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O VII Encontro Intereclesial de CEBs: Povo de Deus na América Latina a caminho da libertação – Duque de Caxias, RJ

Há 30 anos, no dia 10 de junho de 1989, o povo aglomerado no campo do Centro Esportivo canta “Irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra, um novo mar/  E neste dia, os oprimidos, numa só voz, a liberdade irão cantar!” abrindo o 7° Encontro Intereclesial das Cebs. O bispo dom Mauro Morelli, apontando para o Corcovado, lembra que as CEBs estão hoje do lado esquerdo do Crucificado, o lado do coração.
Um teólogo presente no Intereclesial, Faustino Teixeira, dirigiu o documentário na Terra Santa da Baixada e publicou diversas análises. Publicamos a seguir o artigo Os Intereclesiais das Cebs: Identidade em Construção – Perspectiva Teológica, 29 (1997) 155- 187:

O VII Encontro Intereclesial aconteceu na cidade de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, no ano de 1989, e teve o seguinte tema básico: CEBs: Povo de Deus na América Latina a Caminho da Libertação. Um traço peculiar deste Intereclesial foi o seu caráter urbano.

Pela primeira vez se favoreceu o entrelaçamento dos participantes com a cidade. Em razão do número expressivo de participantes, cerca de 2.550 membros, mais de mil famílias das cidades de Duque de Caxias e São João de Meriti abriram suas casas para acolher os delegados. Dentre os participantes estavam 85 bispos católicos, cinco bispos evangélicos, 43 pastoras e pastores e 30 representantes dos povos indígenas.

Este Encontro ocorreu num momento delicado da conjuntura eclesial. Sobretudo a partir de 1984 setores particulares do Vaticano não pouparam energias para questionar incisivamente a Teologia da Libertação e as experiências eclesiais a ela associadas, sobretudo as CEBs. A primeira instrução da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a teologia da libertação, publicada em 1984, denuncia “desvios” e “riscos” no método de interpretação da realidade, presente na reflexão teológica latino-americana, sobretudo o “imanentismo historicista” e a “politização das afirmações de fé”. Estas reflexões estariam, conforme a mesma instrução, sendo largamente difundidas e de forma simplificada nos “grupos de base”, comprometendo a “transcendência e gratuidade da libertação de Jesus Cristo.”[i]  No ano seguinte, 1985, sai publicado o livro do cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: Rapporto sulla fede. Neste livro apresentam-se os traços essenciais da dinâmica de “restauração” já em ato na Igreja, entendida como busca de um novo equilíbrio depois dos “exageros” pós-conciliares.

O processo de “restauração” atinge teólogos brasileiros, que acompanhavam as Comunidades de Case como assessores. O processo contra o teólogo Leonardo Boff inicia-se em 1984, desembocando, em 1985, no período de “silêncio obsequioso.” O biblista Carlos Mesters, responsável pela elaboração de um original método de interpretação bíblica voltado para o trabalho da pastoral popular, sofre posteriormente reprimendas em razão de sua assessoria ao Projeto Palavra-Vida da CLAR. A crítica estende-se dos teólogos para a própria experiência das CEBs. Um dos bispos brasileiros, que havia participado do Encontro de Trindade, publica um artigo, depois desenvolvido em livro, levantando interrogações críticas sobre a instrumentalização político-ideológica e partidária das CEBs e os limites impostos à sua eclesialidade.[ii] Outros bispos brasileiros levantam interrogações sobre a experiência em jornais de circulação nacional.[iii] Simultaneamente, projetos pastorais de grande alcance no Brasil estavam sendo desarticulados ou ameaçados, como é o caso do trabalho de Dom Hélder Câmara, no Recife e o de Dom Paulo Evaristo Arns, com a subdivisão da Arquidiocese de São Paulo. Bispos brasileiros mais abertos e sintonizados com a caminhada das CEBs viviam momentos de questionamento e pressão. Dom Pedro Casaldáliga, bispo da Prelazia de São Felix (MT), recebe cartas de advertência da Congregação dos Bispos e é convocado para uma visita ad limina, sendo interrogado em Roma pelos cardeais Ratzinger e Gantin.

Num Encontro Intereclesial de tal amplitude esta problemática acabava necessariamente ecoando na dinâmica interna do evento, gerando em alguns casos perplexidade e desorientação. Em memorável colocação sobre a eclesialidade das CEBs durante o evento, Leonardo Boff mencionou o clima de “inverno” que desceu sobre setores da Igreja, causando sofrimento a tantos cristãos.

O momento delicado da conjuntura eclesial não apagou a riqueza e a vitalidade das comunidades neste Intereclesial, um sinal vivo de sua esperança e alegria pascais. A presença de quase noventa bispos católicos falou por si. Em artigo publicado na Folha de São Paulo, logo após o Intereclesial, Dom Luciano Mendes de Almeida, então presidente da CNBB, reconfirmou a forte presença da dimensão eclesial no evento, visibilizada na “leitura da Bíblia, na fidelidade e união aos pastores e no serviço aos cristãos, colaborando com valores evangélicos, para a construção da sociedade livre e solidária“.[iv]

A temática geral do Encontro foi subdividida em três questões específicas:

  1. No primeiro dia, trabalhou-se a situação da América Latina: as marcas comuns do sofrimento do povo latino-americano e os sinais de resistência e esperança presentes em suas lutas.
  2. No segundo dia, refletiu-se sobre a relação entre fé e libertação e as motivações de fé na luta pela transformação da sociedade. A proximidade da eleição presidencial no Brasil e as possibilidades de vitória  das esquerdas acionava e aquecia as discussões e debates no Encontro. Retoma-se e aprofunda-se a questão partidária nas CEBs, em especial o desafio da formação política dos cristãos e do acompanhamento dos cristãos engajados como parte de responsabilidade de toda a Igreja. A convicção da importância do engajamento em favor de uma sociedade econômica e socialmente participativa e democrática é assumida por todos, mas a fisionomia do projeto político desejado revela-se ainda rarefeita e objeto de amadurecimento.
  3. O terceiro dia foi consagrado ao tema da Eclesialidade das CEBs. As reflexões tecidas no Intereclesial indicaram que as CEB exercem não só um papel essencial na afirmação da cidadania social dos pobres,[v]  mas propiciam igualmente a consciência de uma nova cidadania eclesial. Animadas pela Palavra de Deus, elas são portadoras do “sonho de Jesus”, de sua gramática libertadora para a história.[vi] O seguimento a Jesus vem traduzido nas comunidades como serviço, participação, partilha e comunhão. Trata-se de uma caminhada em união com os pastores,[vii] que são também profeticamente interpelados no sentido de um maior compromisso na construção de uma nova sociedade.

A dimensão ecumênica foi um dos destaques do VII Intereclesial, revelando mais uma vez o traço singular oferecido pela América Latina ao mundo, ou seja, um ecumenismo novo, nascido do serviço comum à missão libertadora. Na Carta final do Encontro, sublinhou-se que “o sinal do Reino que mais marcou o VII Encontro foi o passo dado em busca do ecumenismo.”[viii] De fato, tratou-se de um passo dado em direção a mais do que uma realidade tranqüila e já assumida pela experiência em curso. A sensibilidade para o encontro e o diálogo com o outro, com o diferente, constitui já um sinal anunciador e antecipador não só de um novo rosto eclesial mais sinfônico, mas também de uma humanidade renovada. É pertinente observar que esta temática irá assumir um papel cada vez mais decisivo nos Intereclesiais seguintes, inclusive na ampliação para a perspectiva inter-religiosa.

 Como nos Encontros anteriores, a dimensão celebrativa foi um marco decisivo do Intereclesial de Duque de Caxias. Vale ressaltar a dimensão de acolhimento e comunicação de massa, a grande presença de símbolos e gestos da caminhada, sua abertura ecumênica e conteúdo sócio-libertador. Algumas dificuldades já assinaladas em Encontros anteriores foram apontadas pelos assessores que se ocuparam mais desta questão: a dificuldade de articulação entre o momento de expressão crítico-social e o momento de gratuidade; a importância de uma maior inculturação das liturgias na religião popular; a necessidade de uma maior sensibilidade antropológica com respeito à dinâmica simbólica, evitando-se o risco seja de sua racionalização, ou de sua utilização inflacionária; a importância de um cuidado maior na preparação e coordenação das celebrações. Enfatizou-se ainda, na mesma linha de Encontros anteriores, a necessidade de uma maior inculturação da liturgia eucarística.[ix]

O início dos anos 90 foi palco, em nível mundial, de grandes transformações sócio-políticas e econômicas. Um dos acontecimentos históricos de maior impacto foi o colapso do comunismo no Leste europeu (1989) antecipando o colapso do regime existente na União Soviética (1991). No espaço aberto por esta crise, o crescimento e fortalecimento da ideologia neoliberal, que vinha se firmando desde os anos 80 nas regiões do capitalismo avançado, sobretudo na Europa e América do Norte, tendo como componente essencial um anticomunismo intransigente. Se, anteriormente, o medo da ameaça socialista impelia o Capitalismo a preocupar-se com a democracia política, com a previdência social e o estado de bem-estar social, a derrocada do socialismo real liberou-o de freios em nível mundial, e agora campeia solto com a ideologia neoliberal, nas águas da globalização. No Brasil, o modelo neoliberal foi adotado a partir do governo Collor (1990) estando hoje em plena fase de revigoramento.

A hegemonia do neoliberalismo no Brasil provocou a desregulamentação da economia, liberando as travas para a livre circulação do capital; abriu espaço para o capital privado, através da ênfase na privatização e suscitou a diminuição do investimento público em políticas sociais (corte no déficit público). Os setores populares foram os primeiros a brindar suas conseqüências: cerceamento na perspectiva de ingresso na esfera de bens e direitos sociais, crescente desigualdade social, aumento descomunal do desemprego. Em suma, o aprofundamento da exclusão social.

A crise do pensamento marxista e o desmantelamento do socialismo real no final dos anos 80 provoca, sem dúvida, um descompasso no imaginário político dos segmentos populares envolvidos nos projetos de libertação. As possibilidades de se pensar uma sociedade alternativa ao Capitalismo fica bloqueada e instaura-se um clima de certa perplexidade e desencanto. O movimento popular, e também as CEBs, vive a experiência da subtração de “um dos conteúdos reais que dava suporte à sua utopia.”[x]  Nas CEBs, esta experiência é vivida com a crise da idéia de uma “nova sociedade”. Mas, curiosamente, talvez em razão do contrapeso do horizonte utópico do Reino de Deus, mantém-se vivo, ainda que de forma difusa, o desejo de urna sociedade distinta e libertária, ou ainda melhor, o desejo de uma vida   nova e de um mundo diferente.[xi]

 Com respeito à conjuntura eclesial católica, os anos 90 refletem a continuidade do projeto da busca de um “novo equilíbrio eclesial”, agora articulado com o projeto de uma nova evangelização. O apoio ao projeto participativo das CEBs permanece ofuscado na dinâmica do projeto centralizador que atravessa quase hegemonicamente a instituição católica. A força do projeto de centralização conservadora revela-se, sobretudo, no processo de sua dinâmica interna, tanto em nível da Igreja universal com em nível das Igrejas locais. Verifica-se uma evidente “desaceleração” de todos os projetos participativos e libertado- res.[xii] Urna análise coerente da conjuntura eclesial não pode, porém, limitar-se ao itinerário das esferas institucionais. Neste campo, de fato, o horizonte é mais sombrio.

Há outro lado da realidade, que manifesta a imensa vitalidade da Igreja do Brasil, em particular das CEBs, em seu crescimento e consolidação, sempre atenta e disponível aos novos desafios e sinais dos tempos.[xiii]

Segue o link do 7º Intereclesial das CEBs dividido em três partes:

NOTAS

[i] CONGREGAZIONE PER LA DOTTRINA DELLA FEDE. Istruzione sulla teologia della liberazione. Bologna, EDB, 1984, n”s VI-9; IX-S,lO, 11; XI-15.

[ii] CASTANHO, Dom Amaury. Caminhos das CEBs no Brasil. Reflexões críticas. Rio de Janeiro, Agir, 1987. Jornal do Brasil – 23/06/89;

[iii] VELOSO, Dom José Fernandes. “Por falar em CEBs”, FALCÃO, Dom José Freire. “As CEBs, uma resposta?”, Jornal do Brasil – 07/07/89; NEVES, Dom Lucas Moreira “Já que não vou a Caxias”, Jornal do Brasil – 12/07/ 89.

[iv] ALMEIDA, Dom Luciano Mendes de. “VII Encontro de comunidades”, Folha de São Paulo – 15/07/89.

[v] Como se sublinhou na Carta do VII Encontro, as CEBs “criam um espaço onde o povo se sente gente, retoma a palavra, recupera a memória, refaz a história e experimenta algo da liberdade, para a qual Cristo nos libertou.” Nelas “o índio e o negro reencontram o seu lugar e redescobrem a sua identidade e missão”, nelas “a mulher se sente digna, valorizada, luta contra o machismo que discrimina e participa com o homem na sua organização.” Cf. TEIXEIRA, Faustino. Os Encontros… Op. cit., p. 196.

[vi] Boff, Leonardo. “Eclesialidade das CEBs”, Revista da Arquidiocese  n.7, 8, 9 (1989) 356-365, Goiânia (trata-se da síntese do terceiro dia feita no grande plenário).

[vii] Ibidem, p.

[viii] Carta de Duque de Caxias. In: TEIXEIRA, Faustino. Os Encontros … Op. cit., p.196.

[ix] LIBÂNIO, João Batista, “VII Encontro Intereclesial das CEBs: o evento”, REB, 49 (989) 522; SOUZA, Marcelo de Barros, “Quando a celebração e vida se confundem”, REB, 49 (989) 543.

[x] STEIL, Carlos. In: LESBAUPIN, Ivo. et alíi. Para entender a conjuntura atual. Petrópolis, Vozes, 1996, p. 44. Ver também BOFF, Clodovis. “CEBs: a que ponto estão e para onde vão”. In: Vários. As comunidades de base em questão.Op. cit., p. 277.

[xi] Clodovis Boff destacou com acerto esta sêde de nova utopia nas CEBs. Cf. BOFF, C. “Comunidades eclesiais de base e culturas”. In: TElXEIRA, Faustino et alii. CEBs: cidadania e modernidade. Uma análise crítica. São Paulo, Paulinas, 1993, p. 86. Ver tb. LESBAUPIN, Ivo. “As comunidades de base e a transformação social”.In: Vários. As comunidades de base em questão. Op. cit., p.74.

[xii] BOFF, Clodovis. “Uma análise de conjuntura da Igreja católica no final do milênio”.In: LESBAUPIN, I. et alii. Para entender a conjuntura atual. Op. cit., p. 51-81.

[xiii] BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil. De João XXIII a João Paulo II – De Medellín a Santo Domingo. Petrópolis, Vozes, 1994, p. 291.

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