse ar de superioridade que os homens acham que têm. Isto reflete a estrutura da Igreja, muito hierarquizada – reconhece um participante homem, consciente de uma situação que ainda é dominante.

Muitas desigualdades permanecem, nas relações de gênero, no interior  das CEBs:

  • nos postos de direção, os homens assumem uma predominância crescente, à medida que se sobe na hierarquia;
  • mesmo na base, se mantem a diferenciação entre os gêneros: as mulheres são “mais leigas” do que os leigos, já que não têm acesso a certos ministérios , como, por exemplo, o diaconato[54];
  • os homens têm maior possiblidade e/ou disponibilidade para participar de reuniões, seminários e encontros, sobretudo quando estes incluem viajens. Mesmo nos Intereclesiais, a participação feminina sempre foi inferior; só no IX Intereclesial é que o número de mulheres superou o de homens.[55];
  • entre os assessores das CEBs – sobretudo ao nível nacional – o número de mulheres é sensivelmente inferior e sua contribuição ainda é limitada;
  • o importante papel realizado pelas religiosas, embora seja, na prática, similar ao do sacerdote, está longe de ter o mesmo reconhecimento oficial ou a legitimidade institucional equivalente; [56]
  • a escolha de temáticas a serem trabalhadas nas CEBs obedece a critérios “masculinos”; temáticas consideradas como mais especificamente “femininas” – afetividade, sexualidade, práticas reprodutivas – são consideradas de âmbito privado e são tratadas apenas em espaços específicos.[57]
  • o próprio esforço de análise e reflexão teórica sobre as CEBs raramente leva em conta a perspectiva de gênero.

Desafios  – Talvez o processo que se vem vivendo nas CEBs possa ser caracterizado como uma primeira etapa, em que a questão é vista como “o  problema da mulher”; neste momento, se começa a passar para um segundo estágio, cuja novidade consiste em perceber que a emergência de uma nova mulher exige e supõe um homem novo e relações também diferentes das atuais. É necessário  sair do eixo “libertação da mulher” para o eixo “masculino/feminino”, afirma Brunelli. Isto não significa escamotear a questão da opressão da mulher mas colocá-la de tal maneira que desafie também os homens e mostre que se trata de algo que diz respeito a homens e mulheres.[58]

Nesta perspectiva, podemos colocar alguns desafios:

  • Possibilitar uma participação mais igualitária nos postos de direção;
  • Investir na formação e capacitação das mulheres para que possam assumir tarefas em condições de igualdade com os homens;
  • Propiciar que as mulheres aprofundem sua dimensão de espiritualidade e se apropriem de uma autêntica e profunda experiência de Deus – o que as tornará mais seguras e mais fortes;
  • Aprofundar e difundir a releitura da Bíblia e a reflexão teológica na ótica de gênero;
  • Valorizar temas considerados “femininos” anteriormente desvalorizados (afetividade, sexualidade, reprodução);
  • Abrir-se ao diálogo com movimentos feministas, valorizando sua dimensão ética, sintetizada no esforço por estender às mulheres os direitos humanos universais. ( “Os direitos das mulheres são direitos humanos”, se afirmava em Beijing.)
  • Inserir os homens no debate e na ação por tornar as relações de gênero mais igualitárias, dentro das CEBs.  

Certamente, ainda existem muitas outras desigualdades e muitos outros desafios ; cada um e cada uma poderia fazer um esfôrço para conseguir descobrí-los, pensando em sua prática local:

– Quais as maiores desigualdades e quais os maiores desafios para a nossa comunidade, hoje, no que se refere às relações de gênero?

– Quais os primeiros passos para conseguir superá-los?         

                                                                     

(1] Este trabalho contou com as valiosas contribuições de Renata Menezes, Solange S. Rodrigues, Névio Fiorin, Davina Moscoso, Maria Clara Bingemer, Ivoni Heimer e Ir. Luzia  Furtado. Contou também com as sugestões apresentadas por ocasião da I Reunião da Equipe  Ampliada Nacional, em Ilheus (Setembro / 98). A todas/os, meu agradecimento.

[2] Sardenberg e Costa, 1994: 81

[3] Ao situar as origens do patriarcado no período neolítico, é possível pensar a dominação masculina enquanto um processo histórico , com um começo no tempo, e não como um processo “natural”, que se basearia exclusivamente em diferenças  biológicas e que, portanto, seria  imutável.  Ver, a respeito, Barbieri (1991:41) e Durham (1983:7).

[4] Arruda e Heilborn, 1997:13

[5] Durham, 1983: 7

[6] Embora as relações entre homens e mulheres tenham assumido,  em tempos e culturas diversas, formas diferentes de organização , não há prova de que o matriarcado enquanto tal  tenha existido. (Durham, 1983:6)

[7] Hobsbawm, 1994: 304.

[8] Sor Juana Inés  foi poetisa e ensaista  e suas  obras completas foram publicadas recentemente pelo Fondo de Cultura Económica  (México, 1976)  e pelo Editorial Porrúa ( México, 1985); há também uma ampla bibliografia  sobre sua obra. ( Arenal e Powell, 1994)

[9] A “Declaração dos direitos da mulher e da cidadã”redigida em 1791 por Olympe de Goujes torna claro que nas declarações ditas universais dos direitos do homem desde o início as mulheres não estavam sendo incluídas. Esta declaração traz uma compreensão da igualdade enquanto “melhoria das chances de vida para todos os seres humanos. “( Gössmann, 1997:210).

[10] O projeto de redação da Bíblia da Mulher ( Woman’s Bible – 1895 / 1898 ) , do qual participam Elizabeth C. Stanton e suas colaboradoras, nasce a partir da Convenção Americana sobre os Direitos da Mulher, em 1854. (Brandão, 1994:13)

[11] Sardenberg e Costa: 1994:83

[12] Souza Lobo, 1991: 8

[13] Luz, 1987: 80

[14] A definição completa do conceito de gênero, segundo a autora, diz: “os sistemas de gênero/sexosão os conjuntos de práticas, símbolos, representações,normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença anátomo-fisiológica e que dão sentidoà satisfação dos impulsos sexuais, `a reprodução da espécie humana e, em geral,  ao relacionamento entre as pessoas.”( Barbieri, 1991:30) Este é um  texto que se tornou fundamental, na América Latina. Ao nível internacional,  o texto clássico  é o de Joan Scott ( Ver bibliografia).

[15] Corrêa, 1997:5

[16] Sorj, 1993: 6

[17] Ribeiro, 1996: 5.

[18] Pax Romana, 1995: 25

[19] Corrêa analisa este processo, empregando  a ideia de “trânsito semântico”, para entendê-lo. (Corrêa, 1997:7)

[20] Souza, 1987:44

[21] Luz, 1987: 82

[22] O termo “sororidade”, que vem do latim “soror”= irmã, pode ser usado neste sentido, como tradução do ingles “sisterhood”, amplamente utilizado pelo movimento feminista. (Gössmann , 1997: 459)

[23] Sorj, 1993:6

[24] Sorj, 1993: 7

[25] O tema da masculinidade vem emergindo com força, como um novo objeto de estudo das Ciências Sociais. (Ver: Oliveira, 1998:91, Nolasco, 1990:57, Villa, 1997:115).  Suscita também o interêsse de grupos de homens, que começam a se organizar.

[26] Brandão, 1990:30

[27] Sella, 1997:821

[28] Bingemer, 1990:91

[29] A Teologia feminista vem trabalhando amplamente esta dimensão. Ver, entre outros, os trabalhos de Maria Clara Bingemer, Margarida Brandão, Teresa Cavalcanti e Ana Maria Tepedino, na área católica e de Ivoni Heimer e Nancy Cardoso , no campo evangélico.

[30] A encíclica  de João Paulo II – “Mulieris dignitatem” – centrada sobre a questão da mulher, enfatiza particularmente esta questão.

[31] Boff enfatiza que a “novidade” das CEBs está em seu modo peculiar de ser comunidade, condensado em duas características: participação “democrática” e compromisso “libertador.” ( Boff, 1997: 189).

[32] Hoornaert, 1972:25

[33] Trata-se da cartilha CEBs, mudar para viver: os desafios do Nono,  que faz uma  leitura da caminhada das CEBs a partir da experiência do Nono Intereclesial ( Cardoso et allii, 1997).

[34] Fazendo uma análise mais ampla da situação da Igreja e partindo das contradições que já vêm do tempo de S. Paulo,  González Vallés afirma  que não mudamos na Igreja de hoje: declaração teórica de igualdade absoluta e discriminação prática na conduta concreta. (  Vallés, 1996: 150)

[35] Teixeira, 1996:85

[36] Teixeira, 1996:140

[37] Souza, 1992:37

[38] Meu artigo sobre o IX Intereclesial (Ribeiro, 1997 : 858) recupera com mais detalhe a experiência das mulheres em S.Luis.

[39] Mesters, 1997:829

[40] É sintomático lembrar que, diante da ausência de um debate explícito sobre a situação de subordinação da mulher, durante o IX Intereclesial, foi um assessor homem – Luiz Alberto G. de Souza – que provocou a questão, levando à formulação da moção que foi aprovada no “Plenarião.”(  Ribeiro, 1997 : 860).

[41] Este texto é a primeira referência que encontramos à questão.

[42] Algumas pesquisas sobre as CEBs – particularmente as realizadas pelos ISER/ASSESSORIA – vêm se preocupando com esta questão. Entretanto, não se dispõem de estatísticas ao nível nacional, sobre a distribuição por sexo, nas CEBs. Mesmo a pesquisa ISER / CERIS – que é a  primeira e mais ampla  pesquisa quantitativa sobre as Comunidades Eclesiais Católicas , abrangendo 40% das paróquias –  não levou em conta esta dimensão , o que é também um dado significativo.

[43] Hoornaert, 1979:78

[44] Esta contriuição das CEBs para a afirmação das mulheres é unanimemente reconhecida. Rosado Nunes assim se expressa, a respeito: As Comunidades Eclesiais de Base e  os Clubes de Mães a elas ligados contribuiram, certamente, de forma inédita na história do Catolicismo, para que o “protagonismo das mulheres pobres” ocorresse, no interior da própia Igreja e na sociedade brasileira. (Rosado Nunes, 1992:25)

[45] Rosado Nunes, 1992:41

[46] Ribeiro, 1994: 145

[47] Gebara, 1991:29

[48] Embora a diferença venha diminuindo, a partir dos anos 70, a média salarial das mulheres no conjunto do país, em 1988, representava ainda um 54% daquela dos homens. ( Ver FLACSO Brasil/CEPIA, 1991)

[49] Brunelli, 1996:12

[50] A pesquisa  feita por  cientistas sociais  mulheres permite não apenas conhecer melhor a realidade, enfatizando uma perspectiva de gênero, como destaca, dentro das CEBs,  problematicas culturalmente consideradas como  “femininas”: tais como afetividade, sexualidade, práticas reprodutivas. Ver, a respeito: Rosado Nunes ( 1994) Ribeiro (1994)  e  Ribeiro e Luçan (1997) .

[51] Brandão e Tepedino, 1990:21

[52] Bingemer, 1997:210

[53]  Libânio distingue, na caminhada das CEBs,  a existência de tensões em nível horizontal e vertical: em nível vertical, o centralismo hierárquico, quer em nível paroquial, quer diocesano, esbarra com o desejo de autonomia das CEBs. ( Libânio, 1997: 788) Embora não explicite a dimensão patriarcal do poder, esta está presente e agudiza ainda mais a tensão observada.

[54] Rosado Nunes, 1992:10

[55] Ribeiro, 1997:863

[56] Talvez neste caso fique mais evidente a desigualdade nas relações de gênero, por somar-se às desigualdades nas distintas situações eclesiais. Fica também mais clara a reação que começa a esboçar-se, entre as religiosas mais conscientes, percebendo que lhes falta ainda “o verdadeiro estatuto de batizadas adultas, com plenos direitos e deveres em todos os âmbitos da vida e da missão da Igreja. “(Brunelli, 1996:6)

[57] Esta temática é tratada em Cursos de noivos, movimentos de casais e movimentos de juventude. (Ver Ribeiro e Luçan: 1997:28)

[58] Brunelli, 1996:8

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