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O CARNAVAL DA MANGUEIRA 2020 E OS “CATOLIBÃS”
(O PERIGO ATUAL DAS MENTES TERRIVELMENTE CATÓLICAS)

“Deixa a Mangueira passar!”

Por: Padre Gegê

O presente escrito não é endereçado, em princípio, a quem não gosta, a quem discorda ou tem reservas acerca do enredo da Mangueira 2020 sobre a figura de Jesus (“A verdade vos fará livres”); Dom Helder já dizia: “se discordas de mim, tu me enriqueces”. Escrevo, confessadamente, pensando naqueles e naquelas cuja unilateralidade da consciência sequer são capazes de ouvir sons, ver imagens e sondar movências que nascem de outros cânones. Porém, a “Igreja em saída” desejada pelo Papa Francisco, reclama, “saída psíquica” que, por sua vez, exige “saída de si”.
Aqueles e aquelas que vivem a “demonizar” o diferente não conseguem ver e ouvir senão a si mesmos; e, como Narciso, sempre acham “feio o que não é espelho”.
Terríveis atrocidades cometidas por cristãos, em nome da Igreja ou da fé, são praticadas por personalidades ou sistemas psíquicos terrivelmente comprometidos. Daí a importância, sobretudo no contexto atual de banalização da violência (física, simbólica e virtual), de se investigar as dinâmicas psíquicas também dos religiosos que, por vezes, podem servir-se da religião como escudo de proteção ou álibi para execução de atos destrutivos que “até Deus duvida”. Para o psicólogo suíço Carl Gustav Jung, não considerar a psique é negligenciar o elemento fundamental de quaisquer dilemas ou situações pessoais e coletivas.
A posição de ataque de seguimentos católicos, particularmente nas redes sociais, ao enredo da Mangueira 2020,com o firme propósito de desqualificação,não foge a regra. Nesta reflexão procuro considerar, brevemente, as dinâmicas psíquicas de segmentos católicos na atualidade que manifestam, sob alegação da defesa da fé e da sã doutrina, forte e terrível tendência à violência quando se sentem ameaçados em suas convicções.
Urge considerar o esquema mental e a periculosidade daqueles que o sociólogo, professor e militante católico Jorge Alexandre Alves nomeia sugestivamente de “catolibãs”. O termo seria cômico se não fosse trágico. Define o sociólogo: “são católicos que agem com elevado grau de intolerância e agressividade a ponto de os tornarem compatíveis aos talibãs afegãos”. Jorge Alves desenvolve sua potente e oportuna reflexão no artigo “As novas (velhas) faces do conservadorismo católico”.
Thais Reis de Oliveira escreve, nessa perspectiva, o sugestivo artigo: “Os católicos ultraconservadores que querem ‘recristianizar o Brasil”. Diz a autora: “Esses cruzados tem uma missão ambiciosa recristianizar o Brasil ( ou melhor, a Terra de Santa Cruz). Para isso tem atuado em campos diversos (…). O apoio ao governo Bolsonaro é explícito. O presidente e o filho Flávio aparecem em vídeos da associação e são convidados para eventos”.
Será que não “há algo de podre no Reino da Dinamarca”?
Entre tantas outras facetas dos catolicismos na atualidade (tradicional,progressista,carismático, etc), essa é a tendência hoje menos expressiva e significativa, mas com forte capital econômico e apoio de lideranças católicas, como afirma Thais Reis no artigo supracitado; e não pouco barulhenta e perigosa, em virtude do potencial agressivo e beligerante que apresenta.
No que se refere ao relevante e pertinente enredo da Mangueira 2020 (“A verdade vos fará livres”) proposto pelo carnavalesco Leandro Vieira e o belíssimo samba de autoria de Manu da Cuíca e Luis Carlos Máximo, podemos também tecer algumas considerações em chave psicológica. Creio que a psicologia ofereça instrumentos valiosos para se acessar mentes comprometidas e com alto potencial destrutivo. São mentes terrivelmente adoecidas que se utilizam de justificativas religiosas para liquidar (física ou simbolicamente) aquilo que julga divergente. O outro, nessa perspectiva, torna-se o inimigo, aquele que sequer merece viver. O divergente é desqualificado e desumanizado para ser, por fim, combatido. Da minha parte, considero seguimentos “terrivelmente católicos”, como os “catolibãs, sob o ângulo psicológico, grupos que na atualidade apresentam graves preocupações.
Concordar ou discordar de um enredo ou samba, gostar ou não de uma Escola ou de um carnavalesco, isso é altamente normal e saudável. Elogiar, tecer críticas (positivas ou negativas) faz parte da disputa na arena humana. O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?
No âmbito da salvaguarda da fé todas as religiões, não apenas o cristianismo, zela para que seus patrimônios de fé sejam tratados com respeito. O Samba também luta para que seus patrimônios (materiais e imateriais) sejam tratados com estima, cuidado e honra. E isso é extremamente valioso e saudável. Como já ouvi e concordo: “Nenhuma instituição tem vocação suicida”.Quem ama zela e briga pela coisa amada. Conduto, uma outra coisa, totalmente diferente, é tomar uma narrativa artística e legítima de uma Escola de Samba como álibi para manifestar toda sorte de absurdo e agressividade. O caso, então, deixa de ser carnaval, desfile, Escola, enredo ou samba para trilhar outras vias, supostamente legitimada pelo dado da fé.
Décadas atrás, como na época de Dom Eugênio Sales na arquidiocese do Rio de Janeiro, por exemplo, bastaria o posicionamento do bispo para que polêmicas em torno da fé fossem satisfatoriamente resolvidas, mas hoje o cenário religioso, social e eclesial é bem diferente. Há, no presente, segmentos católicos e personalidades que se sentem mais empoderados nos assuntos de fé e na defesa da mesma que o próprio papa. Há, inclusive, aqueles que são capazes de o atacar publicamente nas redes sociais, sem nenhum drama de consciência. São os autoproclamados defensores obstinados da sã doutrina.
A partir da observação de alguns casos, verifica-se, pois, que tais seguimentos católicos não conseguem lidar com o diverso e tampouco com o contraditório. São agressivos, não apresentam empatia e nem se afetam por possíveis constrangimentos ou sofrimentos que possam causar aos outros quando estão imbuídos da missão autoproclamada de “defensores”da fé. Essa situação lamentável e alarmante é real e já faz acender o sinal de alerta. Há uma frase de Jung que ilustra de forma clara e feliz o que procuro dizer. Escreve o psicólogo: “Se um homem errado usar o meio certo, o meio certo operará errado”.Defender a fé é um “meio certo” que sendo executado por “pessoas erradas” opera de forma errada.
No dia 20 de Novembro de 2019 – dia da consciência negra – um grupo de católicos, sob alegação de defenderem a pureza da fé e do culto, entram numa paróquia da zona sul da Arquidiocese do Rio com o firme propósito de desqualificação e intercepção da missa afro prestes a começar. Sem maiores detalhes, importa dizer que o pároco corajosa e acertadamenteacionou a polícia. Dessa feita, o assunto, supostamente de fé, se fez, “de repente, não mais que de repente”, caso de delegacia. Considero essa ocorrência emblemática para pensarmos sobre novos segmentos cristãos na atualidade.
Também ano passado, duas pessoas muito queridas e experimentadas na caminhada eclesial foram fortemente atacadas por grupos católicos extremistas quando realizavam palestras em espaços religiosos. Ouvi com assombro, preocupação e tristeza o relato de uma das vítimas. Lembro que, próximo ao assassinato da ativista e vereadora Marielle Franco, o ilustre padre e professor da PUC-RJ, Mário de França Miranda, que tive o sagrado privilégio de o ter como meu orientador de mestrado em teologia, foi xingado durante uma missa na zona sul pelo simples fato de falar na homilia o nome da ativista executada, entre outros.
Assim como o mundo do futebol está atento às barbáries de muitos torcedores adoecidos, creio que também as lideranças das igrejas cristãs não podem fazer vista grossa aos significativos casos de violência (física e simbólica) cometidos em nome da fé. Grupos de cristãos ultraconservadores, tem apresentado sinais inequívocos de adoecimento psíquico na ordem alteritária. “ O sono da razão produz monstros”. E isso é perigoso para toda coletividade.
Se um padre, por conta de uma missa afro, como disse acima, é forçado a acionar a polícia para enfrentar ultrajes de membros beligerantes do próprio catolicismo, então, no mínimo, acende-se o sinal vermelho que a todas e todos deve alertar: que tipo de cristãos são esses? São esses os defensores da fé e da sã doutrina? Quem os credencia? Do que são capazes? Pode a igreja tornar-se “casa da mãe Joana”? Pode essa prática cega, violenta e intolerante se alastrar? Escrevo ouvindo a valiosa advertência da psiquiatra Nise da Silveira: “A contaminação psíquica é pior que piolho. Vai passando de uma cabeça para outra, numa rapidez incrível”. E isso é real e alarmante! Dizia uma professora de psicologia: “a loucura não é contagiosa, mas é contagiante”.
No que se refere a violência e a intolerância, o cristianismo hoje é posto sob suspeita: como pode uma religião ancorada no amor produzir membros tão odiosos e violentos?
Vale dizer que a demonização do carnaval e de tantos outros patrimônios culturais e religiosos afro-brasileiros (jongo, capoeira, umbanda, candomblé, etc) faz parte de um projeto político teocrático beligerante, excludente, segregacionista e racista. O racismo, como lembra e adverte Abdias Nascimento, tem variadas formas: por que, por exemplo, um Cristo, artisticamente pensado, na Sapucaí causa espanto e horror e um crucifixo, desse mesmo Cristo, é entronizado solenemente em repartições públicas com lágrimas e louvações? Por que num espaço o Cristo é proibido e noutro entronizado? O que qualifica um lugar e desqualifica outro?
O Supremo Tribunal Federal é, por exemplo, mais santificado que a Sapucaí?E por que não se luta para tirar os crucifixos de lugares e repartições patrocinadoras da morte do povo pobre brasileiro?Não será a onda de suspeita e policiamento em torno do desfile da Mangueira reverberação do antiquíssimo e mascarado racismo do Brasil? Uma última pergunta que não pode deixar de ser feita: alguns cristãos estão tomando as dores do “Jesus do Evangelho” ou do “messias com arma na mão?
No que diz respeito ao desfile da Mangueira 2020, pode-se afirmar que nem se o papa Francisco desfilasse ( ou ainda os “dois papas”), mesmo assim segmentos “ terrivelmente católicos’ manifestariam resistência ao que se apresenta como contrário ao que pensam. Ainda que o próprio Jesus, em carne e osso, explicasse e legitimasse o samba da Mangueira, também assim resistiriam com grande possibilidade de ataque, inclusive físico. Dessa feita, para esses segmentos, a mais perfeita, fundada e sofisticada argumentação elaborada, a luz da fé cristã, por um teólogo, como Leonardo Boff ou um pastor, como Henrique Vieira, significa, como diz o povo, “malhar em ferro frio” ou “chover no molhado”. É falar para quem não quer (ou pelo comprometimento psíquico e político não pode) ouvir; é argumentar para quem quer atacar em nome da fé. E isso é perigoso!
O que está em jogo, a meu juízo, na questão em torna da Mangueira, vai para além de uma Escola de Samba. É a voz da contracultura que quer tomar espaço e suplantar artes em nome de um mundo militarizado e terrivelmente cristão. O que, de fato, desejo é que cada Escola de samba possa exibir competente e livremente sua arte, falando de Jesus, Oxalá, Exu, Chiva ou Buda. O que realmente desejo, lembrando Castro Alves, é que a Sapucaí seja dos sambistas e das sambistas como o céu é do condor.
Mas, como diz Nelson Sargento, o samba sempre foi, e ainda é, “duramente perseguido”. E lembra o Grupo Fundo de Quintal: “ fazem de tudo pra silenciar as batucadas dos nossos tantãs…”. Lembra, oportunamente, Dona Ivone Lara que “quando o poeta constrói mais um samba ele funda uma cidade”. E o que o poder estabelecido (municipal, estadual e federal) e os “catolibãs”, mais temem são essas cidades fundadas no encante e na magia dos corpos. Qualquer som de tamborim ou o rufar de qualquer tambor já os deixariam trêmulos de pavor pela simples possibilidade de acessar, sem direito a volta, o mundo sincopado e encantado das “coisas pretas”.
Por que o bispo-prefeito, por exemplo, teme entregar a chave da cidade nos dias de folia?Os ultraconservadores temem, no fundo, uma nova cidade fundada na subversiva capacidade de criar com liberdade.A igreja católica, porque combustível da colonialidade, também tema a fundação de novos mundos a partir daqueles que foram considerados pela estratégia ideológica escravocrata, como incivilizados, primitivos e barbados; sem conhecimento, sem cultura, sem arte e sem Deus. O poder colonial e escravocrata desde sempre inventou “mil pecados” para justificar sua dominação; e isso desde as Áfricas. O poder teme a alegria dos subalternizados.Diz Grada Kilomba: “uma sociedade que vive na negação, ou ate mesmo na glorificação da historia colonial, não permite que novas linguagens sejam criadas”.
Escutei da boca de Conceição Evaristo – a mater generosa das letras pretas – as palavras de Guilles Deleuze: “O poder requer corpos tristes”. E diz ainda Deleuze: “O poder necessita da tristeza porque consegue dominá-la. A alegria, portanto, é resistência porque ela não se rende”. Ariano Suassuna citando um pensador dia algo do tipo: “nenhum sistema opressor suporta duas volta de gargalhada”.
O historiador Rediker relata que já nos navios negreiros o povo negro em diáspora forçada foi capaz de fazer das tábuas dos navios instrumentos de percussão e, assim, extraíam som daquilo que fora apresentado como morte. Escreve Conceição Evaristo: “A certidão de óbito, os antigos sabem, veio lavrada desde os negreiros”. Ora, um povo que transforma tumbeiro (navio da morte) em batuque é capaz de, pela música e pela dança, transformar absolutamente tudo, inclusive isso “que aí está a apodrecer a vida” que, conforme diz Fernando Pessoa, “quando muito é estrume para o futuro”. O samba potencializa a vida e, na insurgência dos corpos, se faz reza “pela força que ele tem”.
Por isso, alerta a canção: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é; é ruim da cabeça ou doente do pé”.
Mangueira, “pega a visão”: há alguns cristãos, desejosos de defender a fé (as vezes até com sincera intenção), que estão terrivelmente “ruins da cabeça”.
Da minha parte, me recuso a crer que uma Igreja guiada pelo Espírito Santo de Amor, Paz, Justiça e Bondade e dirigida na terra por um Papa tão extraordinariamente belo como Francisco se reduza a essa coisa bárbara, triste e perigosa. Seria, pois, mais evangélico, leal, digno e louvável diante do mundo, para nós cristãos, fazermos abaixo assinado para denunciar quem apodrece a água que bebemos do que fazermos abaixo-assinado para intervir na arte de quem embeleza a vida. Sobre o olhar cristão sobre o carnaval, o samba ou quaisquer outras produções culturais e religiosas afrodiaspóricas urge começar ( e já é tarde) a tarefa de “descolonização das mentes”, como, a propósito, escreveram os bispos no Documento de Aparecida.
Não escrevo em nome da Igreja, não escrevo em nome da Teologia da Libertação, não escrevo em nome da esquerda e tampouco escrevo em nome da Estação Primeira de Mangueira ou de Nazaré, conforme o samba. Escrevo sim em nome daquilo que os humanos (religiosos ou não) costumamos chamar de lucidez…
É paradigmática, conforme disse, a ocorrência do padre obrigado a acionar a polícia para lidar com membros do próprio catolicismo (“irmãos contra irmãos”?). Verifica-se, pois, a imagem de uma igreja fraturada e com potencial dialógico interno aquém de suas possibilidades. O diálogo inter-religioso não exime, antes reclama com mais força, o diálogo intra-religioso. Penso, pois, que se não cuidarmos rapidamente, dias virão em que muitos cristãos poderão ser levados às delegacias ou tribunais; não por causa do Evangelho, como seria o esperado, mas em virtude de inaceitáveis e insanos atos cometidos, supostamente, em nome da fé e da sã doutrina.
Mas a Estação Primeira de Nazaré,bem como todo o universo criativo e fantástico do carnaval, não tem nada a ver com isso… Cada sistema religioso que cuide das cabeças saudáveis ou adoecidas dos seus membros, bem como de seus interesses escusos… A Mangueira só quer passar!
“Madeira que dá em doido é jequitibá.
Deixa a Mangueira passar”!

(Vossa bênção, Leci Brandão!)

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