Artigos e EntrevistasSínodo para a Amazônia

“Laudato Si fez com que muitas pessoas de boa vontade estão muito atentas às questões da casa comum”, afirma Dom Leonardo Steiner
Por Luis Miguel Modino

O Sínodo para a Amazônia tem marcado um antes e um depois na história da Igreja da região, inclusive pode abrir caminhos novos para a Igreja universal, especialmente naquilo que diz respeito ao modo de viver a sinodalidade e os ministérios, além do cuidado da casa comum. Aos poucos isso vai sendo assumido por todos aqueles que fazem parte da caminhada da Igreja, como tem acontecido nas últimas semanas em Manaus no Curso Agentes Laudato Si. Neste sábado, 1º de agosto, o curso era encerrado com um seminário, que teve por título, “Sínodo para a Amazônia: processos, caminhos e perspectivas”, que contou com a assessoria da irmã Rose Bertoldo, Diego Aguiar e Dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus.

O Sínodo para a Amazônia, segundo Diego Aguiar, foi um Sínodo para conhecer a riqueza do bioma e dos povos, para reconhecer suas lutas e resistências, para conviver com a Amazônia e o modo de ser de seus povos, para defender a Amazônia, seu bioma e seus povos ameaçados. Um Sínodo que começou no encontro do Papa Francisco com os povos indígenas em Puerto Maldonado – Peru, e que depois foi se desdobrando no Conselho pre-sinodal, equipe de assessores, documento preparatório, escutas Sinodais, assembleias territoriais, grupos de reflexão, encontros de bispos, Documento de trabalho, Assembleia Sinodal, Documento Final e Exortação Apostólica.

Dessa Assembleia Sinodal participaram 283 pessoas, dentre eles 185 padres sinodais com direito a voto, mas também teve um grupo de 36 mulheres, 21 religiosas e 15 leigas. Uma delas foi Rose Bertoldo, quem dizia que “não tivemos direito ao voto, mas deixamos registrado para o Papa”. No percurso da Assembleia Sinodal, foi feito um pedido por escrito ao Papa das mulheres participantes da Assembleia. A auditora sinodal destacava o grande simbolismo da presença dos mártires na sala sinodal, memória de “uma Amazônia que guarda a vida de tantas mulheres e homens que derramaram seu sangue na defesa da vida, do território”.

A religiosa foi apresentando como foi acontecendo a Assembleia Sinodal, que “aconteceu de uma forma muito orante”, destacando a presença continua, liberdade, proximidade e simplicidade do Papa Francisco, que segundo ela “gostava das conversas gratuitas, olhava na plateia para identificar de onde as pessoas falavam, muito atento a tudo o que acontecia, intervia quando percebia que o grupo não avançava”. O Assembleia Sinodal teve seus desdobramentos fora da sala sinodal, na tenda da Casa Comum, nos tantos grupos que estavam presente, nos jornalistas que fizeram com que o mundo acompanhasse a assembleia, segundo Rose Bertoldo, que destaca que “o legado deste sínodo ficará para a história da Igreja”.

A auditora sinodal apresentou o Documento Final, que o Papa autorizou sua publicação no fim da Assembleia Sinodal, e assumiu na introdução da Querida Amazônia. Um documento estruturado em torno à conversão pastoral, cultural, ecológica y sinodal, destacando os elementos presentes no documento. Ela ressaltava a grande importância das mulheres na Assembleia Sinodal, relatando diferentes testemunhos nesse sentido. Ao mesmo tempo, seguindo o tema do seminário, apresentava os processos, caminhos e perspectivas presentes no Documento Final do Sínodo.

O Sínodo para a Amazônia é fruto de um longo processo histórico, segundo Dom Leonardo Ulrich Steiner. Os bispos do Brasil foram refletindo ao longo de vários anos sobre a necessidade de um encontro para refletir sobre a Amazônia e sua realidade, algo que se concretizou no encontro de Belém, em 2016, onde os bispos da Amazônia brasileira fizeram um pedido oficial ao Papa. Junto com isso, Dom Leonardo, lembrando a época em que ele era Secretário Geral da CNBB, lembrava que “cada vez que o Papa nos encontrava, sempre nos perguntava, vocês estão cuidando da Amazônia, a Amazônia está dentro do meu coração”.

Desde 2015, com a Laudato Si, a questão da Amazônia veio a tona na vida da Igreja, segundo o arcebispo de Manaus, quem afirma que “depois todas as dinâmicas sinodais foram criadas”. Ele destaca a preocupação muito grande de que a questão da Amazônia se torne uma questão para toda a Igreja e para todo o mundo, reconhecendo que devagar está acontecendo isso. Voltado para o momento atual, “na pandemia a Amazônia correu o mundo na sua deficiência, nas suas dificuldades, mas correu o mundo também como cultura, como povos indígenas, ribeirinhos, mostrando a preocupação de muitos para com a Amazônia”.

Segundo o arcebispo, “já vemos muitos bancos, empresários, querendo projetos para a Amazônia, mas devemos estar muito atentos para ver que projetos são esses, se são projetos para cuidar a Amazônia, ou são de novo projetos de lucro”. Uma questão fundamental, segundo Dom Leonardo é a formação para todos na Igreja, enfatizando a necessidade da formação dos padres a partir da realidade, deles compreender a teologia, a eclesiologia a partir da sua realidade. Ele abordava algumas questões presentes na reflexão sinodal como a ministerialidade, o tema das diaconisas, enfatizando que o Papa se comprometeu a renovar a comissão que estuda esse tema, algo que já existiu na história da Igreja. Junto com isso, um tema muito presente no debate eclesial durante o proceso sinodal, como foi a ordenação de homens casados, algo que aparece no Documento Final, um documento “que vai exigir muito de nós e que foi assumido pelo Papa em Querida Amazônia”.

Ao falar de Querida Amazônia, o arcebispo de Manaus destacava que ela recolhe as ressonâncias do diálogo acontecido no processo sinodal. Segundo ele, a exortação mostra a importância da encarnação, insistindo em que “é um documento para a Igreja toda, que quer interpelar, um documento muito aberto, não se trata de um documento só eclesial, aborda questões que abrangem todas as pessoas”. Nesse sentido, Dom Leonardo afirma que a Laudato Si fez com que “muitas pessoas de boa vontade estão muito atentas às questões da casa comum”. Por isso, Querida Amazônia é “uma exortação dirigida a todo mundo, que leva em consideração toda a questão da casa comum”.

Falando dos sonhos, ele insiste em que não são sonhos irrealizáveis. Do sonho social, o arcebispo destacava que ele quer incluir a todos e a tudo, que é preciso indignação e pedir perdão pela realidade que nós temos hoje, consequência das agressões à Amazônia. O sonho social também enfatiza o sentido comunitário, não deixar ninguém de lado, integrar a todos, a través do diálogo e a escuta. Segundo Dom Leonardo, o sonho cultural, faz um chamado a cuidar da diversidade cultural e cuidar das culturas, a repensar o estilo de vida, a viver desde o respeito, não se impor, aprender com as culturas dos povos originários, muito ameaçadas.

No sonho ecológico deve ser enfatizado o cuidado da casa comum, compreender que tudo está interligado, que na medida que vamos agredindo a casa comum, a vamos desmontando, segundo o arcebispo, que enfatiza a importância do cuidado das relações, afirmando que o Papa fala de profecia da contemplação, de sermos atingidos pela beleza, pela grandeza da natureza para termos uma nova relação. Finalmente, no sonho eclesial, o elemento fundamental é uma fé inculturada, assentada, que leve em consideração todos os elementos, como a Igreja tem ido fazendo ao longo da história. Para Dom Leonardo, o anuncio da fé deveria ser inculturado, também a espiritualidade, a liturgia, que os povos consigam expressar sua alma religiosa, uma inculturação dos ministérios. Ao mesmo tempo, destacava a importância que o Papa dá às mulheres, sua participação na vida da Igreja.

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