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Espírito patriótico ou espírito diabólico?

Por Marcos Sassatelli

Depois da aprovação do projeto da “Reforma” da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o presidente Bolsonaro agradeceu o empenho do presidente da Câmara Rodrigo Maia e dos demais parlamentares e afirmou: o governo continua a contar com o espírito patriótico dos deputados. Que hipocrisia! Que desfaçatez!

Cortar – com frieza e crueldade – os poucos diretos que os trabalhadores e trabalhadoras pobres conquistaram com muita luta e a duras penas, é espírito diabólico e não espírito patriótico.

Disse ainda o presidente que se nada for feito, o País não terá recursos para garantir uma aposentadoria para todos os brasileiros. Mentira! Enganação do povo! Bolsonaro sabe disso e, mesmo assim, trata os trabalhadores e as trabalhadoras como se fossem idiotas!

Por que o governo desvia dinheiro da Previdência para pagar juros aos banqueiros? Por que não cobra as estrondosas dívidas para com a Previdência das empresas? Por que não taxa as grandes fortunas?

Os governantes e parlamentares que apoiam essa “Reforma” (ou melhor, Antirreforma) perversa e iníqua, são os demônios de hoje. Para obter vantagens pessoais, eles aderem a uma prática política covardemente submissa aos interesses dos poderosos, que se enriquecem sempre mais com a exploração dos pobres.  Os ricos e seus asseclas, terão de prestar conta a Deus. Aguardem!

“Agora, vocês, ricos, chorem e gritem por causa das desgraças que cairão sobre vocês. Suas riquezas estão podres e suas roupas foram roídas pelas traças. O ouro e a prata de vocês estão enferrujados e a ferrugem deles será testemunha contra vocês” (Tg 5,1-3).

Outro absurdo de Bolsonaro e seu governo é o menosprezo pela sociologia e filosofia nas escolas e nas universidades, que – infelizmente – faz parte da lógica de um governo ditatorial, disfarçado de democrático. Esse governo quer que os trabalhadores e as trabalhadoras sejam meras máquinas de produção para enriquecer os detentores do poder econômico. Se forem pessoas conscientes que pensam e exigem seus direitos atrapalham os objetivos do governo.

A filosofia – além de ser parte integrante da formação do ser humano enquanto ser racional – é também uma dimensão de profundidade de todas as ciências: exatas, biológicas e humanas (aliás, do ponto de vista do sujeito do conhecimento, todas as ciências são humanas). Por exemplo, um verdadeiro físico é também filósofo da física; um verdadeiro matemático é também filósofo da matemática; um verdadeiro biólogo é também filósofo da vida; um verdadeiro educador é também filósofo da educação; um verdadeiro historiador é também filósofo da história; um verdadeiro jurista é também filósofo do direito. E assim por diante.

Enfim, entre os muitos que ainda poderiam ser lembrados, cito mais um absurdo desse governo, que representa um inimaginável atraso cultural e ético. Bolsonaro e sua equipe de pessoas, na maioria desiquilibradas e ditatoriais – afirmam que a propriedade particular é um direito “sagrado” (verdadeira blasfêmia!); que os Movimentos de Trabalhadores e Trabalhadoras – que lutam pelo direito à terra (um direito de todos e não só de alguns) e que organizam Ocupações de latifúndios improdutivos – são Movimentos de criminosos; e que os “proprietários” podem defender suas terras com armas de fogo, matando – se necessário – os ocupantes. Em caso de morte, os “proprietários” poderão ser chamados a depor em juízo, mas – garante o presidente – por serem “pessoas de bem”, não serão condenados. Que loucura! Que barbárie!

Bolsonaro e sua equipe esquecem – ou fingem de esquecer – que toda propriedade particular, para ser legítima, deve ter uma função social; que (como diz São Tomás de Aquino, cujo pensamento foi assumido pelo Ensino Social da Igreja) a destinação dos bens para o uso de todos os seres humanos é um direito primário e a propriedade particular, um direito secundário (que nunca pode prejudicar o primário).

Ah, se os governantes e políticos – que, com tanta facilidade, usam o nome de Deus em vão – refletissem sobre o projeto de vida, radicalmente revolucionário, de Jesus de Nazaré! Ele é também – ao menos como ideal a ser perseguido – o projeto de seus seguidores e seguidoras. “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum. (…) Entre eles ninguém passava necessidade. (…) O dinheiro era distribuído a cada um conforme sua necessidade” (At 4,32-35).

Dia do Trabalhador e Trabalhadora! 1º de Maio Unificado, rumo à Greve Geral (14 de junho)! A luta dos Trabalhadores e Trabalhadoras é justa e Deus está do seu lado! (Leia também: http://www.ihu.unisinos.br/588044-uma-reforma-da-previdencia-maquiavelica).

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 01 de maio de 2019

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