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Coronelismo devastou matas e escravizou o povo

Por Gilvander Moreira

Nascido em 1953 e criado na fazenda Monte Cristo, no município de Salto da Divisa, na região do Baixo Jequitinhonha, MG, o Sem Terra Aldemir Silva Pinto, assentado no Assentamento Dom Luciano Mendes, testemunha: “Todo o município de Salto da Divisa era mata. Toda a mata foi derrubada com machado, com motosserra, pelos braços de milhares de trabalhadores. Colocavam fogo na mata que queimava durante trinta dias.”

 Os fazendeiros colocavam os empreiteiros para derrubar a mata e transformar em pastagem de capim colonião. Os agregados podiam fazer uma pequena roça para a subsistência – mandioca, banana, milho, abóbora, feijão, batata doce, arroz e alguma verdura -, mas no ano seguinte não podiam replantar. Relata Aldemir: “Os agregados podiam criar galinha e porcos, mas todos deviam estar aramados, isto é, com um arame no focinho para não fuçar o capim. O capim não podia ser tocado. Ai de quem arrancasse um pé de capim. Só capim deveria ficar. A gente fazia cerca apenas na frente da roça. O excesso de produção a gente vendia na feira no Salto da Divisa. Quando eles precisavam, eles compravam feijão e arroz dos agregados. Como toda a região era mata, os fazendeiros colocavam os trabalhadores para abrir a mata pra frente. Naquela época chovia muito. A COBRAS era uma serraria que tinha no Salto da Divisa, que serrava madeira e vendia pra fora. A COBRAS abriu estrada para carrear a madeira. Com seis juntas de bois, cansei de arrastar madeira pra fora da mata até uma praça onde os caminhões pudessem pegar a madeira. Primeiro, se jogava a madeira em cima dos caminhões no braço, depois com uma catraca. Só na fazenda Monte Cristo – que tinha 19 mil hectares -, ao longo do rio Piabanha, de um lado e do outro, até a cabeceira, havia 366 famílias que moravam como agregadas. Esse processo foi até acabar com as matas e virar tudo capim. Era a época dos coronéis. Se eles dissessem: ‘Você não deve passar mais aqui’ tinha que ser obedecido. Eles iam pisando devagar, encurtando o jeito de o sujeito viver, encurtando o direito de fazer roça e quando eles chamavam para trabalhar para eles tinha que ir. Se não fosse, era motivo para ser expulso. O gerente falava na cara. Iam azucrinando a pessoa até ele sair. Colocavam o gado para comer a roça. Cerca era de madeira. Não tinha arame ainda. Não adiantava plantar porque o gado comia tudo. Muita gente daqui foi embora para o Pará, porque se ouvia que era fácil conquistar terra lá. Eu fui o último dos 366 chefes de família a sair. A gente criava um jegue para carregar carga. Eles davam uma vaca para a gente amansar e tirar leite. Se alguém fizesse um crime e chegasse aqui, o coronel Tinô dizia: ‘entre lá pra dentro’. E ninguém mexia com a pessoa. Aqui era um fim de mundo. Tinha chegada, mas não tinha saída. A dona Inhá – esposa do coronel Tinô – mantinha o hospital de Salto da Divisa, ela dava leite para as pessoas carentes e na época do Natal ela mandava matar uma vaca e dividir com os agregados. Quando eu fui casar, fiquei sentado ao lado dela umas três horas e ela fazendo pergunta. Ela era uma conselheira do povo. Quando via passando na televisão sobre o MST, eu pensava: ‘o dia que chegar aqui na região, eu vou pular dentro da luta pela terra’. Hoje estou assentado na terra, onde fui ameaçado por um capacho do latifúndio que me acusou de estar roubando terra quando nós acampamos lá na fazenda Manga do Gustavo na madrugada do dia 26 de agosto de 2006, dia da morte de Dom Luciano Mendes. Disse que iria incendiar o nosso acampamento e matar quem resistisse. Disse que se eu denunciasse, eu seria o primeiro a morrer. Denunciamos essas ameaças em audiência pública com o deputado Rogério Correia. Não tive medo dele. Isso foi em 2012, seis anos após o início do acampamento Dom Luciano Mendes”.

De trabalhador ‘escravo’ dos latifundiários a Sem Terra assentado no Assentamento Dom Luciano Mendes, na fazenda Monte Cristo, Aldemir narra como era a realidade em Salto da Divisa há uns 30 ou 40 anos: “Nasci e me criei aqui no município de Salto da Divisa, nas terras da fazenda Monte Cristo. Saí de lá para colocar meus seis filhos pra estudar na cidade. Não tinha escola nas fazendas e nem estradas. Conheço toda a região aqui como a palma da minha mão. Mas continuo Sem Terra rodando no trecho. Há cinquenta e poucos anos tinha muita gente na roça. Só o coronel Tinô e a dona Inhá Pimenta tinham 366 famílias agregadas em uma fazenda de 19 mil hectares. João Neto, gerente geral, apelidado de Danga, era gente boa e quando bebia uma pinga contava tudo pra gente. Ele nos mostrava a relação de todos os agregados. Dona Inhá era muito caridosa. Ela dava vaca para os agregados tirarem o leite, deixava quem queria plantar sua roça, criar galinha e porcos, gado não. Isso para cada agregado manter sua família. No Hospital em Salto da Divisa tinha médicos de tudo. Dona Inhá enviava cem litros de leite para o hospital todos os dias. Para a gente fazer uma consulta no hospital, a gente tinha que pegar uma ordem por escrito com o gerente da fazenda. Minha mulher adoeceu. Eu a levei para o hospital e ela não foi atendida, porque não tinha ordem do gerente. A partir daquele dia, tomei a decisão de não mais trabalhar para o fazendeiro. Foi muito injusto o que ele fez comigo e com minha esposa. Três dias depois, ele chegou a minha casa e me chamou no terreiro e começou a me xingar. Escutei muito e depois comecei a xingá-lo. E se ele não tivesse corrido, eu teria furado ele com minha faquinha. Alguns dias depois, ele insistiu para eu voltar a trabalhar, mas resisti e ele pediu que eu ensinasse outro companheiro a carrear com os bois”.

Esse poder do dono da terra ou do gerente do proprietário da terra vem de longe. “Não era a dívida apenas que prendia o colono ao cafezal, mas o fato de ser um trabalhador livre de meios de produção, sem alternativa senão a de trabalhar nas fazendas da grande lavoura” (MARTINS, 2013, p. 54). O controle do fazendeiro sobre o colono agregado chegava ao ponto de ser necessária autorização do fazendeiro ou do administrador da fazenda para que o colono pudesse se ausentar da fazenda para ir à cidade mais próxima para visitar um parente ou um conhecido (Cf. MARTINS, 2013, p. 242). Em Salto da Divisa, esse coronelismo vigorou durante várias décadas até que se construíram as condições históricas materiais para questioná-lo.

Belo Horizonte, MG, 02/7/2019.

Por Gilvander Moreira[1]


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB, CEBs e Movimentos Sociais Populares; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III

Referência.

MARTINS, José de Souza. O Cativeiro da Terra. 9ª edição. São Paulo: Contexto, 2013.

Obs.: Abaixo, vídeos que versam sobre o assunto apresentado, acima.

1 – Comunidade Quilombola Braço Forte, em Retomada/Salto da Divisa, MG/A luta pela terra/09/6/2016.

2 – Terras devolutas Salto da Divisa, MG, tem muito. Povo Sem Terra repudia opressão a CPT. 10/06/2016

3 – 76 anos, Sr. Manoel, 63 anos com 12 famílias tradicionais/cabeceira da Piabanha/MG. 08/6/2016

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