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“Um Bispo contra todas as Cercas”, entrevista com Ana Helena Tavares, primeira biógrafa brasileira de Dom Pedro Casaldáliga

Por Luis Miguel Modino

“Minhas causas valem mais do que minha vida”, uma frase marcante na vida de Dom Pedro Casaldáliga, ou simplesmente Pedro, como sempre foi conhecido na beira do Rio Araguaia. Ele é alguém que encanta, que apaixona, como reconhece Ana Helena Tavares, “eu me apaixonei pela história dele”, autora da primeira biografia escrita por uma brasileira sobre o bispo do Araguaia, “Um Bispo contra todas as Cercas. A Vida e as Causas de Pedro Casaldáliga”.

Tem sido um desafio que a jornalista carioca encarou ao longo de quatro anos, em que aprofundou no conhecimento de alguém que considera a antítese do momento atual que o Brasil vive. Na entrevista, a biógrafa mostra algumas pinceladas do livro, apresentado na Catedral de São Felix do Araguaia no domingo da Pascoa, festa da Vida, a mesma Vida pela que Dom Pedro lutou ao longo de tantos anos, que nunca esqueceu essas causas, “um homem que amou muito mais o Brasil do que muitas pessoas que nasceram neste solo”.

De onde surgiu a ideia de escrever uma biografia de Pedro Casaldáliga?

Eu fui a São Felix do Araguaia pela primeira vez em setembro de 2012, que foi quando eu conheci o Pedro pessoalmente. Eu fui a trabalho, digamos assim, eu estava fazendo uma série de reportagens sobre a Ditadura Militar, com pessoas de diversas áreas. Em determinado momento eu precisei procurar alguém da Igreja católica.

Essa série de reportagens era paro o site “Outras Palavras”, e depois foi publicado em livro, que saiu em março de 2016, “O Problema é ter Medo do Medo. O que o Medo da Ditadura tem a dizer à Democracia”. Fui a entrevistar a ele em 2012, lá na casa dele, em São Felix, para essa série sobre a Ditadura. Eu me apaixonei pela história dele, é uma história apaixonante, e depois que eu terminei de fazer o livro sobre a Ditadura, que o livro conta com 26 entrevistados, também tem outros dois da Igreja católica, que já morreram, Dom Tomas Balduino e Dom Waldir Calheiros, eu resolvi que eu iria fazer a biografia de uma daquelas pessoas que eu tinha entrevistado.

Acabei por escolher o Dom Pedro, acho que eu gosto de desafio, a biografia do Pedro foi um grande desafio, então sabia que ia ser o mais desafiador de todos, por tudo, inclusive distância geográfica, eu moro no Rio de Janeiro e ele mora lá em São Felix do Araguaia. Eu resolvi encarar esse desafio, e me apaixonei pela história dele, de tal maneira que eu também passei a usar o anel de tucum, abracei as causas dele da maneira que eu poderia abraçar, através da minha escrita. Eu me comprometi que eu iria escrever coisas relacionadas às causas dele, reforma agraria, combate à escravidão.

Pedro é uma pessoa que volta todas as causas ligadas aos direitos humanos, e ele falou no meu ouvido, antes de eu sair, a primeira vez que eu fui em 2012, ele falou uma coisa que muito me marcou, e que eu acho que ele acostuma a falar para todo mundo, que é nunca se esqueça das causas da vida. Então, eu vim com essa intenção de não me esquecer das causas da vida, e aí decidi fazer essa biografia. A história realmente é essa, é a história de uma repórter que foi entrevistar um bispo para um projeto sobre a Ditadura Militar, e se apaixonou pela história de vida desse bispo e resolveu escrever a história dele, fazer a biografia dele.

O que a figura de Pedro significa no momento que o Brasil está vivendo hoje?

Pedro é a antítese do momento atual, tudo o que não é colocado em prática no Brasil atual é tudo o que Pedro gostaria que fosse colocado em prática. Pedro está em um polo e o governo, o Brasil atual, está em outro polo, representam coisas completamente contrarias. Pedro, infelizmente, não está pudendo fazer o que ele fazia na época da Ditadura, lançar as cartas que ele sempre lançou e enfrentar o autoritarismo do governo. Se ele pudesse, ele estaria, com certeza, fazendo a mesma coisa que ele fez na época da Ditadura. Não estaria concordando com nenhuma dessas medidas antipovo que o governo atual tem colocado em prática.

Esse culto à ignorância, Pedro é uma pessoa que ao longo da vida, ele sempre se preocupou muito com o estudo, a se aprofundar em todos os temas. Esse culto à ignorância do governo atual é contrário ao culto à educação que Pedro teve a vida toda. Então, é a antítese, Pedro de um lado e o Brasil atual do outro.

Você diz que entrevistou três bispos que claramente tiveram uma postura muito profética no tempo da Ditadura. O que o Pedro poderia falar para a Igreja no Brasil hoje? O que significa a figura do Pedro diante da conjuntura eclesial que o Brasil vive hoje?

Depois que eu comecei a fazer a biografia do Pedro, foram quase quatro anos do trabalho, do início de 2015 até o final de 2018, ao longo desses quatro anos, eu fui me envolvendo obviamente com pessoas ligadas à chamada ala da esquerda da Igreja, acompanho tudo o que eu posso sobre a Igreja católica. O que eu percebo é que o Papa Francisco, ele está em um caminho e a maioria das lideranças católicas no Brasil estão em outro. Aqui no Rio de Janeiro, o arcebispo do Rio de Janeiro, o arcebispo de São Paulo, são pessoas que apontam por um caminho diferente daquele apontado pelo Papa Francisco.

O caminho apontado pelo Papa Francisco, eu imagino que seja justamente aquele ao qual Pedro, não só apontaria, se ele estivesse bem de saúde, mas continua apontando, porque ele criou uma rede, se você observar na internet, tem pessoas que usam o nome Casaldáliga como sobrenome em homenagem ao Pedro. Ele se tornou um símbolo muito grande, que é muito maior do que a pessoa física dele. Mesmo ele não estando bem fisicamente, as causas dele, tudo o que ele representa, continuam firmes.

Então, eu acho que o Pedro, ele tem a dizer, não só ele, como você falou que eu entrevistei realmente outros bispos, eu tive oportunidade de conhecer Dom Waldir Calheiros, em Volta Redonda, tomei um café e um pão de queijo na casa dele, tive oportunidade de conhecer Dom Tomas Balduino, em Goiânia. Todos esses bispos proféticos, eles apontam justamente para o que a Igreja não está fazendo.

Eu reclamei, e eu acho que mais pessoas deveriam ter reclamado, porque quando o Bolsonaro resolveu que o Golpe Militar deveria ser comemorado, e como sabemos, embora a Igreja tenha apoiado o Golpe, depois muitos membros da Igreja, inclusive bispos, foram atingidos pelo Regime Militar, pela Ditadura, acho que a Igreja deveria ter soltado uma nota imediatamente, repudiando de forma profética o que o Bolsonaro tinha decidido de comemorar o golpe, mas a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], não fez isso.

O que o Pedro aponta, o que os bispos que eu entrevistei apontam, é que a CNBB não está no caminho do profetismo, e não está no caminho do próprio Papa Francisco, que eu vejo como uma pessoa profética. Assim como você me perguntou, o que o Pedro é diante do governo atual, é uma antítese, eu acho que o Pedro é uma antítese diante da atual CNBB.

Você diz que já foi cinco vezes em São Felix do Araguaia, um local distante. Como é possível, nem só hoje como trinta, quarenta anos atrás, que alguém que morava em um local tão afastado, pudesse se tornar uma referência, nem só para o Brasil como para o mundo todo?

Pedro é uma pessoa que desde criança, ele escreveu um texto aos oito anos de idade, chamado “Memorias de um Aspirante ao Jornalismo”, demostrava uma vocação para o jornalismo. Lá na Espanha, ele participou de revistas, e aqui no Brasil, logo, uma das primeiras coisas que ele fez quando ele chegou foi fundar um jornal, que existe até hoje, é o jornal Alvorada, que foi criado em 1970, vai fazer cinquenta anos em 2020. Esse jornal, junto com outras diversas formas que ele arrumou para se comunicar, foi o que fez com que ele conseguisse que a voz dele saísse daquela região, não ficasse só ali, e fosso para outros lugares.

A Carta Pastoral, uma das mais famosas dele, que é “Uma Igreja na Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social”, essa carta pastoral foi lançada no dia em que ele se sagrou bispo. Ele foi um cara que ele se preocupou não só em se sagrar bispo, que inclusive ele nem queria, ele foi convencido a ser bispo pelo Dom Tomas, não queria. Ele não só se sagrou bispo como que no dia que ele se sagrou bispo, ele lançou uma carta de denúncia.

Em resumo, ele é uma pessoa que não só se preocupou em agir, mas em comunicar ao mundo as suas ações. Tem muitos bispos que, eu sei, são pessoas que atuam em seus lugarejos, em suas cidades, mas não se preocupam com a comunicação do que fazem, não se preocupam em usar as ferramentas do mundo de hoje. Se Pedro pudesse, estaria na internet, nas redes, no youtube de repente, porque ele sempre se preocupou em contar para o mundo, em denunciar, porque essa é inclusive uma função do profeta, é o anuncio e a denúncia, e ele sempre se preocupou em usar os meios de comunicação para denunciar. Ele é um cara que nunca se recusou a dar entrevista a nenhum jornalista, mesmo que fosse jornalista de direita, ele dava entrevista, nunca se recusou. Ele sempre teve essa