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A celebração da quinta feira santa e o papel das mulheres na vida das comunidades de base

O Tríduo Pascal se inicia com a celebração vespertina da Quinta feira Santa. A comunidade celebra a instituição da eucaristia fazendo a memória daquela última Ceia. Esta celebração tem como eixo a partilha e o serviço. Para ressaltar a importância deste eixo, nesta celebração a comunidade encena o lava-pés, inspirada na cena descrita no evangelho segundo João. O ponto central desta celebração é reviver o gesto de Jesus revelando-se como o Messias Servo e não um messias rei, triunfante e poderoso.

Segundo o evangelho de João, para demonstrar o amor que sente por seus discípulos e discípulas, Jesus faz gesto característico da mulher ou do escravo doméstico. Naquela sociedade, cabia à mulher lavar os pés de seu marido, quando ele chegava em casa. Nas casas mais ricas, o escravo doméstico, ou diácono, lava os pés de seu patrão. Neste gesto Jesus quer alertar para a importância do serviço comunitário como instrumento de comunhão fraterna entre as pessoas da comunidade. Ele diz: se eu que sou vosso mestre e senhor, lavei os pés de vocês, quanto mais vocês deverão lavar os pés uns dos outros. Ou seja, a eucaristia é antes de tudo serviço comunitário. O que reforça a comunhão entre os membros da comunidade é o serviço fraterno. Esta comunhão fraterna pedida por Jesus é simbolizada no pão partilhado durante a ceia. A partilha do pão simboliza a comunhão entre as pessoas que estão reunidas naquela Ceia. Jesus se identifica com este pão partilhado. Identifica-se também com o vinho distribuído durante a refeição.  Pão e vinho que são, para nós, corpo e sangue de Jesus, sinais de vida plena. Jesus nos ensina que eucaristia é partilhar a própria vida colocando-a a serviço dos irmãos e irmã. Comungar do corpo e do sangue de Jesus deve reforçar os laços afetivos entre as pessoas que formam a comunidade.

A comunidade Santo Antônio, que pertence a Igreja da Matriz, em São João de Meriti, região da Baixada Fluminense, decidiu direcionar esse momento às mulheres da comunidade. Muitas vezes, nas Igrejas, as mulheres são vistas apenas como pessoas que desempenham serviços gerais, um papel subjugado.
Assim o momento do Lava Pés foi uma celebração de valorização das mulheres que construíram a história da Comunidade Santo Antônio e de toda sua caminhada de fé e serviço pastoral.
Na motivação do Evangelho, também foram lembradas todas as mulheres vítimas de feminicídio no ano de 2019.
O Brasil apresenta tristes números de violência de gênero. No que tange a violência doméstica e o feminicídio, os casos são rodeados de muita crueldade cometida pelo parceiro íntimo.
Segundo os dados do Mapa da Violência 2015 da Organização Flacso, o país ocupa o 5º lugar no ranking que mais mata mulheres no mundo. Dentro das relações interpessoais, a violência doméstica inclui as várias formas de agressão ou negligência que ocorrem no âmbito familiar, onde as mulheres principalmente as de cor negra continuam sendo as principais vítimas.
Quando a Comunidade se propõe em uma liturgia do Tríduo pascal, destacar o protagonismo das mulheres e denunciar todas as formas de violência, por elas vividas, é nesse momento que vemos o sentido da Vida de Jesus.
A seguir apresentamos uma reflexão a partir do Evangelho da Missa de Lava Pés, lida durante a celebração.

Partilha da Palavra – Significado social do lava-pés

  1. O gesto do lava-pés transforma as relações de domínio em relações de serviço;
  2. O lava-pés supera as rupturas e divisões, criando relações de aliança;
  3. Inverter o comportamento egoístico em atitude altruísta é fruto do lava-pés. O outro se torna amigo e irmão; os inimigos são acolhidos como amigos;
  4. O lava-pés coloca o outro de pé, levanta os caídos;
  5. Lavar os pés é encurtar distâncias, vencer diferenças, superar divisões, transformando inimigos em amigos;
  6. O lava-pés nos coloca aos pés das vítimas em atitude de serviço;
  7. Pela força do lava-pés, ninguém mais será espezinhado, chutado, pisado pelo poder, pelo domínio, pela vingança;
  8. O lava-pés nos faz caminhantes e peregrinos em direção ao irmão;
  9. Tem os pés sujos quem alimenta ódio, raiva, vingança no coração;
  10. É indigna a celebração eucarística num contexto de discórdia e divisão, numa situação de indiferença pelos pobres, porque não está na lógica do lava-pés;
  11. O lava-pés é o abraço de reconciliação; é o encontro de perdão; é o diálogo dos diferentes;
  12. Pelo lava-pés caem à discriminação, o racismo, a exclusão, a mentalidade de privilégios e de classes. É escola de igualdade;
  13. O lava-pés é acolhimento, hospitalidade e cura dos pés feridos, pela aceitação das próprias fraquezas e das dos outros;
  14. O lava-pés é uma inversão de critérios, pela qual o outro se torna o centro. O nome do lava-pés, hoje, é voluntariado, altruísmo, solidariedade, gratuidade;
  15. O lava-pés confirma: quem salva não é o poder, mas o amor;
  16. O lava-pés faz da Igreja “casa e escola de comunhão”, onde os pobres se sentem em casa;
  17. O lava-pés nos faz misericordiosos, compreensivos e samaritanos, com a coragem da solidariedade e uma nova roupagem para a caridade;
  18. Inclinando-se para lavar os pés dos discípulos, Jesus explica de forma inequívoca o sentido da Eucaristia. O amor fraterno é a prova da autenticidade das nossas celebrações eucarísticas;
  19. O lava-pés indica o poder da ternura e a fraqueza da violência. Ou vivemos todos como irmãos, ou morremos todos como loucos;
  20. Pelo lava-pés, percebemos que quem se inclina perante o próximo eleva-se diante de Deus. É superada a relação senhor/escravo pela relação de aliança e de igualdade;
  21. Enxergamos bem, lá onde estão nossos pés. É preciso ir ao povo, ser companheiro de viagem; os pés fazem a gente ver melhor. Compremos pares de sandálias e andemos ao encontro dos outros;
  22. Lava pés é despir-se do poder, revestir-se com o avental do servo e desamarrar as sandálias, colocando-se no lugar do outro. Assim fez o bom samaritano;
  23. O lava-pés é escola de relacionamento e acolhimento, atitude de confiança que supera competições, pretensões, invejas e arbítrios;
  24. Lava pés é desejar os desejos dos outros, querer o bem dos outros, interessar-se pelos interesses dos outros, sofrer a dor dos outros e ajudar a carregar seus fardos;
  25. Lava pés é libertar-se do narcisismo, da aparência, da presunção, das gratificações, para a gratuidade;
  26. Lava pés é esvaziamento de si e elevação do outro; é a satisfação pelo bem-estar alheio. A lógica do lava-pés é não prejudicar e saber alegrar-se com o sucesso dos outros;
  27. Lava pés é compaixão, tolerância e respeito pelo outro. Tratar os outros como tratamos nossos melhores amigos;
  28. Lava pés é descer de nosso pedestal e chegar até o chão, deixando que o pó e o barro nos revelem de que fomos feitos. “É preciso colocar-se abaixo do pó que os pés das pessoas pisam” (Gandhi);
  29. Quem vive o lava-pés poderá ser um mártir, nunca um algoz.

Fonte de dados: https://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

 

 

 

 

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