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Teilhard de Chardin – Missa sobre o mundo

Com a pandemia surgiu uma nova prática litúrgica: assistir missas transmitidas na TV e na internet. Antes do Concílio a gente só assistia à missa. Depois, aprendemos a participar da celebração eucarística em comunidade. É uma recuada impressionante! Parece que o povo católico se esqueceu da igreja doméstica que reza unida, onde geralmente é a mãe que preside a reza da ladainha, do terço e de outras devoções.  Também as Comunidades tem a prática de celebrar nas casas os círculos bíblicos.

Dado o momento atual de confinamento e de isolamento dos templos religiosos e das nossas comunidades de fé, podemos rezar como Teilhard de Chardin, “A missa sobre mundo”. Cada um de nós pode celebrar, estendendo as mãos sobre alimentos, frutos da terra ou elementos da natureza que estão ao nosso alcance, consagrando-os para incorporar e refletir a presença divina e para receber essa comunhão em nossos corações e mentes.

A seguir a Missa sobre o Mundo:

“Senhor, mais uma vez nestas estepes da Ásia não tenho pão nem vinho, nem altar, então eu me elevarei acima dos símbolos até à pura majestade do Real, e vos oferecerei, eu, o vosso sacerdote e sobre o altar da terra inteira, o trabalho e o sofrimento do mundo.

O sol acaba de iluminar, ao longe, a franja extrema do primeiro oriente e, mais uma vez sob a toalha móvel de seus fogos, a superfície viva da Terra desperta, freme, e recomeça seu espantoso trabalho. Colocarei, pois, sobre minha patena, ó meu Deus, a messe esperada desse novo esforço.

Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que hoje serão esmagados. Meu cálice e minha patena são as profundezas de uma alma largamente aberta a todas as forças que, em um instante, vão elevar-se de todos os pontos do Globo e convergir para o Espírito. Que venham, pois, a mim, a lembrança e a mística presença daqueles que a luz desperta para uma nova jornada!

Outrora, carregava-se para vosso Templo as primícias das colheitas e a flor dos rebanhos. A oferenda que esperais agora, aquela de que tendes misteriosamente necessidade cada dia, para aplacar vossa fome, para acalmar vossa sede, não é nada menos do que o crescimento do mundo impelido pelo devir universal.

Recebei, Senhor, esta Hóstia total que a Criação, movida por vossa atração, vos apresenta nesta nova aurora. O pão, nosso esforço, não é em si, eu o sei, mais que uma degradação imensa e o vinho, nossa dor, não é, ai de mim, mais que uma dissolvente poção. Mas, no fundo dessa massa informe, colocastes – disso estou certo, porque o sinto – um irresistível e santificante desejo que nos faz a todos gritar, desde o ímpio ao fiel: Senhor, fazei-nos Um!

Porque, à falta do zelo espiritual e da sublime pureza de vossos santos, deste-me, meu Deus, uma simpatia irresistível por tudo quanto se move na matéria obscura, – porque irremediavelmente, reconheço em mim, bem mais que um filho do Céu, um filho da Terra, – subirei, esta manhã, em pensamento, às alturas, carregado das esperanças e das misérias de minha Terra-Mãe; e lá, por força de um sacerdócio que somente Vós, creio, me destes, – sobre tudo aquilo que, na Carne humana, se prepara para nascer ou perecer sob o sol que se levanta, eu chamarei o Fogo.

O fogo, mais uma vez, penetrou na Terra. Não caiu ruidosamente sobre os cimos como o raio em seu fragor. Força o Mestre as portas para entrar em sua casa? Sem abalo, sem trovão, a chama iluminou tudo por dentro. Desde o coração do menor átomo à energia das leis mais universais, ela tão naturalmente invadiu, individual e conjuntamente, cada elemento, cada mola, cada liame de nosso Cosmos que ele, poder-se-ia crer, inflamou-se espontaneamente.

E agora, pronunciai sobre ele, por minha boca, a dupla e eficaz palavra, sem a qual tudo desmorona, tudo se desata, em nossa sabedoria e em nossa experiência, – mas com a qual tudo se reúne e tudo se consolida, a perder de vista, em nossas especulações e nossa prática do Universo. Sobre toda a vida que vai germinar, crescer, florescer e amadurecer neste dia, repeti: Isto é o meu Corpo. E, sobre toda a morte pronta a corroer, fanar e segar, ordenai (o mistério de fé por excelência!): Isto é o meu Sangue.

Rico da seiva do Mundo, subo para o Espírito que me sorri para além de toda conquista, revestido do esplendor concreto do Universo. E, perdido no mistério da Carne divina, eu já não saberia dizer qual é a mais radiosa destas duas bem-aventuranças: ter encontrado o Verbo para dominar a Matéria, ou possuir a Matéria para atingir e receber a luz de Deus.

Se o Fogo desceu ao coração do Mundo é, finalmente, para me tomar e para me absorver. A partir de então, não basta que eu o contemple e que por uma fé viva intensifique sem cessar seu ardor à minha volta. É preciso que, depois de haver cooperado, de todas as minhas forças, com a Consagração que o faz jorrar, eu consinta enfim na comunhão que lhe dará em minha pessoa o alimento que ele veio finalmente procurar.

Cristo glorioso, influência secretamente difusa no seio da Matéria e Centro deslumbrante em que se ligam todas as fibras inúmeras do Múltiplo; Potência implacável como o Mundo e quente como a Vida; Vós que tendes a fronte de neve, os olhos de fogo, os pés mais irradiantes que o ouro em fusão; Vos cujas mãos aprisionam as estrelas, Vós que sois o primeiro e o último, o vivo, o morto e o ressuscitado: Vós que reunis em vossa unidade todos os encantos, todos os gostos, todas as forças, todos os estados: é por Vós que meu ser chamava com um desejo mais vasto do que o universo: Vós sois verdadeiramente meu Senhor e meu Deus!

Senhor, encerrai-me no mais profundo das entranhas de vosso Coração. E, quando aí me tiverdes, abrasai-me, purificai-me, inflamai-me, sublimai-me, até a satisfação perfeita de vossos gostos, até a mais completa aniquilação de mim mesmo.

Toda minha alegria e meu êxito, toda a minha razão de ser e meu gosto de viver, meu Deus, estão suspensos a essa visão fundamental de vossa conjunção com o Universo. Que outros anunciem os esplendores de vosso puro Espírito! Para mim, dominado por uma vocação que penetra até ás últimas fibras de minha natureza, eu não quero, eu não posso dizer outra coisa que os inúmeros prolongamentos de vosso Ser encarnado através da matéria: jamais poderia pregar senão o mistério de vossa Carne, ó Alma que transpareceis em tudo o que nos rodeia!

Ao vosso corpo em toda a sua extensão, ao Mundo tornado por vosso poder e por minha fé o crisol magnífico e vivo em que tudo aparece para renascer, eu me entrego para dele viver e dele morrer, ó Jesus!

* Teilhard de Chardin (1891-1955) nasceu na França. Padre jesuíta, cientista (paleontólogo e geólogo), filósofo e teólogo participou de expedições científicas. O texto da Missa sobre o Mundo foi redigido em 1923, quando no deserto de Ordos, China, não podia celebrar a Eucaristia.

* Publicado por Terra Boa.

 

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