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O Papa, o Sínodo e São Francisco das chagas: Do Canindé a Roma – Uma contribuição do nordeste

Por Pe. Gegê


Diante do quase exclusivismo acerca da imagem e figura de São Francisco de Assis , creio ser importante fazer um deslocamento ( para além do geográfico) e trazer à baila, a partir do nordeste, mais especificamente, o Canindé – Ceará, o SÃO FRANCISCO DAS CHAGAS. Trata-se, pois, do mesmo e único Francisco; contudo, “o das chagas” traz significações distintas, mas complementares, entre outros, no plano imagético, simbólico, religioso, teológico, e psicológico/arquetípico.

Creio que o santo captado e representado sob o signo das chagas é significação potente para se pensar o Sínodo para a Amazônia, o papa e o destino da Mãe Terra, ferida, machucada e chagada pela ambição voraz do capital. Francisco das Chagas é o Francisco de Assis-Canindé da Mãe Terra chagada. Chaga/ferida é tema arquetípico-ancestral de real grandeza. Para não me estender na reflexão, cito, no plano do candomblé, a potência das chagas de Obaluaê; no cristianismo, o Cristo chagado; na mitologia grega, a chaga-ferida do herói Ulisses, através da qual é reconhecido quando retorna à terra Ítaca, sua natal.

A lista acerca do valor humano e espiritual da chaga-ferida poderia seguir ao infinito. Por isso, considero que o Canindé, com a narrativa do Francisco das Chagas tem muito a dizer, em especial, em tempo de Sínodo. A propósito, ouço dizer que a primeira encíclica do papa Francisco não foi escrita no papel, mas no mar de Lampedusa – “Encíclica das chagas” – “Encíclica das lágrimas”. Acredito, Profundamente, que Lampedusa seja a chave explicativa do papado de Francisco. Diante de um mar chagado, de vidas chagadas, de histórias e sonhos, igualmente, chagados, Francisco para, se afeta, chora e se compromete com os chagados da terra e com a própria Terra também absurdamente ferida e chagada.

A meu juízo, o engajamento, evangelicamente militante, do papa Francisco para com o Sínodo para a Amazônia carrega, no subterrâneo, o laço místico de Francisco com a paixão de Cristo, a paixão dos ribeirinhos e indígenas, a paixão de todos os homens e mulheres, a paixão do planeta – a paixão da Mãe Terra. Belíssima, potente e digna de menção são as palavras do papa Francisco na Festa da Ascensão de Jesus. Diz o papa do “fim do mundo”:
“Jesus quando retorna ao céu, leva ao Pai um presente. Qual é o presente? As suas CHAGAS. O seu corpo está belíssimo, sem contusões, sem as feridas da flagelação, mas conserva as CHAGAS.


Afirma o papa que Jesus não apenas entra no céu com as chagas; Ele mostra ao Pai… Conforme a fé cristã, o Deus que subiu é o mesmo que desceu; contudo, o compromisso de Jesus com a Terra fez com que sua carne fosse marcada com algo que não tinha. Algo foi incorporado (as chagas); e, nesse sentido, Jesus não foi mais o mesmo; nem o céu… Pode-se dizer que até as pupilas dos olhos do Pai foram afetadas e transformadas pelo que viram a partir do corpo-vida do Filho Jesus.
Força grande, Francisco! O papa que contempla as chagas é o mesmíssimo que dá a vida para curar as feridas.
Que São Francisco das Chagas do Canindé te inspire, guarde e proteja. Hoje e sempre. Amém!

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