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Livro sobre a relação das CEBs com os movimentos populares em Maceió

Uma confluência pela “libertação”: CEBs, cultura política e organização popular na Arquidiocese de Maceió (1967-1991)

Wellington da Silva Medeiros é o autor do estudo publicado pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal). O livro é fruto de sua dissertação de mestrado e aborda o processo de desenvolvimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) na Arquidiocese de Maceió, entre os anos de 1967 e 1991.

A literatura acadêmica reconhece a contribuição das Comunidades Eclesiais de Base aos movimentos populares, especialmente nos primeiros anos da ditadura civil-militar. Diversos autores abordaram esta temática. Desde os anos 1980, há uma quantidade significativa de artigos, livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado que tratam da confluência entre CEBs e movimentos sociais. Em sua grande maioria esses trabalhos tratam de estudos locais. Por outro lado, no que se refere à produção alagoana, pouco ou quase nada se falou sobre o assunto.

Este estudo analisa a relação entre CEBs e movimentos sociais sob a ótica da história social. Naquela Arquidiocese, o desenvolvimento das CEBs passou por dois momentos decisivos, responsáveis por seu início e expansão: (1) as conjunturas socioeconômica e eclesial dos anos 1960, que propiciaram as primeiras experiências das comunidades de base, e (2) a inclusão das CEBs entre os programas dos Planos de Pastoral da Arquidiocese de Maceió (PPAM), a partir de 1975. Até esse período, existiam poucas experiências incipientes de comunidades de base. Entretanto, com a inclusão das CEBs entre os programas dos PPAM e o episcopado de Dom Miguel Fenelon Câmara Filho (1976-1984) foram organizadas conferências sobre as CEBs.

Progressivamente, foram sendo desenvolvidas ações favoráveis à criação de uma “rede de comunidades”, em regiões periféricas da cidade de Maceió e na zona rural dos demais municípios que compõem a Arquidiocese. O processo de desenvolvimento das CEBs ocorreu de forma dialética (base-hierarquia): diante da estrutura hierárquica da Igreja Católica, o apoio de Dom Miguel Câmara e, posteriormente, de Dom Edvaldo Gonçalves Amaral (1986-2002) foi crucial para a expansão e articulação CEBs.

As Comunidades Eclesiais de Base em Alagoas tiveram suas concepções político-religiosas fundamentadas nas contribuições teórico-práticas da Teologia da Libertação. A conscientização e o estímulo à auto-organização, características da cultura político-religiosa das comunidades de base, proporcionaram uma afinidade eletiva entre as CEBs e os movimentos populares, sindicatos, associações de bairro, pastorais sociais e o Partido dos Trabalhadores (PT), demonstrando ampla capacidade de mobilização social e criatividade da classe trabalhadora em Maceió, fazendo entrar em cena novos atores políticos de base popular.

O estudo enfoca de modo particular a ocupação do espaço territorial onde hoje se localiza o bairro Santa Amélia, pelas CEBs em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), entre os anos de 1989 e 1991. Seus protagonistas foram a população negra e cidadãos sem moradia. A análise das formas organizativas e estratégias de mobilização desses sujeitos pode contribuir para “mapear” as múltiplas batalhas entre esses grupos sociais e o poder hegemônico. Bem como pode indicar aos movimentos sociais contemporâneos como se constituíram os poderes hegemônico e contra hegemônico em Alagoas.

Wellington da Silva Medeiros teve uma formação católica tradicional e conheceu as CEBs e a Teologia da Libertação durante sua graduação em História na Universidade Federal de Alagoas. Segundo ele, ambas expressam uma cultura político-religiosa e uma concepção de missão da Igreja muito distinta do que havia vivenciado. Isso o motivou a aprofundar seus estudos no campo da história social das religiões. Concluiu o mestrado em História Social na UFAL em 2018, com a dissertação que deu origem a este livro. O trabalho recebeu o Prêmio Pierre Sanchis da Associação Brasileira de História das Religiões – ABHR. Atualmente é professor na Secretaria de Estado da Educação de Alagoas. Membro do Laboratório Interdisciplinar de Estudo das Religiões da UFAL. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Social, atuando principalmente nos seguintes temas: (1) Catolicismo, Estado e Relações de Poder; e (2) Religiões Populares e Movimentos Sociais.

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