Sínodo para a Amazônia

Dom Sergio Castriani: “Sair da sacristia”

A preparação do Sínodo da Amazônia tem dado muito o que falar. O fato da Igreja estar tocando em assuntos que aparentemente não são de sua alçada, tem levado empresários, generais e políticos a se posicionarem contra o fato das Conferências Episcopais estarem falando de mudanças climáticas, desmatamento, poluição das águas e do ar.

Um general chegou a sugerir que se os bispos quiserem os dados sob o meio ambiente deveriam procurar o governo, que tem instituições competentes para monitorar e implementar medidas eficazes na proteção de nossa biodiversidade e potencial hídrico. Ora, o Papa fez mais que isto ao escrever a Laudato Si, chamando os mais renomados cientistas para colaborar, no documento que é o carro chefe deste pontificado e o verdadeiro pai do Sínodo da Amazônia.

Sentindo-se incomodados pela fala dos que foram constituídos protagonistas do processo sinodal, os povos originários, que denunciaram a onda de destruição e morte que os atuais governantes estão impondo à região, apelaram para o velho chavão de que Igreja boa é aquela que fica na sacristia falando de temas espirituais, como se fé e vida não se tocassem. Religião trata de temas espirituais e morais individuais, mas quando o assunto é sério, sobretudo quando entra a razão do mercado, a religião não tem mais nada a dizer?

O cristianismo não é assim. A nossa fé diz que o Verbo de Deus se encarnou, se fez homem e habitou entre nós. Deus entrou na história humana e está comprometido com ela. Podemos dizer que Deus ao se submeter às leis da natureza em Jesus sofre junto com a humanidade a destruição do meio ambiente que afeta todas as criaturas. E, como Paulo, sabemos que os sofrimentos da humanidade completam os sofrimentos de Jesus. Esta é a razão profunda pela qual a Igreja se coloca como voz dos que não tem voz. Não é só a razão de mercado que tem razão. E a razão é que Deus amou tanto o Mundo que enviou seu Filho para salvá-lo. A encarnação tem a finalidade de recriar o mundo.

É impossível para a Igreja ficar calada diante das injustiças e da opressão a que foram submetidos os povos originários da Amazônia. Enquanto não houver um diálogo sincero e vital com estes povos a nossa história estará incompleta, porque ainda não estaremos vivendo a encarnação. A invasão do Continente Americano, a espoliação das suas riquezas, os massacres e os genocídios foram e são até hoje um grande mal-entendido.

Portanto, quando a Igreja se interessa pelas coisas do mundo e pelos apelos humanos que a realidade impõe como sofrimento e dor, sobretudo a dor dos inocentes, o faz por amor ao mundo que Deus criou e redimiu. A sacristia é um lugar de passagem para a liturgia. Uma Igreja de sacristia é sinônimo de uma Igreja voltada sobre si mesma, doente e necessitada de conversão. A liturgia, em função da qual está a sacristia, como celebração do mistério pascal, coloca o Povo de Deus no centro da história que foi o derramamento do sangue da Nova Aliança. E a memória deste sangue derramado não permite a indiferença e a omissão.

Por: Dom Sergio Eduardo Castriani – Arcebispo de Manaus

Publicado no Jornal: Amazonas em Tempo, 15.9.2019.

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