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“Um silêncio do homem, um silêncio de Deus” (Frei Tito)

Por João Oscar

As marcas da tortura na ditadura militar são chagas abertas e escondidas na Igreja do Brasil.
As elites religiosas, ainda se viram diante dos relatos de dor e sofrimento que a mesma causou, não suportam Frei Betto, negam a memória de Frei Tito, e comemoraram a morte de Frei Fernando. O servo sofredor se atualiza na história deles e de muitos torturados e mortos por esse episódio triste da história brasileira.

Frei Tito foi preso e torturado, durante as seções de tortura, ele escreveu em 1979 na sua cela: “A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo”.

Essa esperança Nunca veio em Socorro dos presos da ditadura. Frei Tito teve asilo negado em Roma por ser considerado um padre terrorista, depois foi acolhido por dominicanos na França, onde apesar dos tratamentos psiquiátricos, retirou sua vida, pelos traumas sofridos durante os anos presos na ditadura militar.

Frei Betto foi preso por duas vezes na ditadura militar, relata sua experiência nos livros “Cartas da Prisão”, “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” e Batismo de Sangue.

FREI BETTO: “Fui torturado fisicamente na primeira prisão, em junho de 1964. Na segunda, em novembro de 1969, livrei-me da tortura física graças à intervenção do general Campos Christo, irmão de meu pai. Porém, assisti a torturas de outros presos e sofri torturas psicológicas.”

Depois dedicou sua vida à construção de Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, e a escrever seus livros. Apesar de ser muitas vezes premiado por sua luta em defesa dos direitos humanos, para parte da Igreja, é considerado terrorista.

Frei Fernando durante sua prisão teve a brilhante ideia de escrever em tiras de papel os horrores sofridos por ele e por outros presos, que depois, sob os cuidados de Frei Betto, se tornou o livro “Diário de Fernando”. Um dos relatos foi este:

“Eu chego, tiram a minha roupa, me colocam no pau-de-arara. O tempo todo, a tortura foram os choques no pau-de-arara. Orelha, pé, em todo o corpo, mas o ponto pior foi quando enfiaram o fio na uretra, aí era o ponto pior, a dor era indescritível.”

Frei Fernando veio falecer na segunda semana de março de 2019.

O atual presidente da República achou por bem “celebrar” o golpe que implantou a ditadura militar, o que nos permite reparar algumas cicatrizes, como o silêncio da Igreja na ditadura, e o nosso silêncio atual, dando voz aos nossos mártires e gerando vida em meio à morte.

#DitaduraNuncaMais

Foto de Capa: Julgamento dos Freis dominicanos, em 1971. Fonte: blog análise de conjuntura.

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