ColunistasJorge Alexandre Alves

A escolha de nossas vidas

Domingo que vem acontecerá a eleição das nossas vidas. O resultado decidirá como será o Brasil pelas próximas décadas. Nesta hora histórica estamos diante de dois caminhos totalmente opostos. 

Passamos os últimos anos mergulhados em um enorme abismo. A fome massacra 33 milhões de pessoas. Nas grandes cidades milhares vivem pelas beiras das calçadas.

Mais de 686 mil pessoas morreram na pandemia. Milhões de brasileiros se expuseram à doença para poder sobreviver. Tudo isso poderia ter sido evitado.

Somos assolados a todo instante pela violência homicida nas metrópoles brasileiras. O povo preto, pobre que vive nas periferias é oprimida ora por criminosos, ora pela polícia que executa medidas que não trazem sossego à população.

Nossos povos originários têm suas terras invadidas, ambientalistas e defensores das florestas são mortos. A gente preta que construiu a riqueza de nosso país é tratada como pessoa de segunda classe. O racismo é chaga que ainda sangra, violenta e barbaramente a sociedade. 

Mulheres são vítimas do machismo e da misoginia. Indivíduos LGBTQIA+ tem seus corpos vigiados e punidos apenas por existirem. Famílias estão divididas e amizades foram rompidas. 

O conhecimento é desprezado, a ciência é ignorada e pensar criticamente ficou perigoso demais. Vivemos uma escalada de ódio que nos faz lembrar aquela página infeliz da nossa história, passagem desbotada da memória das nossas novas gerações.

O respeito à vida deu lugar ao desdém. A solidariedade e a empatia desapareceram. Hoje a realidade é atacada pela falsidade da mentira e pelo engano das meias verdades. 

Na denúncia e na resistência, viramos hereges, apóstatas e traidores da pátria. Quem nos acusa se esconde em um nacionalismo hipócrita, que me remete ao literato inglês que dizia ser o patriotismo o último refúgio dos canalhas.

Estamos cansados dessa insanidade perversa. Queremos viver dias mais amenos, onde discordar não signifique odiar, onde pensar com competência não seja um crime e ser adversário não seja sinônimo de ser inimigo.

Queremos recomeçar mais uma vez, e inaugurar um novo tempo no qual nossa cor, nossa fé, nossa ideologia, nosso corpo, com quem deitamos não seja mais risco de vida. Sonhamos com comida na mesa, escola para a garotada, sossego para os idosos e trabalho que dignifica toda a gente.

Desejamos saúde e cuidado, beijos e abraços, alegria e festa. Precisamos de solidariedade na dor e não do deboche, do luto contrito e não do escárnio quando falta o ar. Queremos nosso país de volta, usar nossas cores, se emocionar com as artes, nos comover com o hino nacional.

Neste domingo decisivo poderemos optar pelo caminho da vida. Está em nossas mãos dar um basta a tanta dor e a tanta mentira. Só depende de você, de mim, do nosso povo. Por isso não se omita. Dia dois de outubro, vote pela vida.

Desta vez o nosso voto não será um gesto individual. Em nosso voto estará o legado de nossa história. Votaremos não apenas por nós neste momento crucial.

Votaremos por aqueles regaram com sangue o solo desta terra. Em nosso voto poderá estar o voto daqueles que sofreram com os grilhões da escravidão. Nosso voto será pelos que lutaram pela verdadeira independência do povo brasileiro.

Votaremos por Zumbi e Dandara, pelos conjurados baianos; por Maria Quitéria e Joana Angélica. Pelos malês revoltos, por balaios e cabanos. Por frei Caneca e seus companheiros. 

Votaremos pelos que lutaram pela abolição e pelos que hoje lutam para que o sonho de liberdade vire realidade. E também pelas vítimas da violência do latifúndio, da bala perdida e da milícia

Votaremos por Conselheiro, seu arraial de Canudos; pelo Contestado e pela revolta da Armada. Pelos grevistas de 1917 e seus anarco-sindicalistas. Por João Cândido e os revoltosos da Armada

Votaremos pela Coluna Prestes e por Olga Benário; por Apolônio de Carvalho e Davi Capistrano. Por Gregório Bezerra  e Carlos Marighella.

Em nosso voto está o legado dos que deram a vida pela democracia. Votará conosco Frei Tito de Alencar, Stuart Angel e Iara Iavelberg. Também votarão com a gente Manoel Fiel, Wladimir Herzog, Santo Dias e Margarida Alves. Tupã Marçal e Josimo, Dorothy e Marielle. Chico Mendes e Bruno Pereira.

Poderemos, com nosso voto, honrar a memória dos perseguidos, torturados e exilados nos anos de chumbo. Dos estudantes da UNE aos frades dominicanos, de Brizola e Arraes. De Paulo Freire, Lélia Gonzales e Milton Santos

Em nosso voto residirá a coragem dos que passaram a sua vida defendo os sem voz. Estaremos nas urnas com Hélder Câmara e Paulo Evaristo Arns, Com Luciano Mendes de Almeida e James Wright. Com Sergio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e Lélia Abramo.

Não existirá solidão na cabine de votação porque estaremos votando pela arte e pela cultura de nossa gente. Votaremos com a poesia de Cecília Meirelles, Drummond e Cora Coralina. Em nosso voto terá o texto de Sabino e de Quintana e os versos de João Cabral.

Traremos para as urnas os capitães de areia de Jorge Amado, as veredas do grande sertão de Guimarães Rosa e a malandragem de Macunaíma. Traremos o tempo e o vento dos pampas de Veríssimo com a alma encantadora de João do Rio.    

Votaremos ao som das marchinhas de Chiquinha Gonzaga, da gaita de Ary Barroso. Ouviremos Elis cantando uma música de Gonzaguinha, e sambaremos na cabine embalados por Jamelão e Mussum. Traremos as canções de Clara Nunes, a rebeldia de Cazuza e o Rock do Planalto Central na voz grave de Renato Russo.

Em nosso voto resgataremos a arte de Suassuna, de Patativa e de Sivuca. E reencontraremos a brasilidade de Carmem Miranda, a melodia de Caymmi, com a benção de Todos os Santos e dos Orixás de Mãe Menininha e Mãe Stella. Sairemos rezando a novena de dona Canô, junto com Ir Dulce.

Em nossa escolha poderá estar a pintura de Portinari e de Tarsila, a poesia de Villa-Lobos, Cartola e Adoniram. Só depende da gente resgatar a arte que embeleza a vida. O meu, o seu voto, o nosso voto vale mais que um voto dessa vez. O voto que daremos no domingo vale um país. 

Estamos diante de uma encruzilhada civilizatória. Eu escolho a vida, a festa, a esperança de um futuro. Eu voto pelos que vieram antes de mim. Mas também voto pelos que virão depois de mim. 

Enfim, entre a possibilidade da democracia que liberta e a necropolítica que gera a morte, não é difícil escolher. Não é preciso citar nomes. Basta imaginar qual voto será capaz de devolver o Brasil aos filhos deste solo.

As nossas vidas estão diante de um voto. Eu já fiz a minha escolha… E você? 

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