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A caminhada das CEBs, com sua rica experiência de fé-vida, sem aparecer explicitamente, fecundou a VI APD da Arquidiocese de Belo Horizonte

Por Edward Guimarães 

Na tradição latino-americana, as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs são a expressão histórica da Igreja dos pobres, que inspiradas pelo Espírito Santo libertador e na consciência bíblica dos riscos de andar “com Jesus na contramão”, concretizaram corajosa e preciosa experiência eclesial. Com fidelidade ao Evangelho do Reino, encarnado nas culturas dos povos deste continente, elas conseguiram uma vivência da fé cristã em contexto profundamente injusto, marcado pela pecaminosa exclusão social de tantos filhos e filhas de Deus.

As CEBs suscitaram ao longo do continente latino-americano imensa rede de comunidades de fé e partilha de vida, com grande diversidade de pastorais sociais a caminhar de mãos dadas com os movimentos populares, sindicatos, cooperativas, grupos, associações, partidos políticos comprometidos com a mesma causa… todos juntos irmanados na defesa da dignidade da vida e na conquista da cidadania para todos, com direitos humanos e sociais.

As CEBs surgiram, no final dos anos 60, resultantes das constantes interpelações da Palavra de Deus diante do grito dos oprimidos. Brotaram onde havia gente irmanada pela fé e pela esperança teimosa de que dias melhores virão. Mesmo acorrentados no cativeiro, em longas noites de opressão e tirania, seus membros tomaram consciência de que não estavam sozinhos e nem abandonados por Deus. À luz da Palavra de Deus, pela força que nasce da solidariedade de muitos irmãos e irmãs, que denunciavam profeticamente a lógica da injustiça, a violência da exclusão e que se colocavam destemidamente ao seu lado, e pelo testemunho de inúmeros mártires que, diante das ameaças não arredaram o pé, os membros das CEBs descobriram que Deus fica ao lado dos pobres, fortalece de coragem os fracos, na luta contra a pobreza e a exclusão.

Deus quer fazer chegar sua proposta de aliança de amor a todos, por isso não é surdo ao clamor das vítimas da injustiça e da violência e não abandona seus filhos e filhas nas garras da morte. A caminhada do povo de Deus registrada na Bíblia, da escravidão do Egito até a conquista da terra prometida de Canaã, o ensinamento dos profetas e, de modo especial, a prática libertadora de Jesus, oportunizou aos membros das CEBs a experiência de fé no amor de Deus que é mais forte do que a tirania e a violência que mata. Animados pela fé no Deus da vida, experimentaram que são também povo que marcha, que são membros do mesmo povo de Deus da Bíblia e que caminha rumo a terra prometida herança dos justos. Ao fazerem juntos a memória perigosa de Jesus, experimentaram que o Deus da ressurreição é mais forte que o poder da cruz imposta pelos poderosos desse mundo. Se há cruz, há ressurreição!

As CEBs, desde então, vem cultivando a experiência de fé no Deus da vida, no Deus dos profetas e profetisas da história, no Deus de Jesus. Por isso cultivam uma espiritualidade resiliente do seguimento de Jesus, vivo e ressuscitado, sempre estradeiro conosco. Cultivam, além disso, a centralidade da Palavra de Deus, sempre lida, estudada, celebrada e rezada em comunidade reunida ou em pequenos círculos bíblicos. Esta Palavra de vida, acolhida com fé, revela-se fonte de luz e de força para a árdua e sofrida caminhada de libertação.

As CEBs, como ficou estampado no último Encontro Intereclesial, por todo o Brasil e por outros países da América Latina, estão se reinventando no complexo contexto urbano e continuam a concretizar essa Igreja dos pobres em mutirão, Igreja sempre inacabada, como é a casa dos mais pobres nas vilas e favelas, mas com avanços concretizado pela união dos movimentos populares de defesa da vida.

As CEBs e a VI APD da Arquidiocese de Belo Horizonte

Sem que seu nome tenha sido evocado, podemos reconhecer fortes reflexos da caminhada das CEBs no conteúdo das novas Diretrizes aprovadas pela VI APD da Arquidiocese de Belo Horizonte, especialmente quando:

1. Nas diretrizes da Casa da Palavra, fica claro a importância dos ministérios leigos e dos círculos bíblicos para que todos tenham acesso à Palavra de Deus e, daí, haja dinamismo criativo na vida cristã em pequenas comunidades de fé e partilha, suscitando um laicato adulto e consciente de sua corresponsabilidade batismal na vida da Igreja e da sociedade. No cultivo da centralidade da Palavra de Deus e na comunhão eucarística, há o fortalecimento da identidade da fé cristã e da adesão a Jesus Cristo e ao projeto salvífico de Deus; favorece o despertar crescente da consciência de ser e da responsabilidade de se viver conscientes de sermos filhos e filhas de Deus. Desse modo, surgem novas lideranças para animar e fortalecer a caminhada de fé e partilha de vida na Igreja e na sociedade.

Nas CEBs é muito forte o papel dos ministérios leigos, exercidos por homens e mulheres, e a dinâmica dos círculos bíblicos, nos quais a Palavra é acolhida como o combustível para a perseverança na caminhada.

2. Nas diretrizes da Casa do Pão, fica explícito a importância de se cultivar uma espiritualidade do seguimento de Jesus em todos os níveis e âmbitos da Igreja, valorizando a religiosidade popular, capaz de fazer o povo entregar-se confiante nas mãos de Deus, e a criativa tradição litúrgica da Igreja, capaz de atualizar no mistério celebrado a presença viva de Jesus Ressuscitado, sempre conosco, e a comunhão que nasce do Evangelho do Reino que nos faz, pela força do Espírito Santo, Corpo de Cristo na história. Cristãos abertos ao diálogo fraterno com todos e capazes de dar as mãos e juntar forças com não cristãos em defesa da vida, da justiça e da casa comum.

Nas CEBs é muito forte a passagem do cristão meramente devoto ao cristão que, por causa da espiritualidade cultivada, se desafia a ser um cristão discípulo de Jesus hoje.

3. Nas diretrizes da Casa da Caridade, fica evidente a importância da unidade fé-vida para superar deturpações graves no seio da vivência da fé cristã, tais como a que faz dos pobres objeto da caridade dos ricos, a que concentra todo poder decisório nas mãos do clero ou ainda a que não percebe a contradição entre adesão à experiência cristã e uma postura de indiferença diante das mentalidades individualistas, das estruturas injustas da sociedade e do desenvolvimento que destrói o equilíbrio da casa comum. Nesse sentido, as diretrizes deixam claro, que é preciso concretizar a opção pelos pobres em todas as instâncias da Igreja, sendo fermento transformador de toda a sociedade. Daí a importância de se promover e investir em uma criativa primavera das pastorais sociais, no compromisso de todos os cristãos com a ecologia integral e com a participação em grupos de fé e política, já que a vida cristã é para ser vivida na Igreja e na sociedade.

Nas CEBs é muito rico o modo como a fé é vivida em unidade com a dinâmica cotidiana da vida, de mãos das com os movimentos populares, no enfrentamento das ameaças, nas lutas por políticas públicas inclusivas, na promoção dos direitos humanos e sociais.

4. Nas diretrizes da Casa da Missão, enfatiza-se a importância de cuidarmos da dimensão missionária da Igreja, que é chamada a ser presença qualificada, autêntico fermento pelos valores do Evangelho que nos move, atuante e solidária, nos diversos espaços e situações fora da Igreja, nas casas das famílias, nas vilas e favelas, edifícios, condomínios, povoados rurais quilombolas etc. Presença capaz de fazer a diferença para o bem de todos, ao anunciar-testemunhar a beleza da luz que irradia do Evangelho encarnado na vida nova vivida por quem acolheu a presença do Reino. Presença atenta às singularidades das juventudes e ao novo que elas são portadoras para o bem de todos. Quase todas as revoluções culturais da história contou com significativa contribuição das juventudes. Presença atenta aos desafios e urgências da cultura urbana em que vivemos, discernindo os sinais do tempo, de modo especial, em relação à complexa realidade virtual midiática. Presença capaz de fazer das redes sociais lugares autênticos de evangelização e profecia.

Nas CEBs é forte o profetismo, tanto em seu aspecto de denúncia, quanto no de anúncio-testemunho de vida nova. Como todos nós, ela é desafiada a acolher e se reinventar no dinamismo da cultura urbana e das mídias digitais.

Edward Guimarães é leigo, casado, teólogo pastoralista, assessor das CEBs, alguém comprometido com a caminhada da Igreja, engajado na Igreja particular de Belo Horizonte. Ele é membro do Conselho Pastoral Arquidiocesano e é o atual secretário executivo do Observatório da Evangelização PUC Minas.


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