ColunistasFrancisco Orofino

A Campanha da Fraternidade Ecumênica e a Covardia Episcopal

A proposta da 5ª CFE, explicitada no Texto Base, recebeu distintas reações por parte do episcopado católico. Vários bispos, graças a Deus!, assumiram corajosamente a proposta. No entanto, a grande maioria permaneceu silenciosa, ou, quando muito, o bispo fez uma missa (!) de abertura e entregou o desafio aos párocos. Alguns, no entanto, refutaram não apenas a proposta da Campanha como o próprio Ecumenismo em suas dioceses. É triste constatar que, depois de 60 anos de um Concílio “Ecumênico”, o termo “ecumenismo” ainda apavora certos bispos.

Também podemos constatar que as propostas pastorais sugeridas pelo Texto Base vão contra a pauta bolsonarista, explicitada e defendida pela ministra Damares. Assim, alguns bispos, ao rejeitar a proposta pastoral da 5ª CFE, apenas revelaram sua opção política pela bolsonarismo. Caíram as máscaras. Aderiram ao Anti-Cristo!

Aqui não vou repetir o que já está indicado no Texto Base. Destaco apenas que um importante ponto de partida seria a criação de grupos intereclesiais para fazer uma boa avaliação da caminhada ecumênica, destacando os frutos pastorais gerados até agora. Afinal, sendo esta a quinta CFE, podemos rever tudo aquilo que conseguimos ou atingimos nestes últimos vinte anos.

A proposta da 5ª CFE é construir a unidade através de um diálogo amoroso. Ora, diálogo supõe vencer os atuais muros que nos separam. Para tanto, precisamos ser “amorosos”, ou seja, construir um ecumenismo a partir de um envolvimento afetivo. O caminho do Ecumenismo passa pela amizade, pela proximidade, pelos encontros, pela partilha. Temos que dar passos concretos que nos ajudem a vencer as desconfianças, os preconceitos e as barreiras criadas por nossas identidades confessionais. Um diálogo amoroso permite que partilhemos as dores e as alegrias que atingem a todos, indistintamente, para além de suas confissões religiosas. É importante que saibamos acolher outras propostas cristãs, sabendo respeitar suas tradições, seus ritos, suas maneiras diferentes de agir, de pensar, de se exprimir, de congregar.

Vou ressaltar aqui dois pronunciamentos recentes da Igreja Católica Romana. São algumas citações da última Encíclica do papa Francisco, a Fratelli Tutti (FT), lançada em 04 de outubro de 2020, e do Documento do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos chamado “O Bispo e a unidade dos cristãos – Vademecum Ecumênico”, de 04 de dezembro de 2020.

Na Fratelli Tutti, o papa Francisco aponta as bases de um verdadeiro diálogo que procura superar as divisões e desconfianças mútuas. No capítulo 6 da FT, Francisco reflete sobre o Diálogo e a Amizade Social. Vale a pena conversar sobre esta proposta (FT 203): “O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos. A partir da própria identidade, o outro tem algo para dar, e é desejável que aprofunde e exponha a sua posição para que o debate público seja ainda mais completo. Sem dúvida, quando uma pessoa ou um grupo é coerente com o que pensa, adere firmemente a valores e convicções e desenvolve um pensamento, isto irá de uma maneira ou outra beneficiar a sociedade; mas só se verifica realmente na medida em que o referido desenvolvimento se realizar em diálogo e na abertura aos outros. Com efeito, «num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contato e sobretudo trabalhar e lutar juntos». O debate público, se verdadeiramente der espaço a todos e não manipular nem ocultar informações, é um estímulo constante que permite alcançar de forma mais adequada a verdade ou, pelo menos, exprimi-la melhor. Impede que os vários setores se instalem, cômodos e autossuficientes, na sua maneira de ver as coisas e nos seus interesses limitados. Pensemos que «as diferenças são criativas, criam tensão e, na resolução duma tensão, está o progresso da humanidade».

Já o documento do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos é uma proposta ecumênica bastante prática, que bem poderia ser objeto de estudos em nossas paróquias ao longo desta CFE. Este documento, voltado para uma pastoral ecumênica nas dioceses católicas, traz importantes sugestões práticas voltadas para a construção da unidade ecumênica a partir das frentes pastorais das comunidades católicas. O esquema do Documento é o seguinte:

  1. A promoção do Ecumenismo dentro da Igreja
  2. A Igreja Católica e suas relações com outros cristãos
  3. O Ecumenismo Espiritual
  4. O Diálogo da Caridade
  5. O Diálogo da Verdade
  6. O Diálogo da Vida
  7. O Ecumenismo Pastoral
  8. O Ecumenismo Prático
  • O Ecumenismo Cultural.

Cada divisão do Documento se encerra com uma série de sugestões práticas que podem ser assumidas em nossas comunidades como compromissos concretos da CFE de 2021.

Eis algumas destas sugestões pastorais:

– Identificar as necessidades pastorais comuns com outras Igrejas cristãs.

– Escutar e aprender com as iniciativas pastorais de outras Igrejas cristãs.

– Identificar, mediante um diálogo com outras pessoas responsáveis, as áreas pastorais que exigem um serviço comum às Igrejas cristãs.

– Rezar, de forma pública ou privada, com outras lideranças cristãs.

– Convidar, quando for oportuno, outras lideranças cristãs para as celebrações litúrgicas ou outros eventos significativos da Igreja Católica.

É isso que o pontificado de Francisco está propondo para a caminhada ecumênica. Na verdade, ele joga a bola para os bispos diocesanos. Ou o ecumenismo se concretiza nas dioceses ou ele continuará sendo mero encontro de cúpulas das Igrejas cristãs. Escutando algumas lideranças na área do Ecumenismo dentro da Igreja Católica, alguns acham que, diante da resistência de fortes setores do episcopado brasileiro, esta seria a última Campanha da Fraternidade Ecumênica. O Documento do PCUC espera que as dioceses assumam corajosamente a proposta ecumênica da Igreja Católica Romana e, aqui no Brasil, continuem com a rica experiência das CFE.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal das CEBs
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