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Valorizar as mulheres, uma realidade e um desafio para a Igreja da Amazônia

Por Luis Miguel Modino

A importância das mulheres na sociedade e na Igreja é fundamental, elas cuidam da vida, que, afinal, é a base de tudo. Outra coisa é o que acontece nas instâncias de decisão, onde devemos reconhecer que ainda não atingem o nível dos homens. As mudanças, o Papa Francisco sempre insistiu nisso, devem vir de baixo, algo também reconhecido pelo padre sinodal Dom Ricardo Centellas, bispo de Potosí e presidente da Conferência Episcopal Boliviana.

O Sínodo da Amazônia, embora esse não seja seu objetivo principal, abordou a questão do destaque feminino e do seu reconhecimento necessário. Portanto, é essencial começar com exemplos concretos que, na medida em que são conhecidos e se descobre sua riqueza, podem ser experiências que iluminam e servem como modelo em outros lugares. Por experiência pessoal, Dom Centellas ressaltou que em uma das regiões episcopais da diocese de Potosí existe um vigária pastoral, no qual enfatiza que “a maneira como ele convoca o caminho daquela região é muito diferente, porque os problemas não os enfrenta como imposição de ideias, mas pede coletar sugestões e permite que a comunidade seja sujeito de decisões, e não apenas algumas pessoas ou uma pessoa.

O bispo boliviano afirma que “a visão de homens e mulheres é complementar, é diferente, mas não contrária, da maneira de encarar a vida, de enfrentar problemas, da maneira de fazer a Igreja andar em comunidade”. Na mesma linha, a irmã Rose Bertoldo, da Rede um Grito pela Vida e auditor sinodal, diz que “não é possível negar nossa presença nas comunidades, somos Igreja e fazemos Igreja”, algo demonstrado no fato das mulheres do Sínodo ter voz ativa.

A religiosa diz que “sabemos que somos protagonistas desse processo, mas sabemos que ainda resta muito, pedimos e exigimos esse reconhecimento e uma participação mais efetiva no direito de decisão”. Essa realidade é expressa por Dom Ricardo Centellas quando ele diz, em referência às mulheres, que “todos precisamos de uma mudança de mentalidade para que seja uma participação ativa, equitativa e igualitária”. O que demonstra a importância das mulheres na vida da Igreja da Amazônia é o fato de que “quem vai aos lugares mais distantes são mulheres, estão presentes e fazem com que o processo ocorra, não apenas a evangelização, mas de cuidar, de defender a vida”, enfatiza Rose Bertoldo, que reconhece que em alguns espaços se faz realidade esse trabalho articulado entre homens e mulheres.

Nessa dimensão do cuidado à vida ferida, é onde o papel da mulher é decisivo, o cuidado da mulher com a mulher, vítima de violência múltipla, inclusive o tráfico de pessoas. Nesse campo, a vida religiosa, quase sempre a feminina, faz um ótimo trabalho na região amazônica, como também acontece em outras regiões do planeta. A Rede um Grito pela Vida, da qual a irmã Rose Bertoldo faz parte, é uma das que fazem parte da Rede Sumak Kausay, na América Latina, ou Talhita Kum, em todo o mundo.

Essa é uma preocupação muito presente no pontificado do Papa Francisco, que, segundo a religiosa, quer “que a Igreja como um todo e a sociedade assumam isso como uma causa para enfrentar o mal que prejudica a vida do ser humano”. A realidade do tráfico de pessoas esteve muito presente no processo de escuta sinodal, foi incluída no Instrumentum Laboris e esteve presente no debate da sala de aula sinodal e dos círculos menores. Isso pode ajudar, segundo Rose Bertoldo, a ser assumido, em diferentes níveis eclesiais, como prioridade do trabalho permanente de enfrentamento e prevenção do tráfico.

Para isso, podemos lembrar algumas das propostas que a religiosa fez em sua apresentação na aula sinodal, que se referem ao campo intra e extra-eclesial, que tem a ver com a desigualdade econômica, o combate ao abuso e exploração sexual no trabalho pastoral na Igreja e prevenção em todos os níveis. Esse exemplo de cuidado deve permear a vida eclesial, são testemunhos concretos daqueles que, na vida cotidiana, são profetizas de atitudes cada vez mais necessárias, de novos caminhos para a Igreja.

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