CEBs e Movimentos Sociais

Não posso me calar

Por Marcos Sassatelli, Frade dominicano

“Que a justiça flua como um rio
E o amor, seja a vestimenta

Dos que são conhecidos pelo nome do Senhor…

Não posso me calar, nem me acovardar”

(Carlinhos Félix)

Em consciência, como ser humano, como cristão (que pretende ser radicalmente ser humano) e como religioso (que pretende ser radicalmente cristão) não posso me calar diante do que está acontecendo hoje no Brasil.

No dia 21 deste mês de novembro foi lançado em Brasília pelo presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e seus apoiadores o novo partido “Aliança pelo Brasil” (esqueceram de dizer: “dos ricos”) com a sigla número 38 (igual ao calibre de um dos revólveres mais conhecidos no Brasil) e o logotipo feito com cartuchos de balas.

Nada contra a fundação de um novo partido, que é um direito de todos e de todas na prática política democrática. O que denuncio é o projeto político que o novo partido defende e pretende implantar (legalizar e institucionalizar) no Brasil. Trata-se de um projeto ditatorial neofascista, perverso, iníquo, desumano, injusto e antiético: um verdadeiro projeto diabólico. Usa-se o nome de Deus, a religião e a Bíblia para – calculada, interesseira, hipócrita, maldosa e cinicamente – legitimar e sacralizar esse projeto, que exclui, descarta e mata os trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo os mais pobres.

Pessoalmente, muitos cristãos e cristãs – profetas e profetisas da vida – se pronunciaram corajosa e destemidamente, em nome do Evangelho, contra esse projeto.  Mesmo diante de tantos testemunhos que edificam – sempre como ser humano, cristão e religioso – denuncio também, com profunda dor no coração, a omissão “oficial” e “institucional” da Igreja Católica (a minha Igreja) em nível local, regional e nacional, e também de Igrejas Evangélicas (sobretudo Neopentecostais). Não dá para entender!

A omissão (o silêncio) é conivência com o Mal, o Anti reino de Deus na história do ser humano e do mundo, ou seja, o pecado sócio-econômico-político-cultural-ecológico. Com esse comportamento, a Igreja torna-se “Igreja de Pilatos” (que lava as mãos) e “Igreja de Judas” (que trai Jesus nos Pobres).

A Igreja de Jesus de Nazaré não é “triunfalista” e “clerical”; não se impõe pelo poder, pela ostentação, pelo luxo e pelas “alianças diplomáticas” com os “demônios” de hoje, que são os agentes do Mal, do anti reino de Deus. A “diplomacia” não existe no Evangelho. “Que o vosso sim seja sim, e o vosso não seja não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37).

Peçamos ao Espírito Santo – o Amor de Deus – que nos transforme e nos torne verdadeiros seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, o “maior revolucionário” de todos os tempos. Em seu projeto para o mundo, Jesus de Nazaré quer que os seres humanos – homens e mulheres – vivam como irmãos e irmãs na igualdade de direitos, partilhando a vida em todas as suas dimensões e sendo – ao mesmo tempo – parte do “jardim” e “jardineiros” da nossa Irmã, Mãe Terra. É a mística do Reino de Deus.

No cumprimento de sua missão, Jesus de Nazaré foi acusado de “subversivo”. “Encontramos esse homem fazendo subversão entre nosso povo” (Lc 23,2). “Neste tempo, um cristão que não seja revolucionário, não é cristão” (Papa Francisco. Prefácio do livro “DoCat”, “que aborda a Doutrina Social da Igreja numa linguagem jovem, acessível e dinâmica”).

Como nos ensina o Concílio Vaticano II, “a Igreja, a todo o momento tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas” (A Igreja no mundo de hoje – GS 4).

Por fim, os seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré sejamos “uma Igreja Pobre, para os Pobres, dos Pobres e com os Pobres”: o sonho do Concílio Vaticano II e de Medellìn.

Para uma visão geral do que está acontecendo hoje no Brasil e no mundo leia o artigo “A terra treme” – “Do Chile à Argélia, a rebelião se espalha e Bolsonaro se arma”, de Mario Sergio Conti (Folha de São Paulo, 23/11/19).

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