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Celebrar a fé em tempo de isolamento social
Por Penha Carpanedo, Discípula do Divino Mestre

A vivência religiosa comunitária tem experimentado desafios inéditos, neste tempo de pandemia em que as exigências de distanciamento físico impediram que as celebrações nos templos fossem realizadas como de costume. Mas este período também suscitou iniciativas de oração comunitária utilizando as potencialidades das novas tecnologias de comunicação, como a transmissão de missas pela internet, a reunião de grupos para rezar os Salmos ou o Ofício Divino das Comunidades com o auxílio de aplicativos nos aparelhos de celular com acesso à internet. .
Ir. Penha Carpanedo que já tem nos oferecido semanalmente os roteiros para celebração em casa, agora nos presenteia com esta importante reflexão sobre a celebração da fé no atual contexto marcado por perplexidade, mas que tem dado a oportunidade de voltar a alguns fundamentos das comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus.

Segue o texto:

OOuvimos dizer, de muitas e diferentes maneiras, que o mundo terá que ser reinventado depois desta dramática experiência que assola o planeta neste ano de 2020: desde a forma de gerenciar a economia, a relação com o meio ambiente, os modos de viver dentro de nossas casas até o jeito de ser Igreja.
Se essa provação pela qual estamos passando fizer de nós pessoas melhores e suscitar uma nova maneira de viver em sociedade, em comunidade e em família, então teremos transformado esta terrível crise em uma grande oportunidade.
De fato, em março deste ano, de repente, a necessidade do isolamento social como medida sanitária no combate à covid 19, nos colocou em crise, no plano social, econômico, ambiental, interpessoal. Na Igreja, ficamos impedidos(as) de nos reunirmos em comunidade, e quem celebra a Eucaristia semanalmente, sentiu na pele o que significa não poder celebrá-la.
De repente nos damos conta em que ponto chegamos depois de 60 anos de uma “revolução” do ponto de vista eclesial e litúrgico, em que o povo cristão passou a ser sujeito eclesial e sujeito também na ação litúrgica. De imediato uma avalanche de missas com o padre mas sem o povo oferecida via mídia, com direito à comunhão sem celebração, é recebida como resposta satisfatória por grande parte do povo católico.
Que a Eucaristia seja a mais alta expressão-fonte da fé da Igreja o próprio Concilio o afirmou (Cf. SC 10)*. Mas, talvez, com este jejum de missa, nos é dada a oportunidade de redescobrir o verdadeiro sentido da eucaristia, que não é a única forma de presença real de Cristo e cujo princípio é a reunião do povo de Deus, primeiro sacramento da presença do Ressuscitado. Trata-se de uma chance de fazer desse jejum, clero e fiéis, um ato solidário com todas as pessoas que estão privadas da celebração dominical, sobretudo com as milhares de comunidades que em todo o Brasil, 70% delas, passam pelo menos um domingo no mês sem eucaristia, enquanto muitas destas comunidades ficam até um ano ou mais sem presença de um presbítero para presidir a Ceia com o Senhor.
Além disso, de forma alguma a missa é a única maneira de celebrar o memorial do crucificado-ressuscitado. E aí, este tempo de pandemia tem se apresentado como oportuna ocasião de resgatar outras maneiras de celebrar a fé, também pertencentes à liturgia da Igreja, como o é, a Celebração da Palavra de Deus e o Ofício Divino, além da piedade popular. Aliás, a missa não esgota toda a dimensão eucarística da Igreja. Quando celebramos o ofício divino na hora do sol nascente, estamos oferecendo um sacrifício de louvor. Quando nos reunimos na hora do sol poente para celebrar o ofício da tarde, estamos fazendo a Deus nossa oferenda de ação de graças (= ”eucaristia”). A oração de agradecimento à mesa das refeições, tem uma dimensão profundamente eucarística.
De fato, muitas famílias e pequenas fraternidades, tem se valido desta ocasião para celebrar nas Igrejas das suas casas, mediante a oração dos salmos pelo Ofício Divino das comunidades e a escuta das Escrituras ditadas pela liturgia diária e semanal, reunindo-se em circulo, ou, quem mora sozinho, colocando-se em oração silenciosa na presença de Deus. Trata-se de uma porção do povo de Deus que possui enraizamento na fé da Igreja, o sensus fidei, e tem suficiente autonomia para reunir-se como Igreja e celebrar o mistério da fé, graças à consciência que tem do sacerdócio batismal dos fiéis.
Em vez de assistir a missa à distância, esta liturgia doméstica, traz em si a garantia da presença de Jesus, conforme ele mesmo prometeu: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estarei no meio deles” (Mateus 18,20). Ele que tantas vezes visitou as casas do povo, conviveu com as pessoas, sentou-se à mesa e se reuniu com os seus para comer e beber… Depois de sua ressurreição, as comunidades cristãs se reuniam nas casas, “assíduas em escutar o ensinamento dos apóstolos, na solidariedade, na fração do pão e nas orações (Cf. At 2,41).
Assim, como a Igreja só acontece plenamente na liturgia, também a igreja da casa precisa da liturgia para expressar-se de forma plena. Apenas o estilo de uma e de outra será diferente. Na casa a liturgia terá uma forma bem mais simples, essencial, mas por ela podemos, igualmente, alegrar-nos com a presença de Jesus em nosso meio, escutar e meditar a palavra de Deus, erguer a Ele os nossos corações em preces, partilhar o pão da nossa mesa em ação de graças.
Portanto, essa experiência, digamos, forçada pela pandemia, aponta para um futuro, que já se faz presente, de uma Igreja que redescobre formas concretas de exercer o sacerdócio comum dos fiéis, na vida e na liturgia. Oxalá a experiência de celebrar no restrito ambiente da casa, nos devolva definitivamente o imprescindível da participação efetiva e ativa, e livre a Igreja de tratar o povo como mero espectador (Cf. SC 48).
Sigla
*SC – Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a sagrada liturgia.
*Penha Carpanedo é membra da Família Paulina e diretora da Revista Liturgia. Conheça mais acessando: https://revistadeliturgia.com.br

Artigo pulicado no blog da Paulinos

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