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Fernando López: “o Sínodo é um momento para amazonizar o coração romano da Igreja”

Por Luis Miguel Modino

A Amazônia é uma região que gera muita esperança, mas ao mesmo tempo apresenta grandes desafios. Muitos desses problemas estão presentes em muitos cantos da região e podemos dizer que eles aumentam nas fronteiras. A Igreja Católica está presente em muitas destas situações, superando as fronteiras com um trabalho comum, tentando colocar em prática aquilo que o Papa Francisco disse em um dos discursos em Puerto Maldonado, “onde há mãe, família e comunidade, pode não desaparecer os problemas, mas com certeza vai se encontrar a força para enfrentá-los de uma maneira diferente “.

Esta atitude comunitária está cada vez mais presente na Amazônia, sendo a REPAM – Rede Eclesial Pan-eclesial, um instrumento que ajudou a conscientizar a respeito. Isso se concretiza em ações específicas, como o trabalho trans-fronteiriço, onde vão se dando passos que ajudam a estar cientes e enfrentar o que dá nome ao que o próprio Francisco disse aos povos indígenas em Puerto Maldonado, “provavelmente os povos amazônicos originários nunca foram tão ameaçados em seus territórios como são agora”.

As Igrejas do Vicariato de Pando, na Bolívia, o Vicariato de Puerto Maldonado, no Peru, e da Diocese de Rio Branco, Brasil, reuniram-se em 20 e 21 de março, em uma tentativa de avançar nessa direção. Na verdade, esta é uma história que começou em 2005, quando essas três igrejas se encontraram pela primeira vez. O encontro mostrou que a pressão dos interesses econômicos está aumentando, o que nessa tríplice fronteira se concretiza na exploração madeireira e minera, tanto legal quanto ilegal.

De fato, nos países da Pan Amazônia, os governos, independentemente de serem de esquerda ou de direita, têm colocado o interesse econômico acima da defesa do território, dos povos e do meio ambiente, incentivando, ou pelo menos olhando para o outro lado, diante deste tipo de atividades. Isso causa consequências negativas para a vida dos povos, como reconhecem os povos indígenas presentes, pois tem os efeitos imediatos da falta de caça e pesca, o que dificulta a vida cotidiana.

Os problemas na região, especialmente no lado peruano, aumentaram desde a construção da chamada Rodovia Interoceânica, que é o caminho de comunicação mais ao norte da América do Sul que liga o Atlântico ao Pacífico, o que aumenta a importância estratégica desde o ponto de vista econômico. Um exemplo concreto é que, até dez anos atrás, ir de Cusco a Puerto Maldonado significava um mês de viagem e hoje leva menos de oito horas.

Isso causou grandes mudanças sociais no Vicariato de Puerto Maldonado, onde a chegada de migrantes de outras regiões do Peru é algo antigo, mas nos últimos anos, motivado pela febre do ouro, do gás e da madeira, é algo que aumentou exponencialmente. Isso teve um impacto ambiental e social, causando rupturas familiares, divisão entre comunidades, enfraquecimento do movimento indígena, tráfico de pessoas, entre outros problemas.

É um lugar de dinheiro fácil, rápido e abundante, que não se traduz em bem-estar social, melhor saúde e educação, como reconhecido pelo Dom David Martinez de Aguirre Guinea, Bispo do Vicariato presente na reunião. O bispo assinalou que só em 2018, no Vicariato, foram desmatados onze mil hectares e que recentemente o governo peruano expulsou trinta e cinco mil pessoas relacionadas à mineração ilegal em uma região conhecida como La Pampa.

São problemas que são reproduzidos no lado boliviano e brasileiro. Na Bolívia, o próprio governo não respeita os parques nacionais, em busca de gás e madeira. No Brasil, a pressão do agronegócio sobre povos indígenas e tradicionais é uma constante no estado do Acre, situação que se repete em muitos lugares da Amazônia.

Alguns passos concretos foram dados, como o trabalho de atenção e apoio aos migrantes, a produção agroecológica, o cuidado das florestas. Isso mostra que, em uma região onde as pessoas vivem juntas, mesmo se eles estão em ambos os lados da fronteira, se a Igreja quer servir essas pessoas têm de caminhar juntos, superando as fronteiras nacionais e eclesiásticas, porque tudo está interligado.

Este é um sentimento que tem sido favorecido pelo Sínodo para a Amazônia, que gerou um novo processo tanto dentro da região quanto em escala global. A este respeito, o Sínodo é “tempo para amazonizar o coração romano da Igreja”, segundo o jesuíta Fernando López, membro da Equipe Itinerante, acrescentando que é “tempo para a Igreja e para o mundo descobrir que a Amazônia é outra coisa”, de aumentar a consciência, de mudar os paradigmas globais.

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