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Incidência internacional, uma dimensão decisiva para o futuro da Amazônia e seus povos

A incidência internacional é uma das dimensões em que a Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, está investindo esforços nos últimos tempos, como uma estratégia que pode ajudar os povos indígenas da Amazônia para divulgar sua riqueza, e ao mesmo tempo os seus problemas e lutas. Isso significa trabalhar em conjunto com diferentes organizações internacionais, sobretudo das Nações Unidas e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

O trabalho realizado esta semana na sede da ONU trouxe um novo impulso nessa direção, o que ajudou responder ao clamor que vem dos povos amazônicos, cada vez mais assolados pelas multinacionais, empresas madeireiras, mineradoras, petroleiras e o agronegócio, e pelos próprios governos, que em todos os países pan-amazônicos deram as costas aos povos originários.

Apesar de tudo, na Igreja que caminha na Amazônia, a esperança não se perde. Como reconhecido pela Irmã Digna Erazo, do Eixo de Direitos Humanos da REPAM, é bonito de ver em um espaço comum aos irmãos e irmãs indígenas de outros continentes, religiosos e religiosas, missões permanentes de vários Estados-Membros da Assembleia Geral da ONU, companheiros e companheiras de organizações indígenas, ambientais e ONGs.

Tudo isso aconteceu no âmbito da 18ª Sessão do Fórum das Nações Unidas Permanente sobre Questão Indígena, onde participou a Representação Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, o Conselho Indigenista Missionário – CIMI, a REPAM e o Mining Working Group, que convoca permanentemente as congregações religiosas que trabalham com a ONU.

Conforme relatado por Sonia Olea Ferreras, da Subcomissão Incidência Internacional da REPAM, têm sido dias em que, em diferentes debates, tem se refletido sobre como a Laudato Si pode ajudar a cuidar da Casa Comum, uma discussão que se torna ainda mais urgente no âmbito do Sínodo para a Amazônia, que terá sua assembleia sinodal de 6 a 27 de outubro no Vaticano, ajudando a traçar um mapa que ajudará a continuar avançando. Tudo isso na perspectiva do Reino e de seu projeto, buscando uma resposta alternativa à crise ambiental e social que hoje danifica, prejudica, discrimina e extermina povos e comunidades inteiras.

Elas são sementes que vão sendo plantadas, primeiros passos que são repetidos em diferentes lugares do planeta, como apontado pelo Salesiano Justino Sarmento Rezende, indígena tuyuka, para quem tudo isso afeta toda a Terra, a toda a humanidade, o que deve levar a que “juntos, Igreja e Nações Unidas, devemos lutar, os povos indígenas de toda a terra, por nossos direitos coletivos, por nossas línguas e tradições.”

A partir dessa perspectiva, o Sínodo para a Amazônia, segundo o padre Justino, “ele deve ser um compromisso político e ético da Igreja, deve ser um compromisso prático, que não pode ser contornada pela Igreja”. No final das contas, “o que pensemos sobre a Amazônia vai ser um espelho para a humanidade, porque não servirá apenas para uma região, o que encontrarmos em nossa reflexão sobre a Amazônia vai servir como fonte iluminadora para novas formas de estar presentes como Igreja, novas formas de evangelização, nunca mais uma evangelização que ignore as culturas locais e sim uma evangelização que promova as pessoas e os povos”.

O que os indígenas querem é “viver em paz, como sempre vivemos. Com nossas parteiras, nossos curadores, nossos peixes, nossas árvores. Sabemos caçar, pescar, plantar … sabemos viver. Deixe-nos fazer como sempre fizemos”, como declarou enfaticamente diante dos presentes o líder indígena Jair Seixas Reis, do povo maraguá, que vive no estado de Amazonas, o que provocou silêncios questionadores e um aplauso final, estrondoso, nada comum neste tipo de eventos oficiais, onde muitas vezes a “diplomacia” é imposta à realidade. Não nos esqueçamos das suas palavras “sem terra não há vida. Sem vida, não há terra”.

Defender esses povos é um dos objetivos do CIMI, que através do seu Presidente, Dom Roque Paloschi, Arcebispo de Porto Velho, denunciou a violação brutal dos direitos humanos de tantas mulheres, crianças, homens, líderes, defensores dos direitos humanos, uma realidade cada vez mais presente no Brasil, especialmente com o novo governo. Nós não podemos esquecer que defender os direitos dos povos amazônicos, os direitos de seus territórios, ar, água, árvores, torna possível que sejam defendidos os de todo o mundo, mesmo se você vive a milhares de quilômetros da Amazônia.

As palavras da Irmã Digna, que vê o “ser indígena como um presente de Deus”, tornando atual o que foi dito pela fundadora de sua congregação, Madre Laura, nos leva a refletir como sociedade e como Igreja. “Eles acham que aos indígenas deveriam se tirar suas roupas tradicionais, vesti-los e senta-los em um banquinho para rezar, o que não é evangelizar. Se são tiradas suas tradições e costumes, estamos arrancando seus corações”. Esta é uma realidade ainda presente, numa sociedade que quer obrigar os povos indígenas a entrar na sociedade envolvente e numa Igreja que nem sempre escuta, atitude que não pode faltar, sobretudo depois do Papa Francisco e do Sínodo para a Amazônia.

Nesse sentido, o papel da Igreja na Amazônia é atuar diante da realidade da violação de direitos e da criminalização de tantos defensores. Esta atitude tem seu fundamentada na ecologia integral, que inaugura um novo paradigma de justiça, “uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS 49).

Pouco a pouco, a voz da Igreja Amazônica ressoa, vai se tornando proposta política, social e ambiental, mostrando que outro mundo é possível, onde a dignidade de todas as pessoas é o centro. Uma tarefa urgente e necessária, onde a REPAM quer ser um apoio claro e firme para que a Amazônia e seus povos sejam reconhecidos e respeitados.

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