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É Tempo de Transgredir!
Por Rute Noemi Souza

A poeta mineira Adélia Prado diz que “quem entende a linguagem, entende a Deus”. A Bíblia testifica isso: “…o verbo estava com Deus, o verbo era Deus”.

Fico imaginando que Deus deve se alimentar de palavras… Quais serão as palavras favoritas de Deus? Qual é o seu paladar? “A linguagem de Deus é o seu amor”, diz a Adélia.

Há palavras que têm um peso, um ranço, às vezes injusto, porque não lhes damos a possibilidade de fluir livremente, para que se transformem em ações que podem mudar nossas vidas, se formos além do que elas sugerem.

Eu gosto muito da palavra TRANSGREDIR! No velho e bom dicionário encontramos seu significado: desobedecer a, deixar de cumprir, infringir, violar, postergar. Sinônimos fortes para uma palavra forte. Mas lá também encontramos que transgredir é PASSAR ALÉM DE, ATRAVESSAR!

Que bom que as palavras também são transgressoras. Elas nos indicam mais do que aquilo que estamos acostumada/os. Transgredir é violar, mas é também avançar, passar além de.

Isto sugere que devemos ser transgressora/es em nossa maneira de ver o mundo, de ver as coisas. Precisamos ir além de, precisamos enxergar mais profundo aquilo que parece ser.

A Bíblia está repleta de homens e mulheres transgressora/es.

Moisés deveria ser morto ao nascer, mas, por uma atitude transgressora de sua mãe, foi morar no palácio do faraó que tinha ordenado sua morte e de todas as crianças hebréias, e, depois de adulto, não aceitou a opressão do faraó;

A rainha Vasti se negou a ser objeto nas mãos do rei, seu marido, e lhe disse não. Perdeu o trono, mas manteve a dignidade e propiciou que Ester fizesse um “reinado” político, defendendo seu povo da morte.

Davi comeu e dividiu com seus homens o pão da proposição que só era tocado pelos sacerdotes, e Deus não o puniu por isso. A fome era maior do que a lei.

A mulher sunamita não aceitou intermediário (o servo), para salvar seu filho… Foi direto a Elizeu e o forçou a ir com ela nessa missão.

A mulher que sangrava há doze anos ousou tocar nas vestes de Jesus, para ser curada, indo além das normas da época, que a consideravam imunda em sua condição, pois sua dor e a sua fé eram maiores do que a Lei.

Há muitos outros exemplos na Bíblia de atitudes transgressoras, sempre e principalmente vindas do povo. A história da humanidade, vista sob a ótica do povo, dos vencidos, é uma história transgressora. A caminhada do povo judeu é um ótimo exemplo: sair do jugo, ir além da opressão de faraó, buscar novas terras, novas possibilidades para viver com dignidade.

Sinto que os dias são de mediocridade; eles não me agradam. Os governantes governam para os seus; os pastores, cada vez mais pragmáticos no papel de “ungidos do Senhor”, defendem a institucionalidade que os mantém no poder e com seus bons salários; os bispos e apóstolos afastados das práticas do coração, da ternura e da busca da humanidade plena e redimida como quer Jesus, assumem um papel de alterego institucional: são inatingíveis e estão acima de qualquer crítica e autocrítica.

Não será tempo de irmos além? Não será tempo de quebrar o jugo da mediocridade e ver as coisas de forma mais profunda? Talvez devamos problematizar (não criar problemas!) as coisas que se mostram fáceis e acabadas, para percebermos outros jeitos mais humanos e mais ternos de caminhar e, principalmente, para vermos que Deus se esconde no simples, na terra, no pé no chão…

Mas é preciso transgredir. É preciso ir além. E isso só acontece se resgatarmos nossa sensibilidade e a nossa esperança em um novo céu e uma nova terra com valores que vão além dos que temos vivenciado.

Precisamos deixar de ser hipocritamente obedientes, para descobrirmos que o poder é substantivo, mas também é verbo: eu posso, tu podes, nós podemos tudo naquele que nos fortalece!

Precisamos, como as crianças, resgatar os “por quês”… Porque, senão, seremos manipulados por falsos líderes que, em nome de Deus, anunciam verdades mentirosas que conduzem o rebanho ao abismo.

Precisamos ousar em nossa pequena fé. Entender que, mesmo pequena, ela nos ajudará a transportar montes, a fazer história. O povo de Deus é quem faz história. Não são os reis nem os sacerdotes. É o povo que exercita sua busca e segue na esperança.

Sejamos, então, docemente transgressivos. Vamos além, vamos passar o rio! Vamos vivenciar novas possibilidades e um jeito novo de escrever a história. Vamos deixar que o amor de Cristo seja, efetivamente, o árbitro em nossos corações e em nossas relações, porque, do contrário, continuaremos achando que transgredir é só violar a lei e aí não faremos a passagem, não iremos além, e perderemos a possibilidade de vivenciar momentos novos, feitos de busca e dor, mas também de alegria por sermos sujeitos desse novo caminhar.

Deus nos chama para que resgatemos a nossa história, nos definamos diante dele e sigamos na construção do Reino, onde a justiça e o amor serão corriqueiros. Vamos juntos?

“Que a misericórdia, a paz e o amor nos sejam multiplicados”.

Rute Noemi Souza é pastora, advogada, assistente social, artista e ama cantar e contar histórias.

 

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