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Com esperança e utopia as CEBs caminham

Por Celso Carias

Entre os dias 17 e 20 de outubro, o Iser Assessoria promoveu um seminário com assessores/as e articuladores/as de todo Brasil. Com o objetivo de subsidiar o serviço de assessoria e articulação, trabalhando em mutirão, foi possível vislumbrar algumas perspectivas.

O caminho não está fácil, mas com os pés no chão da realidade social, política, econômica, cultural e eclesial, foi verificada na análise de conjuntura social e eclesial a complexidade do momento no qual o poder dominador, que não trabalha com a ideia de partilha, pressiona, por diversos meios, a manutenção de uma estrutura de acumulação que empurra os mais pobres para uma situação de miserabilidade.  A própria Igreja se vê pressionada, seja para fazer aliança com os que pressionam, seja por sofrer dura perseguição quando se coloca do lado dos pobres, como é o caso do Papa Francisco.

Recebendo a contribuição das trocas vindas de quase todo Brasil, com a impressão de estarmos “patinando”, reconhecendo a fragilidade da caminhada, recolhendo os feridos que ficam pelo caminho, constata-se o profetismo de homens e mulheres que acreditam na necessidade de realizar sinais do Reino de Deus a partir do aqui e agora. Como cristãos/ãs acreditamos na plenitude escatológica da vida, mas não podemos nos conformar com o ataque à dignidade fundamental da pessoa humana. Assim, o seminário foi um forte momento para recobrar a esperança.

Os debates, nem sempre em completo acordo, apontam para a necessidade de construir um PROJETO DE SOCIEDADE que possa levar consideração à sobrevivência humana e de toda a natureza. Que possa levar em consideração a diversidade cultural. Que possa levar em consideração o fato da diversidade de gênero, que tanto assusta mentes moralistas e pouco achegadas ao princípio da misericórdia. Os modelos de organização da sociedade precisam ser repensados. No entanto, ao mesmo tempo, torna-se fundamental resistir quando direitos fundamentais são negociados pelo mercado para garantir a acumulação. E a Igreja, como sal e fermento, não pode se omitir diante deste novo mundo que está surgindo.

Respeitando o fator PROCESSUAL da história, o POVO não pode ser visto como mero receptor, mas como agente de seu próprio caminho. Na Igreja não podemos nos render, mais uma vez ao princípio dualista não bíblico, não evangélico, que separa fé e vida, material e espiritual, não tendo fé para ver que Deus é o princípio integrador de todas as coisas. Assim foi revelado, para nós cristãos/ãs, na pessoa e mensagem de Jesus Cristo. Precisamos ouvir o povo, escutar suas angústias, caminhar com ele, sermos junto com ele. Tal atitude pode ser representada tão bem pela imagem oferecida pelo Papa Francisco: “ter cheiro de ovelha”, “deixar-se enlamear”. Esta perspectiva serve para o clero, mas serve também a todos e todas que prestam algum serviço de assessoria e articulação.

Assim, vislumbra-se a MISSÃO não como um mecanismo proselitista, mas como um chamado contínuo do Projeto de Jesus Cristo em fazer novas todas às coisas. Em ir, como disse São Paulo VI no número 20 da Evangelli Nuntiandi, no fundo das raízes culturais. Não podemos mais ficar passando um verniz superficial. Devemos olhar para frente, com esperança e utopia. E as CEBs podem ajudar nesta jornada. “Não deixem que nos roubem a comunidade”.

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