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“A pandemia é um chamado como vida religiosa para descobrir que nosso lugar é no meio dos mais pobres” Entrevista com Liliana Franco, presidenta da CLAR
Por Luis Miguel Modino

A vida religiosa da América Latina e do Caribe vive esse momento de pandemia desde a vulnerabilidade e a incerteza, mas também desde a solidariedade, que nasce de uma leitura permanente da fé dessa realidade, que levou a vida religiosa a dar respostas concretas, especialmente entre os mais pobres, onde se encontram muitos religiosos e religiosas.

As palavras de Liliana Franco, presidenta da Conferência Latino-Americana de Religiosos – CLAR, nos ajudam a entender como a vida religiosa do continente está enfrentando esse momento, principalmente nos lugares e realidades em que a pandemia está mostrando sua face mais feroz. Uma das regiões mais afetadas é a Amazônia, que esta semana foi vista com a campanha “Somos Todos Amazôna”, que a CLAR está realizando diante do “desinteresse de muitos governos e essa recusa em reconhecer uma crise que nos afeta todos, mas sobretudo os mais pobres”.

Seguindo o último comunicado da REPAM, a campanha, destinada a ajudar os povos indígenas, tem como objetivo se possicionar sobre “o que está acontecendo na Amazônia” e quer enviar profissionais de saúde, religiosos e leigos, como voluntários. Também coletar kits e suprimentos sanitários que podem ser utilizados na área da saúde.

Esse momento está levando a humanidade e também a vida religiosa a refletir “repensar estilos de vida, hábitos” e “relações conosco, com o mundo e com o planeta”, diz a religiosa colombiana. No caso da vida religiosa, é um chamado a “trabalhar em rede, sair de nós mesmos”, buscando avançar no “trabalho intercongregacional e interinstitucional”. Também para recuperar o impulso missionário, que o Sínodo da Amazônia revitalizou, sendo “um chamado urgente para que nós, como vida religiosa, consideremos nosso lugar, e nosso lugar é no meio dos mais pobres, no meio daqueles que mais sofrem”.

Como vocês estão enfrentando, qual é a situação da vida religiosa na América Latina e no Caribe neste momento de pandemia que estamos vivenciando?

Como todos os seres humanos, com a consciência de que estamos localizados no lugar da vulnerabilidade e também no lugar da incerteza. Mas precisamente isso tem que mostrar solidariedade para estar no lugar da solidariedade. Como vida religiosa, o que tentamos fazer é primeiro uma leitura permanente da fé dessa realidade, situando-nos em rede, a importância da rede e trabalhar com os outros. Isso está nos levando a realizar permanentemente reuniões, que tiveram que ser virtuais, com todas as conferências de religiosos dos 22 países em que estamos presentes na América Latina e no Caribe.

O objetivo foi colocar os pés no chão, situar-se nessa realidade, socializar e perceber mutuamente o que está acontecendo em cada um dos países e, posteriormente, tentar gerar alternativas, por exemplo, no Chile, colocar a disposição as nossas casas de retiro, casas religiosas, para que se tornem locais de acolhimento, assistência médica, até gerar, porque a crise alimentar nos preocupa muito, diferentes cadeias e redes de solidariedade que nos permitem conhecer a crise da saúde.

Muitos de nós estão localizados como religiosos e religiosas em locais de extrema pobreza. Portanto, sentimos fortemente o efeito da pandemia não apenas na saúde, mas também na qualidade de vida das pessoas. Toda essa crise que leva à perda de emprego está trazendo fome às famílias, situações muito complexas.

No caso da Amazônia, que se tornou um dos principais focos da pandemia na América Latina, qual é a realidade que a vida religiosa está vivendo?

Especificamente na Amazônia, em todos os países onde estamos presentes como vida religiosa, é verificar uma crise com duas facetas, por um lado, a crise alimentar, porque verificamos que a comida não chega e os alimentos produzidos pelas terras da região não podem ser comercializados. Por outro lado, na Amazônia, verificando a crise da saúde, não há médicos, não há medicamentos, não há suprimentos básicos, muito menos ventiladores ou elementos que possam ser vitais. Tudo isso, o que evidencia, é uma enorme crise humanitária, que revela tantas lacunas sociais que existem no mundo.

Nessas situações, o que a vida religiosa está fazendo?

Como vida religiosa, o que estamos fazendo é ler a realidade, nos unir e poder acompanhar, oferecer ajuda mútua e sermos efetivamente solidários com situações concretas em nosso ambiente. Estamos convencidos do valor de trabalhar com os outros, por isso a importância de fazê-lo com a REPAM, de uma força muito grande da união das 22 conferências de religiosos do continente, também com o CELAM. Toda semana temos reuniões com essas instâncias, perguntando a nós mesmos o que fazer em meio à incerteza e à ansiedade que essa situação pode acarretar.

Você falou sobre a Amazônia, esta semana a CLAR lançou a campanha Todos Somos Amazônia. A realidade da Amazônia é cada vez mais complicada, com um grande aumento de contágios nas regiões do interior. De fato, em poucos dias deve haver mais de cem mil casos confirmados e o número oficial de mortos ultrapassou cinco mil. O que essa campanha significa para a CLAR e para a vida religiosa do continente?

A campanha Todos Somos Amazônia surge da escuta da voz dos religiosos. Tentamos ouvir os religiosos que estão em Iquitos, Manaus, Letícia, por iniciativa deles ou por iniciativa própria, o eco dessa realidade está nos alcançando e sentimos que não poderíamos permanecer indiferentes os religiosos que estamos em outras regiões ou em outros contextos neste continente, e é por isso que precisamos incentivar todos a reconhecer que somos a Amazônia e que devemos nos comprometer e chegar a essa região em que a pandemia é tão forte.

Consideramos que o desinteresse de muitos governos e essa recusa em reconhecer uma crise que afeta a todos nós, mas principalmente aos mais pobres, afetaram mais a região amazônica. Também vemos que essa onda evidente de corrupção que está fazendo com que os recursos destinados ao bem comum sejam acumulados por poucos e redundados apenas no bem privado, está afetando a Amazônia com grande força. É por isso que pensamos que a resposta deve ser de todos, conectados em rede, para o bem de todos.

Quais são as medidas que estão sendo tomadas e serão tomadas nos próximos dias no âmbito desta campanha?

A campanha é um convite a todas as conferências nacionais para participar. Estamos convidando todas as conferências a fazer uma declaração reforçando o comunicado da REPAM, que é a rede à qual pertencemos no momento, e a falar sobre o que está acontecendo na Amazônia, essa tragédia que está afetando tantos pessoas. Em segundo lugar, a necessidade de responder em nível sanitário, estamos convidando religiosos e leigos que possuem formação sanitária, médicos, enfermeiros, auxiliares, a se prepararem para ir como voluntários à Amazônia. Estaríamos em rede com outras pessoas para ver os modos de movimento dessas pessoas, mas acreditamos que é essencial que aqueles com formação e possibilidades, e que estamos em outros contextos, possamos nos mobilizar para a Amazônia e ajudar.

A outra faceta da campanha é recolher kits ou suprimentos de saúde que podem ser usados na área de saúde. Estamos apenas lançando esta campanha há dois dias e vimos uma resposta impressionante: de todas as conferências já existem pronunciamentos. Da conferência brasileira, com uma convocação que acreditamos ser muito significativa, irmã Maria Inés liderando este processo com grande força, na Colômbia, irmão César, o pronunciamento também saiu, na Venezuela, com um pronunciamento unido com a conferência episcopal e outras redes de defesa da vida, a Argentina já viu seu pronunciamento.

O que queremos é somar vozes que possam mostrar mais o que está acontecendo na Amazônia e que isso é responsabilidade de todos, que cabe a todos nós alcançar e nos comprometer neste momento.

Muitas vozes apontam que a atual pandemia que estamos enfrentando pode produzir mudanças na vida da humanidade e na vida da Igreja. Para a vida religiosa, quais podem ser as mudanças que podem surgir da situação que estamos enfrentando atualmente?

Para todos nós, como humanidade e também para nós, como vida religiosa, essa crise constitui um convite para repensar a nós mesmos, repensar o estilo de vida, os hábitos, o que consumimos ou não consumimos e como isso está afetando a harmonia do planeta, o ritmo de vida. Tudo isso está gerando em nós, se vivermos com consciência essa pandemia, realmente um processo de conversão, que também nos lança a repensar as relações conosco, com o mundo e com o planeta, mais responsáveis e, entre nós, mais generosas, mais gratuitas, com maior responsabilidade. O convite é repensar os seres humanos que estamos sendo.

Essa crise revelou que nosso modo de viver, de nos relacionarmos com a terra, até agora gerou crises. Algo bom pode emergir da crise, e isso está se tornando uma oportunidade para todos nós nos fortalecermos para o trabalho comum, de outras maneiras para estabelecer solidariedade, comunidade e até comunicação. Muitas coisas foram reconsideradas, nossos ritos, a maneira de considerar o diálogo com coisas que consideramos vitais, tudo foi reconsiderado por essa pandemia. O ritmo de nossas agendas, a maneira como fazíamos nossas reuniões, as viagens que fazíamos.

Tudo entra em uma grande questão, que é realmente se perguntar como ter um relacionamento mais responsável, entre nós, com a terra, com os recursos e com que tudo possa estar ao serviço do bem comum. Algo muito importante também surge em relação à ética do cuidado, outras formas de estabelecer vínculos, cuidado, relacionamento conosco e com os outros. Há algumas grandes lições que esta pandemia está nos deixando.

Como religiosos, acho que é para confirmar que somos chamados ao trabalho em rede, para sair de nós mesmos, de nossos espaços, daquilo que consideramos vital no cotidiano e nos comprometermos mais com o trabalho intercongregacional e interinstitucional, para unir forças. Descobrimos que a iniquidade está afetando a todos nós, pessoas e países, e isso nos leva a pensar em uma ética de relacionamentos que pode ser diferente, mais inclusiva.

Você disse que aqueles que mais sofrem com as conseqüências da pandemia, como mostra o que está sendo vivido na Amazônia, são os mais pobres, aqueles que vivem nas periferias, poderíamos dizer que neste momento e nesta campanha que a CLAR lançou, seja um novo chamado, um novo ímpeto para a vida religiosa sentir a necessidade de estar presente nas periferias, para aceitar o convite do Papa Francisco às congregações para abrir novas frentes missionárias na Amazônia ?

Desde o Sínodo e o Documento Final, e agora com a Querida Amazônia, a vida religiosa sente o chamado para desvendar sua dimensão missionária, que é uma dimensão que durante os anos 80, 90 e até agora ficou turva. A década de 70 foi uma década que nos trouxe de volta ao campo, aos bairros, às encostas, mas depois entramos em um estado de letargia e acomodação. Depois do Sínodo, todos experimentamos com grande força o convite à missão, na periferia, é uma dívida que temos com os mais pobres.

Nos dois primeiros meses do ano, antes do início da pandemia, o que descobrimos é que muitas comunidades estavam discernindo seriamente a possibilidade de ir à Amazônia. O que essa pandemia revelou da realidade dos mais pobres da Amazônia constitui um chamado urgente para que nós, como vida religiosa, consideremos nosso lugar, e nosso lugar é no meio dos mais pobres, no meio da quem mais sofre. É uma dívida que existe de nós como sociedade, como vida religiosa. Os mais pobres não podem ser um número, não vale a pena dizer cinco mil mortos, não sei quantos infectados.

Essa situação faz com que os mais pobres tenham cara, os mais pobres têm dignidade e, com eles, como vida religiosa, somos chamados a fazer o nosso caminho. Como nossos olhos e nossa maneira de olhar precisam ser dos olhos dos crucificados, nosso lugar deve ser o das vítimas. Todos nós estamos experimentando um apelo muito forte a sair, a não se estabelecer, a retornar aos fundamentos de nossa vocação e consagração, àquele primeiro amor que nos fez sentir que queríamos consagrar a vida, mas para dar, não para economiza-la ou salva-la. Se nos consagramos foi para dar nossas vidas, e hoje mais do que nunca, isso se torna um imperativo.

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