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Celebrando o dom da vida de um defensor da vida!

Foto: Em ocasião da visita ao ex presidente Lula. site: Repórter AM.

O Monge Marcelo Barros, celebrou na última terça fera (27), setenta e quatro anos de vida. Uma vida dedicada a construção de uma espiritualidade profética e encarnada na relação humana de Jesus com o povo, com as minorias, com os pequenos e os pobres.

Ao longo desses anos, Marcelo Barros contribuiu em grandes momentos da Igreja libertadora pela América Latina. Referência na Teologia da Libertação e no diálogo inter-religioso. Trabalhou com dom José Maria Pires e dom Helder. Essas e tantas outras referências podemos agradecer a Deus por sua vida.

A seguir disponibilizamos um texto que o próprio Marcelo Barros publicou em suas redes sociais!

Ao completar 74 anos de vida….

“Bendiga a minha vida à Ternura Divina,
A seu nome, cante todo o meu ser,
De seus favores e graças sem medida,
Jamais poderemos nos esquecer.
Por toda tua vida, de bens te sacia,
Como a da águia, tua juventude se renova,
O Eterno Amor realiza sua justiça libertadora,
A quem é oprimido, liberta e promove”
(Salmo 103 – tradução do livro Diálogos com o Amor).

Hoje, ao dar graças a Deus por mais um ano de vida, me sinto um pouco como Jesus, diante do túmulo de Lázaro, ao dar graças a Deus por uma vitória da vida que ainda iria se manifestar (no caso, Lázaro ainda estava no túmulo). No meu caso, há muitas vitórias de Deus sobre a morte e doenças traiçoeiras. Há a mão de Deus me conduzindo por meio de curvas e túneis nem sempre fáceis de atravessar. Há imensa graça divina no pouco que consigo fazer em assessorias e ajudas às pastorais e aos movimentos sociais, mas principalmente no tanto que tenho sempre aprendido nesse caminho e em tantas graças que recebo dos companheiros e companheiras de luta e de caminhada.
Este ano de 2018, em vários aspectos, não foi fácil. Em janeiro, tivemos eventos importantes, como o 14º encontro intereclesial de CEBs em Londrina, palco de fortes tensões provocadas por grupos de direita que tumultuaram o encontro. Em março, tivemos o Fórum Social Mundial e com ele o fórum de Teologia e Libertação, além de uma assembleia da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Ali entreguei o cargo de coordenador latino-americano da ASETT e mesmo depois, tenho procurado colaborar sempre em tudo o que posso. Além disso, tive um calendário cheio de encontros, retiros e cursos que assessorei. Mas, pelo que todos vimos, no plano da Política, a barbárie se impôs e as eleições desse ano nos revelaram um quadro difícil para o país.
Há muitos sofrimentos diante dos quais nos sentimos impotentes. Há poucas semanas, em Pernambuco, um pai de família pobre do interior veio à capital e perdeu os seus documentos. Voltou à sua cidade e se apresentou à delegacia da sua cidade (fez o BO). Mas, os documentos foram encontrados no Recife em um carro roubado e por isso a polícia o prendeu (disse que ele deveria ter feito o BO em Ipojuca, mas também no Recife) E o rapaz está preso e até agora o advogado não conseguiu soltá-lo. Há tantos outros casos assim. Na prisão, um grupo dorme em pé por algumas horas e depois troca de lugar com os que estavam deitados que passam então a dormir de pé… Essa é a realidade brasileira. E no Paraná, Lula, inocente, é símbolo de todos esses pobres que são injustamente presos e não têm como se defender.
No hemisfério sul, novembro é final de primavera. Mas, a primavera interior nunca se acaba. É sempre tempos de novas possibilidades e de novos começos. Um tempo de esperança para renascer. Nas regiões mais frias, a primavera nasce depois da quietude do inverno. A primavera nos lembra a nossa infância e me faz lembrar que o universo brota e vive em mim. E em mim, é o universo que está sempre mudando.
A terra, mesmo agredida,
respira sempre novas formas de vida.
Quero escutar e acolher.
Prestar atenção às sementes que se abrem
Ver as raízes que crescem fortes sob a terra.
A erva verde que brota depois do frio do inverno.
Quero escutar e acolher.
Os espinhos que dão flor
e os ramos nus que se cobrem de brotos.
As flores silvestres que, ao vento, dançam nas campinas.
Quero escutar e acolher
Quero partilhar com meus irmãos e irmãs,
Essa ternura da vida que sempre teima em renascer.
Há uma espécie de gravidez da vida fora e dentro de nós,
Os ipês amarelos e vermelhos em meio ao asfalto da cidade,
Há flores que resistem e insistem mesmo em meio à secura,
Como precisamos ser na ternura e firmeza, forte resistência,
em meio às durezas e aos ataques bolsonarianos da vida.
Preciso mais de alguns anos para
Com meus irmãos e irmãs,
continuar a luta para que, no mundo e em nós,
nunca desistamos da primavera
e quero escutar e acolher esses sinais de resistência,
para dar mais amor e ternura a essa luta divina. Amém.

Foto de Capa: diocese de osório.

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