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Dom Enemesio Lazzaris: “Na atual conjuntura, temos que afirmar os direitos das minorias com as quais trabalhamos”.

Por Luis Miguel Modino

O tráfico humano tem se tornado uma prioridade na Igreja católica. O Papa Francisco insiste constantemente nessa problemática e na defesa das vítimas. Desde essa perspectiva a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, criou a Comissão Episcopal Pastoral Especial para Enfrentamento do Tráfico Humano – CEPEETH, que está reunida em Brasília, de 13 a 16 de novembro, para avaliar sua caminhada ao longo do ano 2018 e, junto com representantes de 17 regionais da CNBB, participar de uma oficina de formação.

A comissão, “ela é formada por pessoas muito atuantes nas suas pastorais, nas suas várias realidades, nos seus vários campos”, segundo seu Presidente, Dom Enemesio Lazzaris, quem destaca que “a presença dessas pessoas enriquece muito nossa comissão”, levando para as bases muita formação e capacitação. Para o bispo de Balsas, o fato mais marcante para a comissão em 2018 foi a missão realizada em Roraima, no início do mês de março. Ele destaca que “teve a possibilidade de ver em loco a situação dos nossos irmãos que estão chegando” e que “fizemos vários encaminhamentos e a partir daquela missão quantos desdobramentos foram acontecendo. Foi um momento em que nós nos despertamos e ajudamos muita gente a se despertar e perceber aquela situação”.

Dentro da atual conjuntura, “nós nos propomos a realizar uma mesa de diálogo, de conversa, com autoridades constituídas nesse governo atual, que vigora a partir de primeiro de Janeiro, em relação sobretudo a essa questão de direitos humanos, e sobretudo em relação à questão do tráfico de pessoas”, reconhece Dom Enemesio, quem afirma que “nós queremos continuar trabalhando e contando com o apoio das autoridades”. O objetivo é “afirmar os direitos dessas pessoas, dessas minorias com as quais trabalhamos”. Junto com isso, lança a proposta de realizar alguns seminários dentro da temática do tráfico humano, e divulgar mais, fazer maior publicidade desse nosso trabalho publicando material, ao menos um folder, para dar maior visibilidade a uma problemática “tão invisível na nossa sociedade, tão invisível sobretudo nos nossos meios de comunicação”.

Nas regiões de fronteira sempre é mais presente a realidade do tráfico. Nesse sentido, Elizete Santana de Oliveira, que trabalha em Foz de Iguaçu e representa o Serviço Pastoral dos Migrantes na Comissão, destaca a importância de trabalhar em rede, tanto as instituições da sociedade civil como do poder público, municipal, estadual, federal. Segundo ela, “nós sabemos que o fenômeno da migração hoje no Brasil é intenso, não só internacional, como a realidade da migração interna, que a gente precisa dar mais visibilidade para esse fenômeno, por conta da violação de direitos que nós temos vivenciado ultimamente no Brasil”. No plano internacional destaca a questão do contrabando de migrantes e também no tráfico de pessoas, que é um mundo muito complexo e que exige das Igrejas um olhar atento, uma constante formação e presença com esses grupos que chegam nas nossas cidades.

A representante do Serviço Pastoral dos Migrantes, afirma que “o tráfico de pessoas é um assunto ainda bastante invisível, muitas pessoas acham que isso não existe e muitas vezes está muito perto de nós”. Por isso é importante uma capacitação de todos os agentes para uma melhor presença junto aos migrantes e refugiados nos diferentes regionais. Ela denuncia que no tráfico humano estão envolvidos altos escalões, políticos e empresários, o que dificulta as denúncias, porque estão escondidos. Isso exige um profetismo e fazer com que a Igreja católica seja mais atuante, mais participante nesse processo, como um trabalho sistemático de prevenção, de formação, capacitação e força para continuar na missão, porque o tráfico envolve exploração sexual de crianças, de mulheres.

Na mesma linha, Dom José Luiz Ferreira Salles, partindo do momento atual, que ele define como “muito difícil, de muita luta, de muito embate”, se mostra preocupado porque do mesmo jeito “que a gente hoje diz que os alimentos estão cheios de agrotóxico e de veneno, também aquilo que lemos, ouvimos, faz com que a gente também vai se envenenando”. Em um tempo de crise, de desafios, ele insiste em “cuidar um pouco do nosso olhar, olhar as coisas bonitas e boas que fizemos”. O bispo de Pesqueira insiste em “tomar cuidado para que este veneno não entre dentro de nós, porque nós que devemos estar ao lado dos mais frágeis, dos mais pequenos, se estivermos envenenados, poderemos também não ter uma atuação de qualidade, de ver e enxergar o grito que vem dessas pessoas. É muito importante não fechar os olhos diante desses gritos que vem dessa população que às vezes não tem ninguém por eles”.

Dentro do processo do Sínodo da Amazônia, onde o Brasil, pelo fato de ter o maior território amazônico e número de dioceses e prelazias, tem um papel importante, Roselei Bertoldo, representante da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, na Comissão, afirmava a importância da CEPEETH “estar participando também da escuta sinodal, para pautar essa grande problemática e levar para o Sínodo o tráfico de pessoas, a exploração sexual, principalmente de mulheres das populações mais vulneráveis”.

A oficina de formação é tempo de “trazer para nossa formação, para nossa partilha, para nossa capacidade de juntar teoria e prática com a reflexão sobre o tráfico de pessoas e a exploração sexual, considerando que são crimes que estão interligados e muito presentes em nossa realidade”, segundo Maria Henriqueta Ferreira Cavalcante, da Comissão Justiça e Paz, Regional Norte II da CNBB. Ela afirma que “esse tema, com certeza, ele ajudará todos os participantes a saírem daqui com maior clareza e muito boa vontade de uma organização melhor em nossos regionais, considerando que é um tema que precisam investir, trazer para o debate no âmbito de todas as pastorais e organismos para que as pessoas se aproximem mais, para que as pessoas debatam mais, para que possam considerar que há uma necessidade de termos um enfrentamento melhor enquanto Igreja e fazer com que as pessoas possam ser ajudadas a partir das nossas ações”.

A importância desta oficina, segundo a assessora, a mestre em psicologia Malu Moura, “nasce da necessidade de qualificação, de aprofundar no tema, o que ajuda para o encontro com a comunidade, com as pessoas que a gente lida no dia a dia”. É importante vislumbrar, afirma a psicóloga, que “as lideranças da Igreja católica cumprem um papel fundamental nessa linha de frente, de dialogar com as pessoas e de forma clara, coerente e com muita lucidez”.

Diante da conjuntura atual, para Malu Moura, “a formação é uma forma da gente garantir a nossa união, ter mais segurança entre nós”. Um dos desafios é “trabalhar o nível de criticidade, uma formação onde a gente abra os olhos da comunidade frente ao cenário atual que a gente vive no Brasil e no mundo, onde cada vez mais o valor humano, os direitos humanos, a construção da cidadania, ela se vê a ameaçada”, segundo a Representante do Brasil no observatório sobre tráfico de pessoas que reúne América Latina e o Caribe, onde são questionados os rumos da América, com uma linha muito conservadora nos países e que ameaça a democracia.

A formação dá a possibilidade de “fazer análises e conseguir compreender a conjuntura, e dentro dela, a gente observar com mais atenção a dinâmica do tráfico, a forma como ele opera, tanto que ele está aliançado no mundo político, econômico e social do país”, enfatiza Malu Moura. A dinâmica a seguir “é juntar o conhecimento, a experiência que cada um tem na lida com a comunidade, e a gente poder avançar na direção de garantir a justiça social e de que as pessoas se protejam, que elas não consigam cair em armadilhas que muitas vezes são até facilitadas pela linha de gestão que muitos governos têm tomado, no caso específico do Brasil”.

De cara ao futuro, é importante “seguir o trabalho de base com certeza, com segurança, acho que talvez analisar por dentro do trabalho de base, de que forma a gente pode provocar e fazer uma incidência mais positiva nesse trabalho de base”, segundo a psicóloga. Junto com isso, ela insiste em “fazer uma autocrítica e ampliar o trabalho nosso cada vez mais, com elementos da realidade, com leituras onde a gente possa desnudar a situação que tem acontecido”. Malu Moura prevê que “possivelmente a população vai se sentir muito desamparada e a gente vai ter que dar esse colo, no sentido da reflexão e de valorizar e não deixar que a política pública morra, pois nosso país precisa de um lugar onde a população se sinta respeitada, valorizada, para o não desmonte da educação, da saúde”.

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