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Um olhar para a Caminhada da Comunidade Nossa Senhora de Guadalupe – Sítio Cruz

Manter uma comunidade viva, alegre, participativa, sem correr o risco de envelhecer ou cair na mesmice, exige criatividade, dinâmica, envolvimento de todas as faixas etárias; se faz necessário alimentar a fé com o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia; para alimentados, irmos além da “sacristia”, pois alimento da Palavra e do Pão nos impulsionam a sermos uma “Igreja em saída”. É necessário o envolvimento em projetos que ajudem na articulação da Fé com a Vida. É essencial que se crie um sentimento de pertença. E para desabrochar esse sentimento precisamos sair do nível de meros “tarefereiros” e provocar a Comunhão e Participação já a muito tempo presente em documentos da Igreja.

Alimentar-se do Pão da Eucaristia é comungar. Quando comungamos do Pão da Eucaristia, estamos comungando da vida e missão de Jesus de Nazaré. Nossa vida recebe a vida de Jesus que nos revigora e fortalece para assumir seus passos aqui na realidade que eu faço parte, no hoje, no agora. Só há comunhão com Jesus se houver compromissos de vida, de justiça com os mais pobres pois “quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (IJo 4,20). Comungar é coisa séria, não podemos comungar com Jesus sem comungar com os que foram criados à imagem e semelhança de Deus.O cuidado e o zelo em oferecer e participar do Pão da Palavra traz para a vida comunitária um “novo ardor” missionário, pois a Palavra de Deus é “como a chuva que cai e não volta sem deixar um sinal”. O Povo de Deus tem fome do Pão da Palavra. Rezar, estudar a Palavra nos inquieta e nos impulsiona à missão e mais importante, faz a gente acreditar que “um novo mundo é possível, necessário e urgente”; apesar e sobretudo pela existência das forças contrárias presentes na sociedade, próprias desse sistema capitalista que produz morte.

As comunidades não podem se distanciarem de sua essência que é a comunhão / compromisso com os empobrecidos, a articulação entre a Fé e a Vida. Podemos refletir o nível de amadurecimento de uma comunidade, aferindo a qualidade de vida dos pobres que vivem nessa comunidade e em seu entorno, pois assim nos ensinam as primeiras comunidades  “E não havia necessitados entre eles” (At 4,34).

Precisamos acreditar em nossos discursos, em nossas reflexões. Às vezes fico pensando que somos apenas “papagaios”, repetimos discursos bonitos, até profundos, mas não nos empenhamos em torná-los vivos, experiências de vida. O testemunho convence, o testemunho atrai, oferece credibilidade, dá moral.

Falar de uma experiência, que longe está da perfeição, mas que caminhamos na busca de sermos testemunhas de Jesus. A Comunidade N. Sra. De Guadalupe no Sítio Cruz, Garanhuns – PE teve um privilégio de conviver com a presença Franciscana ao longo de quatro décadas, presença discreta, simples e de uma comunhão profunda com Deus e os pobres. Os últimos anos apenas Frei Juvenal se fazia presente. Em outubro de 2014 Deus o chamou para pertinho Dele. Uma experiência dura, doída para a comunidade e para todas as comunidades da região. Sua partida para junto do Pai deixou em nós um compromisso de não deixar morrer seu legado que se resume numa vivência espiritual comprometida com a vida em todas as dimensões e cá estamos nós dando passos, sem pressa, mas caminhando e acreditando que seguindo os passos de Jesus, o Reino de Deus começa a se tornar realidade.

Na comunidade temos catequese, grupo jovem, evangelização, terço dos homens, equipes de liturgia, ministros da Eucaristia, coroinhas, equipe do dízimo, preparadores para o Sacramento do Batismo e da Crisma.

No espaço realizamos encontros da Comissão Diocesana de CEBs, da Comissão Ampliada das CEBs, Assembleia diocesana de CEBs, Encontros de Jovens e de Mulheres das CEBs, Festa da Colheita e acolhemos outros grupos para retiros e encontros. A Escola Fé e Política da Diocese funciona também nesse espaço.

Muito interessante são os mutirões para limpeza da área. Nessa ação é bem visível o sentimento de pertença. Quando iniciamos esses mutirões ficávamos sempre avisando, convidando, preparando lanche. Hoje eles mesmos se articulam, trazem o lanche. Deixam o espaço bem limpo, acolhedor.

Sem sombra de dúvidas, a Escola Bíblica Frei Juvenal vem nos ajudando a compreender, a vivenciar a Fé no Deus Libertador, no Deus dos pobres, dos oprimidos e essa compreensão nos enche de coragem e vontade de criar, de vivenciar experiência do Reino. Como é bom contemplar na comunidade o desabrochar de uma espiritualidade inclusiva, libertadora!

Recebem dos alunos e professor orientação de como alimentar, cuidar desses animais. É bem dinâmico. Imagine o professor chegar com aparelho de ultrassom e essa gente presenciar e até ajudar a realizar exames de ultrassom, aprender a verificar se estão com anemia, como realizar o casqueamento… A ideia é que à medida que o rebanho for crescendo as famílias envolvidas recebam crias e assim teremos uma rede de criação de cabras podendo no futuro termos um polo de criação e produção de derivados do leite de cabra. Tudo isso traz animação, vida nova para comunidade.A experiência nova, não menos nem mais importante é o Projeto da criação de cabras envolvendo 15 pessoas (crianças, adolescentes, jovens). É uma parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco – Unida Acadêmica de Garanhuns (UFRPE-UAG). Como surgiu? Saulo é filho de um ex aluno de Frei Juvenal, veterinário com doutorado, professor da Universidade nos procurou querendo realizar algum projeto na comunidade. Parceria é coisa muito importante, sobretudo quando se comunga dos mesmos sonhos. Não demorou muito e já sentimos o espírito franciscano impregnado no seu jeito simples de encarar a vida. Tornou-se irmão nosso. Ele é parceiro de verdade. Alguns dias da semana ele dorme no sítio para logo cedo se envolver nos trabalhos. Esse projeto de criação de cabras é assumido por ele com alguns alunos e pelo grupo da comunidade. O que se espera desse projeto? Que adolescentes e jovens da comunidade peguem gosto pelo trato com os animais e descubram possibilidades de ter uma vida digna na área rural sem precisar buscar fora meios para sobreviver. Algo que vai acontecendo a médio e longo prazo. A convivência com o professor e com alunos da Universidade faz esses adolescentes e jovens sonharem com a vida universitária, isso percebemos nas conversas, brincadeiras…

No momento estamos com três cabras, um bode e dois cabritos. Fizemos uma escala de serviços. Temos todas as manhãs e todas as tardes uma equipe alimentando, dando água, limpando o espaço.

Criamos espaço para confraternização, celebração de todos os trabalhos realizados na comunidade. Momento para agradecer o desempenho de todos.

Assim acreditamos “Gente simples fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, consegue mudanças extraordinárias.

Cida Souza

Matéria publicada no site Santuário das Comunidades em 21 de janeiro de 2019.

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