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O pobre nunca nunca será esquecido

Por Francisco Orofino

A esperança dos pobres jamais se frustrará (Sl 9,19b)

No próximo dia 17 de novembro, 33º Domingo do Tempo Comum, celebraremos o Terceiro Dia Mundial dos Pobres. O papa Francisco sugere como lema desta jornada a segunda parte do versículo 19 do Salmo 9. Em sua exortação para este Dia Mundial do Pobre, numa carta enviada a todo o povo santo de Deus, em 13 de junho deste ano, o papa destaca a força atual deste verso bíblico. Diz o papa: “Estas palavras expressam uma verdade profunda que a fé consegue gravar, sobretudo no coração dos mais pobres: a esperança perdida devido às injustiças, aos sofrimentos e à precariedade da vida, será restabelecida” (Mensagem §2). Em sua exortação, Francisco continua refletindo sobre o Salmo 9 e o Salmo 10, destacando as novas formas de escravidão nos dias de hoje, onde famílias são obrigadas a deixar suas terras procurando novas formas de sobrevivência; lembra os jovens que buscam realização profissional, “cujo acesso lhes é impedido por míopes políticas econômicas”; as vítimas de todas as formas de violência, humilhadas em seu íntimo; os milhões de migrantes, instrumentalizados em diferentes posturas políticas, a quem se nega solidariedade e igualdade.

Destacando o rosto de Deus que se revela neste Salmo 9 (Mensagem §5), Francisco lembra que a prática libertadora de Jesus é justamente revelar que Deus nunca se esquece do pobre. Por isso mesmo, o título deste artigo é a primeira parte deste mesmo versículo 19: “o pobre nunca será esquecido” (Sl 9,19a). Jesus é certeza que Deus nos dá de que os pobres nunca serão esquecidos. O Salmo 9 destaca a presença de Deus na luta pela justiça, na defesa do direito dos pobres e no triunfo sobre toda maldade que prejudica a vida dos carentes e necessitados. Firme em seu trono, Deus conduz a história, garantindo força e vida ao povo pobre e indefeso. Este é o programa que Jesus assume em sua vida pública.

Toda a missão de Jesus é “anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Ao enviar seus discípulos em missão, Jesus destaca a cura aos doentes (Lc 9,2), o anúncio da paz (Lc 10,5; Mt 10,13); a expulsão dos demônios (Mc 3,15). Direcionar este anúncio da Boa Nova de Deus aos mais pobres diferenciava Jesus de todos os outros movimentos religiosos dentro da sociedade daquela época.

Para os fariseus, os pobres eram os ignorantes e malditos (Jo 7,49). Numa visão preconceituosa e elitista, para os fariseus os doentes e possessos, vivendo no pecado (Jo 9,34), impediam o triunfo do Reino. Jesus enfrenta esta proposta farisaica vivendo como e com os pobres. Jesus não possui nada para si, nem mesmo uma pedra para reclinar a cabeça (Lc 9,58). Faz um radical discurso contra as riquezas, mandando a pessoa escolher entre Deus e o dinheiro (Mt 6,24). E quando se trata de administrar os bens, é preciso fazê-lo com eficácia, colocando tudo a serviço da vida (Lc 16,9-13).

A pobreza que caracteriza a vida de Jesus e de seus discípulos e discípulas, deve caracterizar também as propostas missionárias da comunidade. Quem parte em missão não pode levar nada consigo, nem dinheiro, nem duas túnicas, nem sacola ou sandália (Mt 10,9-10). Devem levar uma vida pobre (Mt 19,21), convivendo nas casas do povo (Lc 9,4), assumindo a proposta da partilha (Lc 10,7). Dar este testemunho diferente de pobreza era o passo que faltava para uma radicalização nos movimentos populares daquela época. Pela sua proposta concretizada em seu modo de viver, Jesus denuncia o sistema antigo que, em nome de Deus, excluía os pobres da riqueza do Reino. Ao mesmo tempo anuncia um novo começo que, em nome de Deus, acolhe os excluídos. Ele vai até a raiz da proposta de Deus e proclama um novo ano jubilar: é o Ano da Graça do Senhor (Lc 4,19). Deus nunca se esquece do pobre. Sem a acolhida os pobres a aliança não se refaz. Jesus reafirma que a renovação da aliança começa pelo restabelecimento do direito dos pobres, dos excluídos. Nesta Nova Aliança, Jesus radicaliza a Lei. A raiz de toda a Lei é a prática do amor a Deus e ao próximo (Mt 7,12; 22,37-40).

Nas palavras e gestos de Jesus, Deus chega perto do pobre. Na pregação dos escribas e fariseus, Deus parecia uma figura inacessível, longe do pobre e distante dos marginalizados. Jesus, ao trazer a Boa Nova do Reino, traz deus para um convívio familiar e íntimo com as pessoas. Jesus traz a Boa Nova que os pobres sempre esperaram. Por isso mesmo suas palavras exercem uma atração muito forte sobre os pobres. Eles percebem e acolhem esta novidade do anúncio de Jesus (Mc 1,22.27; Mt 11,25-26; Lc 10,23-24). E louvam com entusiasmo: “Este é verdadeiramente o profeta que deve vir ao mundo” (Jo 6,14).

O que Francisco espera com estas jornadas mundiais em favor dos pobres é que a Igreja dê continuidade a esta missão de Jesus. Diz ele: “Aos discípulos do Senhor Jesus, a condição que se lhes impõe para serem evangelizadores coerentes é semear sinais palpáveis de esperança. A todas as comunidades cristãs e a quantos sentem a exigência de levar esperança e conforto aos pobres, peço que se empenhem para que este Dia Mundial possa reforçar em muitos a vontade em colaborar concretamente para que ninguém se sinta privado da proximidade e da solidariedade” (Mensagem § 10).

Foto de Capa: OFM

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