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Monsenhor Raimundo Possidônio: “ai da Igreja da Amazônia se não fosse as Comunidades Eclesiais de Base”

Por Luis Miguel Modino

Monsenhor Raimundo Possidônio: “A Igreja tem a obrigação de reconhecer o papel fundamental das mulheres nas comunidades amazônicas”

O Sínodo para a Amazônia é um momento de reflexão, de reconhecimento da vida que a Igreja da Amazônia contém. O Encontro dos Bispos de Santarém, em 1972, e as ideias que dele surgiram, recolhidas em um documento que “amazoniza” o que foi discutido no Vaticano II e na Conferência de Medellín, marca um divisor de águas na evangelização da região, na vida da Igreja local.

De acordo com o Monsenhor Raimundo Possidónio Carrera da Mata, historiador da Amazônia, Santarém abriu “a porta toda para que as comunidades proliferassem em toda a região”, ao ponto de afirmar que “ai da Igreja da Amazônia se não fosse as comunidades eclesiais de base”, porque é uma região onde os leigos, com seus ministérios, realizam a maior parte do trabalho evangelizador, tendo como base a Palavra, uma realidade que deve ser endossada no Sínodo.

Nesta dimensão laical da Igreja amazônica assumem um papel-chave as mulheres, e “quase teríamos obrigação da Igreja reconhecer isto”, afirma o Vigário Geral da Arquidiocese de Belém, pois o vigor da Igreja em qualquer lugar a Amazônia “gira em torno da liderança das mulheres”.

Falando do declínio da profecia nas comunidades eclesiais de base, reconhece que “de fato houve, ocorreu essa mudança”, por causa de “umas influências muito fortes por esse lado do pentecostalismo católico dentro das comunidades”, mas também diz que “vendo o que acontece em lugares da Amazônia, a gente ainda percebe que essa dimensão profética, ela ainda é muito presente”, algo que o Sínodo quer assumir e promover, a partir da dimensão da ecologia integral.

Na Amazônia as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, sempre tiveram uma grande importância. Neste momento em que a Amazônia está num processo sinodal, qual é o papel que as CEBs podem ter no Sínodo para a Amazônia?

Primeiro gostaria de destacar esse amadurecimento da Igreja na Amazônia, sobretudo nos últimos anos para cá. A gente acostuma dizer que tem um marco eclesiológico importante, que é a Assembleia de Santarém, que recolhe na verdade todo um longo processo anterior, que vem desde os anos cinquenta. Lá em Santarém é, de fato, essa intuição dos bispos de valorizar o que lá se chamava de comunidades cristãs de bases, depois comunidades eclesiais. Isso na verdade, abriu a janela e a porta, ou a porta toda para que as comunidades, vou usar uma palavra meio feia, proliferassem em toda a região.

Isso, de fato, marcou ou foi uma caraterística da Igreja desde o ponto de vista desse rosto eclesial que ela tem, o rosto da CEBs. Eu acostumo dizer, tenho medo de errar, que ai da Igreja da Amazônia se não fosse as comunidades eclesiais de base, porque há poucos ministros ordenados, a vida religiosa consagrada, em geral está relacionada aos grandes centros, com raríssimas exceções, quem estava no meio das florestas, dos rios, das águas, eram os leigos com as comunidades eclesiais. Creio que esse lastre, essa caminhada, ela chega ao Sínodo, com um amadurecimento muito grande.

A realidade, desde o ponto de vista eclesial, dos ministérios mudou muito. O que é que se fez, se jogou para os leigos os ministérios, a multiplicação de ministérios foi uma coisa muito importante, fruto dessa presença nas comunidades, e agora isso chega ao Sínodo numa fase adulta das comunidades, o reconhecimento desse amadurecimento e eu creio que muitas comunidades terão a oferecer à Igreja na Amazônia.

Poderíamos dizer que o Sínodo pode confirmar, quase cinquenta anos depois, as intuições que aparecem em Santarém?

Sem dúvida. O que eu acredito é que esse Sínodo pode carimbar essa marca da Igreja, o rosto amazônico da Igreja, uma Igreja comunional a partir das CEBs, sem demérito nenhum para a dimensão institucional da Igreja, mas essa dimensão carismática, profética, missionária, ministerial, ela é marcada pelas comunidades eclesiais, apesar de ter ocorrido uma mudança substancial com essa história da urbanização. O mundo urbano, ele cortou e apagou um pouco a vida das comunidades. Nessa região da floresta, as comunidades estão vivas, e o Sínodo, ele vem fortalecer muito mais essa presença.

Nessas comunidades, sobretudo no interior, uma das grandes dificuldades é a celebração da Eucaristia, que às vezes acontece só uma vez por ano. O Sínodo poderia abrir a possibilidade de que essas comunidades, por elas mesmas, possam ter a celebração eucarística?

Vou colocar uma questão problemática aqui. A questão eucarística, ela está sempre relacionada ao ministério sacerdotal, e pior ainda, o sacerdócio está ligado à Eucaristia como se isso fosse a fechadura, que involucra praticamente a vida da Igreja relacionada aos sacramentos. Se você coloca a centralidade da Eucaristia, que é uma realidade muito forte, aí você tem que falar do padre. Se não tiver o padre, você vai inventar um ministério para celebrar a Eucaristia, por exemplo os viri probati, ou os padres casados. Vai ter sempre essa dimensão bem relacional entre sacerdócio e Eucaristia.

Acho que as comunidades eclesiais de base, as comunidades da Amazônia, elas têm demostrado o vigor delas mesmo sem a Eucaristia. Essa é uma questão incontestável, que as comunidades, mesmo com essa precariedade, elas estão vivas, permanecem. Ameaçadas de tudo o que é lado, pelo poder econômico, ameaçadas pelo movimento pentecostal, que está aí. Creio que, é lógico, que a Igreja tem que fortalecer esse lado da presença eucarística nas comunidades, mas muito mais a força da Palavra, nessa dimensão de uma Igreja centrada na Palavra, e aí você tem uma valorização muito grande do laico, do ministério laico, que sejam relacionados a isso.

Eu lembro que, não sei quem falava isso, Santo Irineu, Santo Agostinho, que a Palavra, ela tem uma sacramentalidade, e nós esquecemos isso. A Palavra é um sacramento, a fé vem pela pregação, e as primeiras comunidades se sustentaram pela força da Palavra, as comunidades de São Paulo. Depois essa realidade mudou, com a figura do clero. Mas é importante destacar essa dimensão de uma Igreja centrada na Palavra. Aliás, Aparecida ela vai dizer assim, também nas comunidades onde não tem Eucaristia, só tem a Palavra, ali se vive o preceito pascal, não sei se o pessoal presta muita atenção para isso.

Essa compreensão de uma Igreja que é centrada na pessoa de Jesus, ela também fortalecida pela Palavra, o Verbo, a Palavra que está lá presente na vida dessas pessoas. Eu sei que isso é muito complicado, falar disso, mais precisa dizer essas coisas, de enfatizar esse valor dado à Palavra sem esquecer a presença eucarística.

O vigor das comunidades da Amazônia muitas vezes é conservado pelas mulheres. O Documento Preparatório do Sínodo reconhece essa importância das mulheres na Igreja da Amazônia. Poderíamos dizer que o Sínodo da Amazônia pode levar em um reconhecimento ainda maior do papel fundamental das mulheres nas comunidades amazônicas?

Eu creio que sim. Na verdade quase teríamos obrigação da Igreja reconhecer isto. Você imagina, tendo em vista essa questão que acabei de falar, se fala do valor, do vigor das comunidades, esse vigor, essa multiplicação, ela gira em torno da liderança da mulher, naquelas realidades mais distantes, devido a diversas circunstancias que não é o caso de falar aqui. Mas em geral o que a gente tem é isso, não precisamos só falar dessa questão ligada às comunidades eclesiais de base. Eu creio que nas nossas paróquias, nos lugares mais centrais, no mundo urbano, mesmo no mundo urbano, a minha paróquia onde eu trabalho, é fundamental a presença da mulher, no meio da cidade, e as lideranças principais quem são, as mulheres, bem no mundo urbano.

O Sínodo, a Igreja tem o dever de colocar isso não como uma coisa a ser, como um anexo da sua realidade, eu diria até institucional, não só carismática, mas institucional também, desse reconhecimento. Onde isso vai chegar não sei, o que vai se definir lá, não sei.  A gente sabe que o Direito Canônico, as vezes a teologia, ela fornece umas brechas para certos ministérios, talvez até para o diaconato, já é reconhecido. Até o Papa Bento XVI, um tempo atrás, ele colocava essa questão do Direito Canônico, se não me engano, com uma espécie de motu próprio, e colocava isso lá, no Direito Canônico.

Então, há essas possibilidades, de um reconhecimento de fato, de uma institucionalização dos ministérios. Se o Sínodo vai afirmar isso, eu não sei, mas seria, ao meu modo de entender, um passo a mais dado nesse amadurecimento dessa presença, reconhecimento dessa presença tão marcante da mulher na Igreja do Brasil inteiro, se a gente quiser.

As CEBs quando nasceram, sessenta anos atrás, e durante muito tempo, sempre tiveram uma dimensão muito ligada com a denúncia e a profecia. Depois, com o passar do tempo, muitas dessas comunidades se centraram mais na dimensão litúrgica. O Sínodo para a Amazônia fala de novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral, dimensão que está ligada à defesa dos povos indígenas. Como as CEBs podem contribuir nessa revitalização profética da Igreja da Amazônia?

De fato houve, ocorreu essa mudança. Eu diria, até do ponto de vista da história, devido a um bombardeio, não só externo, daqueles que viam uma ingerência indevida das comunidades nos problemas sociais, mas interno, podemos dizer uma batalha interna da Igreja institucional em relação a esse compromisso das CEBs, que ceifou o modo de entender a vida de muita gente, a participação de muita gente, as vezes, sobretudo de homens mesmo, algumas mulheres, que enveredaram pelo campo da política, enveredaram pelo campo dos movimentos sociais.

Eu percebo que as CEBs não abandonaram esse caminho, nem todas as CEBs enveredaram por um caminho mais litúrgico. Eu sei que tem umas influências muito fortes por esse lado do pentecostalismo católico dentro das comunidades, o abandono dos cantos, por exemplo, os cantos que eram cantos de força, de luta, de encorajamento, eles foram trocados pelos cantos de louvor, pela adoração, etecetera.  Mas a gente, vendo o que acontece em lugares da Amazônia, a gente ainda percebe que essa dimensão profética, ela ainda é muito presente, nas pessoas que ainda estão vivas, bispos, padres, leigos e leigas.

O Sínodo, ao colocar essas duas questões, um novo impulso para a vida da Igreja e a ecologia integral, ela integra essa dimensão profética. A ecologia integral entendida como totalidade, como tudo aquilo que vai envolvendo essa questão também relacionada à agressão do meio ambiente e essas coisas todas. Eu creio que o Sínodo, ele quer retomar isso, ele quer retomar esse caminho, do meu ponto de vista, para não esquecer que a gente tem um pé binário, um pé numa realidade e na outra.

Podemos dizer como essas Igrejas aí que pulam só numa perna, só pelo lado litúrgico, pelo lado do louvor, etecetera. Aliás eu não diria que esse é um problema só das CEBs, nas nossas paróquias, movimentos, nosso ministério também. Mas eu creio que o Sínodo pode recuperar, e com certeza vai recuperar isso, a nossa contribuição nesse caminho que está sendo feito é muito grande para enfatizar esse aspecto. Eu creio que o Sínodo vai também impulsionar, animar essa vivência das comunidades aqui na Amazônia, nessa direção também.

Foto de capa: Jornal do Feio

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