ColunistasRosemary Fernandes da Costa

A escuta profunda e próxima como caminho de comunhão

O caminho da espiritualidade libertadora é o caminho de profunda conexão, de perceber as interdependências, as relações e laços profundos que estão presentes na nossa história pessoal e nas muitas e muitas histórias que nos cercam. 

Essa é uma experiência encantadora mesmo. Ao ouvirmos uns aos outros, umas às outras, vamos também nos encontrando, nos identificando e descobrindo o quanto as vidas estão interligadas e até mesmo entrelaçadas num imenso tecido do grande costureiro do Universo. Essa experiência de profunda comunhão espiritual e vital é realizada por muitas tradições religiosas, mas também por irmãos e irmãs que não vivenciam essas tradições, mas que, pelas descobertas biológicas, científicas, antropológicas, percebem que tudo está interligado. 

Quem desejar aprofundar um pouco mais esta relação entre a Ciência e a Fé, indico um dos muitos artigos de nosso teólogo e amigo Celso Carias, que há muitos anos vem pesquisando essa relação de diálogo fecunda para ambos os lados. O artigo se encontra na página da Revista CREatividade, da PUC-Rio, ano 2013, número 1.

Mas, voltando ao nosso diálogo, gostaria de hoje conversarmos um pouco sobre o tema da ESCUTA. Sim, muito já pensamos, estudamos sobre este tema, pois está presente em nossas Comunidades nas rodas de conversa, nos círculos bíblicos, nas avaliações e planejamentos. Contudo, neste tempo em especial, alguns temas que parecem tão simples, pedem um olhar de perto, talvez com novos critérios de observação e de novas ações também. 

O papa Francisco nos lembra de que “nós, cristãos, esquecemos que o serviço da escuta nos foi confiado por Aquele que é o ouvinte por excelência, de cuja obra somos chamados a participar”, porque “quem não sabe ouvir o irmão, em breve não poderá ouvir a Deus“.

Nosso convite é para refletirmos sobre nossas formas de ‘escuta’. Muitas vezes, estamos diante das pessoas, mas não as escutamos profundamente, pois já iniciamos respostas dentro de nós, julgamentos, propostas e, até mesmo, nos distraímos. Na última coluna, mês passado, conversamos sobre a Espiritualidade e a Saúde, e descobrimos que de várias formas, não escutamos a nós mesmos, ao nosso corpo, às nossas emoções, aos nossos silêncios. 

Se essa dificuldade de ‘escuta’ acontece com conosco mesmos, também ocorre com nossas relações, desde as mais próximas até as mais distantes. As condições de proximidade e afinidade também definem o quanto ‘escutamos’ e o quanto preferimos não ouvir, não acolher e, portanto, não entrar em diálogo. 

O mesmo pode ocorrer com os fatos noticiados. Será que procuramos saber a veracidade deles, ou ficamos apenas com as versões que nos chegam através de alguns meios de comunicação? Esse hábito, infelizmente muito presente nestes tempos, vem gerando as notícias falsas (fake news), que produzem a falta de crítica e de posturas éticas diante dos fatos. 

Será que poderíamos aplicar as mesmas perguntas aos textos sagrados, aos documentos das igrejas, às fontes das tradições espirituais e suas interpretações? São muitos os casos nos quais isso também acontece, com leituras fundamentalistas, com interpretações que não passaram pelo ‘coração’ da Palavra que ali se revela, ou até com desvios da essência dos textos sagrados e espirituais. 

Então, vamos propor um pequeno caminho para essa aproximação à escuta de cada pessoa, de nós mesmos, dos fatos, das tradições espirituais. 

O primeiro passo é a decisão de escutar profundamente, com atenção. Isso mesmo, deixando de lado pré-conceitos, experiências que você já viveu, coisas que já ‘ouviu falar’ sobre aquele tema. Apenas escute, com todo o seu ser, seu corpo, seu coração, seus olhos, seus ouvidos, seus braços, sua respiração, sua mente. Nada disso significa abrir mão de sua identidade, de suas crenças e pertencimentos, mas não as colocar como uma muralha que impeça a escuta de outra pessoa. Portanto, repouse todo o seu ser na escuta atenta, profunda, silenciando barulhos e palavras interiores. 

Você vai então entrar em um segundo passo, que é um sentimento de intimidade, de comunhão, uma busca de ‘afinar a melodia’ entre você e a pessoa. Esse segundo passo não é muito fácil, pois ele pode trazer encantamento, mas também pode trazer incômodo, contrariedade, palavras ou ideias que você não concorda inicialmente. Permaneça nele, persevere, o primeiro diálogo começa dentro de você mesmo. Escute a si mesmo, quais foram as descobertas, os encontros, os desencontros, onde foi difícil, onde foi agradável. 

Esse segundo passo, que já trouxe um terceiro passo, que é o diálogo interior, com você mesmo, pode levar tempo. Não tenha pressa. Mesmo que pontualmente o diálogo seja concluído, deixe que ele fique ressoando em todo o seu ser, e você vai ouvir muitas outras ideias, vai sentir muitas emoções e descobertas. E, entrando nesse dinamismo do diálogo, sempre que possível, volte a ele, com novas observações, sentimentos, novas escutas e novas descobertas. 

A comunhão entre as pessoas não é uma única melodia, ela é composta de muitos acordes, muitos instrumentos, notas, tudo é plural. Qualquer tentativa de uniformizar, bem própria de nosso jeito de querer controlar e organizar, é também uma interrupção no caminho da comunhão. 

Escutar é aproximar, mas é também diminuir distâncias, encontrar os elos, as ligações e, juntos, buscarem novas palavras, novas ideias, novas conclusões. Elas virão como intersecções onde cada parte recebeu a outra em alguma medida, e se tornou nova. Essa é a fundamental experiência da alteridade. 

Pode ser que o mundo de hoje tenha nos deixado um tanto surdos de nós mesmos, surdos uns para os outros, surdos do que clama a Mãe Terra, surdos da voz do Amor Divino soprando em toda parte. Cientes e sensíveis a essa possibilidade real, cotidiana, será o caminho da escuta atenta, ativa, persistente, que nos conduzirá de volta à audição com toda a sua beleza e encantamento, com toda a sua revolução em nossas vidas. Essa audição nasce lá dentro de cada um de nós, nasce no coração. Não é tanto uma técnica, um método, mas um princípio que movimenta o nosso jeito de ser e de nos relacionarmos. 

Em tempos em que falta de escuta é evidente e vem provocando distanciamentos que se tornam verdadeiros abismos na história da humanidade, nosso exercício e testemunho são emergentes nessa dimensão. Sigamos aprendendo a aprender, juntos, humildemente e com os corações abertos e em comunhão. 

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mãos dadas
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

Thiago de Mello

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