Artigos e EntrevistasSínodo para a Amazônia

“A Conferência Eclesial da Amazônia é um banco de provas para a Igreja universal”. Entrevista com Dom David Martínez de Aguirre
Por Luis Miguel Modino

Acabou de nascer a Conferência Eclesial da Amazônia, algo novo, diferente, como todo o processo que levou a esse momento, o Sínodo para a Amazônia, pudendo dizer que é uma continuidade. Isso é expresso pelo vice-presidente dessa nova instituição eclesial poucas horas após seu nascimento, Dom David Martínez de Aguirre Guiné, bispo de Puerto Maldonado, um lugar que o Papa Francisco colocou para sempre no mapa da Igreja da Amazônia.
Torna-se realidade o que “é o espírito eclesial, onde os bispos, os pastores estão com o povo”, destaca o dominicano, que afirma que a Conferência Eclesial da Amazônia é um banco de provas, “uma conexão com esse sonho programático do Papa Francisco marcado na Alegria do Evangelho”, e, ao mesmo tempo, uma concretização do Concílio Vaticano II. É algo que traz novidades importantes, como a presença de mulheres e as vozes do território.
Trata-se de uma conferência “que queremos mostrar os rostos da Amazônia”, que afirma que “o rosto da mulher como sujeito eclesial na Amazônia é um rosto muito claramente definido”. De fato, “uma Conferência Eclesial da Amazônia, onde as mulheres não têm um papel importante, não seria da Amazônia”, uma afirmação que mostra qual pode ser o futuro de uma Igreja, onde esse papel feminino deve ser cada vez mais reconhecido. Por fim, trata-se de “mostrar o que já está acontecendo na base, diariamente, em nossas comunidades”.
O mesmo pode ser dito dos povos indígenas, que “querem se organizar como Igreja e querem dar uma contribuição à humanidade e ao resto da Igreja universal como parte desses rostos da Igreja Amazônica”, de acordo com Martínez de Aguirre, que insiste nisso “é muito importante que, na Igreja, paremos de ver os povos indígenas como objetos de evangelização, mas eles mesmos como sujeitos ativos”. Essa opção da Igreja pelos povos indígenas é muito clara há muito tempo, mas, de acordo com o bispo de Puerto Maldonado, é algo em que a figura do Papa Francisco teve um papel fundamental para se tornar visível. Agora é a hora de ir fazendo nosso caminho, sabendo que “temos muito trabalho pela frente”.

O que é a Conferência Eclesial da Amazônia?
É um organismo criado na Amazônia para tentar responder aos desafios que a Igreja Amazônica, nos últimos anos, vem descobrindo e estabelecendo prioridades, especificadas nos documentos pré-sinodais, no próprio Sínodo, com seu Documento Final, e nos sonhos que o Papa estabelece na Querida Amazônia. Pode-se dizer que a Conferência Eclesial da Amazônia surge de todo esse processo, que será o organismo que deverá coordenar, promover, todos esses sonhos e toda essa renovação pastoral e evangelizadora da Amazônia.
A primeira coisa que surpreende é que não se trata de uma conferência episcopal, mas de uma conferência eclesial que, segundo seu presidente, cardeal Hummes, como ele disse na assembléia, ser eclesial foi uma sugestão do Papa Francisco. Podemos dizer que esta conferência pode ser considerada um experimento, não sei se é a palavra mais apropriada, de uma nova maneira de ser Igreja, baseada na sinodalidade, em que o bispo não é mais alguém que lidera a Igreja exclusivamente, mas alguém que faz parte de toda a caminhada eclesial?
O Sínodo para a Amazônia, como bem me lembro quando participei como secretário, já era algo diferente dentro do processo sinodal da Igreja, e esta Conferência Eclesial da Amazônia é uma continuidade. Quando li os documentos, vi que isso é totalmente consistente com o Sínodo, é o que vivemos no Sínodo, é o espírito eclesial, onde os bispos, os pastores estão com o povo. Como o Papa Francisco disse na exortação a Alegria do Evangelho, às vezes na frente, às vezes no meio, às vezes atrás, os pastores estão lá.
Este é um organismo misto, onde estão os bispos, mas também há a presença do Povo de Deus. O Papa Francisco, já em 2013, quando esteve no Brasil, diz aos bispos brasileiros que a Amazônia é o banco de provas da Igreja Brasileira. O Papa Francisco quer que isso se aplique a toda a Igreja universal, ele também pensa que a Amazônia, esta Conferência Eclesial da Amazônia, é um banco de provas. Quem leu a exortação a Alegria do Evangelho, descobre trechos nesta Conferência, vê que há uma conexão com o sonho programático do Papa Francisco marcado na Alegria do Evangelho.
O Papa também declarou que a sinodalidade deve ser o sínodo da Igreja do século 21, e de fato esta Conferência Eclesial da Amazônia tem uma nuance muito nova que tem a ver com sinodalidade e com a participação de todo o Povo de Deus, uma concretização do Concílio Vaticano II neste modo de ser Igreja.
Diz-se no comunicado que apresenta a nova conferência que ela é uma resposta oportuna ao clamor dos pobres e da Irmã Mãe Terra. Poderíamos dizer que a sinodalidade, os pobres e o cuidado da Irmã Mãe Terra, da casa comum, são os elementos fundamentais do pontificado do Papa Francisco e que esta conferência quer promover tudo isso?
A sinodalidade, os pobres, cuidado da casa comum e a parrhesia do anúncio do Evangelho, realmente acreditar que o Evangelho, a Boa Nova de Jesus, é um renovador da pessoa, um renovador da humanidade. Há uma paixão pelo Evangelho e esta Conferência Eclesial da Amazônia nasce com essa paixão pelo Evangelho de Jesus e acreditando que o Evangelho de Jesus é uma Boa Notícia para a Amazônia e uma Boa Notícia da Amazônia para o mundo. A esses elementos que você disse, eu também acrescentaria a paixão pela Boa Nova de Jesus.
Conferência eclesial em que há mulheres, a presidente da Conferência Latino-Americana de Religiosos – CLAR e duas das representantes dos povos indígenas. Que papel as mulheres podem ter nesta conferência?
É o rosto da Igreja. Uma das coisas que foi dita, e que o Papa também disse em Puerto Maldonado, é que queremos uma Igreja com rosto amazônico, queremos uma Igreja que mostre os rostos da Amazônia. Essa Conferência Eclesial da Amazônia quer se encarnar naqueles rostos, e o rosto da mulher como sujeito eclesial na Amazônia é um rosto muito claramente definido. Uma Conferência Eclesial da Amazônia, onde as mulheres não têm um papel importante, não seria amazônica, não pertenceria a essa Igreja amazônica.
O papel que as mulheres terão nesta conferência será o que elas já desempenham nas bases, nas paróquias, nos vicariatos, nas dioceses. Está refletindo a estrutura da Igreja, em um nível organizacional mais universal, mais regional neste caso, mostrando o que já está acontecendo na base, diariamente, em nossas comunidades. É para quebrar a dicotomia em que a mulher participa até certo ponto, mas, em alguns níveis de decisão, ela não tem participação. Esta Conferência Eclesial da Amazônia é uma amostra do que é a Igreja na Amazônia e, é claro, a mulher tem que participar. A mulher na Igreja amazônica está presente com uma voz muito clara, muito necessária e muito válida.
Também a presença de representantes dos povos indígenas. Essa presença das vozes do território, que exigem uma aplicação prática do Sínodo, em que sentido elas podem ajudar no dia a dia desta conferência?
Dom Gerardo Zerdín costuma dizer que precisamos parar de falar sobre eles e nós em relação aos povos indígenas, no sentido de que eles são objeto de evangelização e nós somos os sujeitos, os evangelizadores. É entender que os povos indígenas, que existem comunidades, que existem povos indígenas que receberam a mensagem de Cristo e leram o acontecimento de Cristo, e querem se organizar como Igreja, querem fazer uma contribuição para a humanidade e para o resto da Igreja Universal como parte desses rostos da Igreja amazônica.
Parece-me muito importante e, quando dizemos uma Igreja pobre e para os pobres, uma Igreja dos mais vulneráveis, nesta Conferência Eclesial, que inclui povos indígenas, que têm voz ativa e que podem gerar processos, é muito importante para que na Igreja paremos de ver os povos indígenas como objetos de evangelização, mas eles mesmos como sujeitos ativos. A partir daí, surgirão todos os problemas, como territorialidade, tão importante para essas comunidades, cuidado da casa comum, educação, cultura, saúde, interculturalidade, inclusão de todos os povos. Penso que a sua presença é muito importante e que a contribuição será muito significativa, muito enriquecedora.
Povos e organizações indígenas, inclusive no mais alto nível, como é o caso da COICA, destacaram nos últimos meses a importância da aliança que foi estabelecida entre a Igreja Católica e os povos indígenas, uma aliança que ainda foi reforçada com o enfrentamento conjunto da pandemia de coronavírus. Poderíamos dizer que esta Conferência Eclesial da Amazônia estabelece definitivamente essa aliança como algo presente e duradouro para o futuro dos povos indígenas e da Igreja Católica na Amazônia?
A Igreja há muito tempo é aliada dos povos indígenas, e eu digo isso com o meu coração, acho que sim. O que aconteceu é que se tornou visível, não era visível, mas não é que a Igreja tenha subitamente percebido que precisa prestar um serviço aos povos indígenas. Há missionários que há anos, e eu ousaria dizer que centenas de anos, pelo menos aqui na Igreja peruana, fizeram uma opção muito clara pelos povos indígenas, de defesa, desde o início. Embora, às vezes, tenha havido críticas a alguns episódios que não foram tão claros, arriscaria dizer que o general, o comum, tem sido uma opção clara e inegável para a defesa dos povos indígenas.
Mas não conseguimos torná-lo visível, não conseguimos alcançá-lo nessas esferas de organizações. O que foi alcançado nos últimos anos é essa visibilidade, isso é ótimo. E isso liderado pelo Papa Francisco, uma figura de importância internacional. Que o Papa Francisco tenha dado mensagens tão claras e colocado os povos indígenas no centro e no coração da Igreja, e dali para o coração do mundo, os indígenas evidentemente descobriram o que já era. O que acontece é que isso se tornou visível no coração da Igreja, em Roma, e isso foi muito importante.
Esta conferência eclesial deve dar permanência a tudo isso, muito mais com a presença daqueles povos permanentemente nela. É uma opção muito forte da Igreja Católica pelos povos indígenas, e isso deve ser aproveitado.
O senhor já sabe como esta Conferência funcionará, quais são as medidas a serem tomadas nos próximos meses, especialmente quando essa pandemia de coronavírus for superada e a Igreja puder voltar a trabalhar em conjunto com os povos da Amazônia?
Estamos em um processo. Após o Sínodo, houve um tempo, que também foi condicionado pela pandemia, em que essa conseqüência vem se formando, o que também foi importante para a organização. Temos um plano pastoral e quem vai realizar esse plano pastoral estava faltando. Agora, o primeiro passo é tentar preparar os estatutos, que serão apresentados ao Santo Padre, que deverão ser aprovados e valorizados. Um primeiro passo foi dado, um pouco dessa inércia saiu e agora teremos que trabalhar. A partir de agora, será necessário ver como esta Conferência é organizada, como estabelecerá relações com a REPAM, como será integrada a tudo o que é o CELAM.
Será necessário ver como vai se fazendo, mas foi dado um passo muito importante, que é o próprio nascimento da Conferência, que é a coisa mais importante. E o resto, pouco a pouco, não há caminho, o caminho é feito caminhando. Temos muito trabalho pela frente.

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